Esta semana, voltamos à nossa série de entrevistas com criadores e criadoras de podcasts em português. A nossa quinta conversa é com Sofia Saldanha, que se aventura pelo áudio criativo e tem publicado trabalhos em meios desde a Antena 2 ao Short Cuts da BBC, recebendo prémios e distinções a nível europeu e no festival Third Coast, nos EUA.

Como é que chegaste à rádio, aos podcasts e a isto que chamas de áudio criativo?
Comecei a trabalhar em rádio em 1992, tinha 17 anos, na Rádio Universitária do Minho. Eu e uma amiga ligámos a perguntar se não tinham nada para fazermos e começámos a trabalhar no dia seguinte. Aprendi a expressar-me e a escrever na rádio. O que foi interessante nessa experiência, que durou muitos anos, é que era uma rádio que não tinha uma linha editorial rígida, estimulava a imaginação e a criatividade nas pessoas que lá trabalhavam. Qualquer ideia que nós tivéssemos era sempre bem-vinda. Um dos directores era o António Durães [actor e encenador], e às vezes dizia-lhe, “e se fizéssemos isto ou aquilo?” E ele respondia: “faz”. ”Mas eu não sei fazer!” “Olha, nem eu... Faz.” Tínhamos essa liberdade. Se não fosse essa experiência na RUM, talvez não tivesse esta capacidade de me aventurar a fazer coisas que nem sei se vão resultar. Às vezes resultam, outras não resultam, mas não faz mal. Para a próxima há de correr melhor.

Como foi a transição entre fazeres rádio dessa forma mais experimental e fazeres disso a tua profissão?
Trabalhei part-time na rádio durante vários anos, depois saí, entretanto voltei sendo meu trabalho, já a rádio tinha outra direcção... Era outra rádio. Podia fazer o que queria, mas já com uma visão diferente, com algum conhecimento. Quando saí de lá decidi que ia mudar a minha vida para fazer outra coisa. E fui morar para Inglaterra. Encontrei um mestrado em rádio no Goldsmiths College e escolhi esse curso quando vi no programa um módulo chamado “creative radio”. Foi quando comecei a descobrir documentários áudio que são feitos de uma forma mais criativa, foi uma experiência fantástica. Normalmente temos a teoria e depois vamos à prática, no meu caso foi ao contrário. E aí o puzzle encaixou-se.

Produzir esse tipo de peças é o teu trabalho a tempo inteiro ou vais conjugando com outros trabalhos?
Neste momento é a única coisa que estou a fazer, tenho tido alguns convites e estou a trabalhar numa série de projectos, mas até há algum tempo, uns dois anos, eu tinha outro trabalho que não tinha nada que ver com rádio. Acho que há neste momento uma maior sensibilização para o áudio. Agora estou completamente concentrada no áudio, felizmente, e tenho feito trabalho criativo. Fiz a sonoplastia de uma peça de teatro e também estou a trabalhar num filme que está a ser feito de uma maneira invertida. Fiz o áudio, a história, e agora o [realizador] João Garcia Neto está a fazer o trabalho dele, a determinado momento vamos juntar-nos e afinar as coisas juntos.

Qual é o teu processo habitual para produzir curtas de áudio criativo? Há alguma...
Uma fórmula mágica? (riso)

Há alguma altura em que sabes que tens que começar a pensar no passo seguinte? Quando começar a gravar, onde entra a edição?
O processo é sempre diferente. Nas peças mais curtas, quando são histórias que estou a contar e não tenho entrevistados, tenho controlo total da história. E gosto de incluir um bocadinho de ficção. Às vezes a realidade supera a ficção, mas para a história resultar às vezes temos que usar alguns elementos da dramaturgia. Por exemplo, O Piano foi uma peça que passou na Antena 2, fez parte do Santa Sexta, uma série com peças curtinhas escritas por alunos da pós-graduação em Dramaturgia e Argumento da ESMAE. Na primeira série do Santa Sexta produzi a maior parte das peças, os alunos escreveram os textos e fiz a sonorização, mas também escrevi duas peças. O Piano é uma história verdadeira, não tenho assim tanta imaginação (riso). Claro que tem elementos de ficção, mas o grosso da história é verdadeira.

Como foi o processo?
Foi tudo muito rápido, tinha uma série de ideias. Normalmente escrevo a história, faço um script que é sempre bastante longo, com muitos detalhes, e quando começo a gravar... Começo logo a ler alto e a gravar. O que é sempre para mim o mais trabalhoso é encontrar a voz do narrador. Que tom vou dar a esta peça? Tenho que gravar muitas vezes, mudar muito o texto, porque há coisas que depois percebo que não interessam, esta frase posso substituir por um som... No caso do Piano, os sons condicionam um pouco a história. Quando penso em pôr um elemento sonoro, tenho que mudar um bocadinho o texto.

Como encontras o equilíbrio entre usar áudio gravado por ti e ir buscar outro tipo de sons?
Tento gravar tudo o que puder. Às vezes não dá. Não tenho um telefone antigo... Mas se vou a casa de alguém que tem um telefone de disco, vou lá gravar. Ando sempre com uns microfones comigo, ou gravo com o telemóvel se for preciso. No Piano há uma parte musical que é gravada em estúdio. Quando estava a gravar senti que faltava uma parte musical que estivesse ao nível da voz, da minha narração, que é uma coisa mais de estúdio... Embora não grave em estúdio, gravo tudo em casa, não sou nada purista, desde que soe bem. Mas essa música fui buscar à Internet, achei que soava bem e usei. O resto, todos os outros sons de piano, são os sons verdadeiros da história, é uma história verdadeira.

Na tua casa?
Sim, gravei aquilo ali. Nunca contei a história ao meu vizinho, que era pianista... Ele não faz a mínima ideia que esta peça existe. Mas também não faz mal, porque isto tem um elemento de sonho também. É verdade e não é... É uma coisa mais dentro de mim do que outra coisa qualquer.

Quando gravaste o teu vizinho já tinhas planos de usar isto para uma peça? Que cuidados tens quando gravas?
Parto sempre do princípio que vou usar. Vai-me servir para alguma coisa, por isso é que gravo. O que usei para esta gravação são uns binaurais [AMBEO Smart Headset] que ligo ao telemóvel, que é o que uso na rua, andam sempre na minha carteira. Tenho usado nas minhas peças, limpo um pouco e resulta sempre bem. Esses microfones são maravilhosos porque dá para gravar em qualquer situação sem ninguém perceber que estás a gravar. Não é que grave as pessoas a falar às escondidas, mas para ambientes. Se para uma peça preciso de sons de café, saio de casa, sento-me, tomo um café, ponho os headphones e gravo.

O gravador muitas vezes cria estranheza às pessoas.
Sim, e o gravador que uso é um Marantz, é um gravador grande. Quando são ambientes, coisas muito simples, gravo com os binaurais. As entrevistas e a minha própria narração gravo com shotgun, um Sennheiser ME 66, que é o que eu gosto. Já uso há muito tempo esse tipo de microfone.

Trabalhas com outras pessoas ou fazes tudo sozinha?
Trabalho sempre sozinha. Gravo tudo, escrevo, faço tudo sozinha. Mas o processo às vezes é um bocado diferente, estou sempre à procura de experimentar. Por exemplo, escrever para a minha voz. Às vezes o narrador está ali para dar vida ao texto, mas já fiz o contrário, que é o texto estar a ser feito para o narrador, ou seja, para a minha própria voz. Como conheço muito bem a minha voz, porque já gravo há muito tempo, e também porque ao fazer os meus programas gravo-me e edito-me, também tenho essa flexibilidade. Mas para mim a narração é sempre a parte mais difícil das peças.

Em que sentido?
Quando são peças em que o narrador só está lá para coser as coisas, para dar um fio condutor à história... No caso do 25 de Abril, são só sons de arquivo. Peguei naqueles sons, que estavam dispersos, e tive que fazer uma narrativa. Essa narração foi simples de fazer, porque é muito factual, uma coisa mais jornalística. Já na narração do Fernando Pessoa foi muito complicado escrever o guião, tive ajuda de uma amiga. O Jorge Louraço Figueira [dramaturgo e professor da ESMAE] também me ajudou, sentou-se comigo umas horas. Eu tinha feito a edição das vozes das pessoas que entrevistei, era muita informação, depois tive que meter a minha voz por cima e não conseguia perceber quem era o narrador. Quem é que narra isto? Quem é que está a contar a história? Sou eu? Mas porquê? Quem é que sou eu? E ele ajudou-me, mandou-me fazer uns exercícios, foi muito engraçado. Fazer o percurso sozinha na perspectiva do Pessoa, na perspectiva de onde está o Pessoa agora, várias coisas.

Podes falar um pouco sobre o In The Dark?
O In The Dark começou em 2010, quando estava a começar o boom dos podcasts, mas havia muitas coisas que não estavam a passar para o mainstream. Quando aquilo ainda estava no início, apresentei-me e tive uma reunião com a Nina Garthwaite, comecei logo a colaborar. Era uma plataforma para divulgar coisas que estão mais escondidas, através de eventos. Queríamos recuperar um pouco a ideia de as pessoas juntarem-se para ouvir rádio, que acontecia antigamente. Nós fazemos a curadoria de uma sessão onde as pessoas ouvem às escuras. Ouvir em conjunto é uma experiência radicalmente diferente de ouvir sozinho nos fones, quando se está na rua ou quando se está em casa.

Em Portugal, o que considerarias mainstream? A Antena 2 é rádio e tem uma projecção diferente dos podcasts, mas não é propriamente mainstream…
Não sei responder bem. Comecei a sentir falta na rádio portuguesa de trabalhos que sejam mais criativos e mais cuidados, os podcasts são muito de conversa, ou mais jornalísticos. Falta esta ideia de uma rádio mais pensada, de tentar contar uma história de uma maneira que seja um bocadinho diferente. Quando comecei as sessões em Portugal, foi para mostrar coisas que não ouvíamos muito cá, outro tipo de rádio que se faz. Acabei por fazer sessões só em inglês, com muito poucas coisas em português, e isso também me chateia um pouco, porque não sei se faz muito sentido para mim, agora, estar em Portugal a fazer coisas que não sejam em português. Mas os meus trabalhos apresento sempre em sala, faço questão. Tenho um que vou apresentar em Outubro, outro em Novembro.

Quais são os podcasts que tens gostado de ouvir?
É difícil de responder. O meu trabalho é muito ouvir, e quando não estou a trabalhar gosto de estar em silêncio, nem ouço música nem nada. Mas às vezes dá-me saudades e apetece-me ouvir coisas. Há podcasts que fazem parte do meu percurso, de vez em quando vou ver o que estão a fazer. Mas posso falar de duas séries que ouvi recentemente, que contam histórias na primeira pessoa. Acho interessante esse trabalho, porque a rádio permite-se a ser intimista, muito mais do que a televisão ou a escrita, porque fala ao ouvido. Goodbye to All This é um programa que passou na BBC World Service, feito por uma australiana, Sophie Townsend. O marido dela morreu muito novo, ela passou por um processo de luto bastante complicado. Comecei a ouvir e não consegui largar até ao fim. Outro que descobri recentemente mas já tem alguns anos chama-se This Happened. É uma rapariga americana que foi abusada sexualmente pelo melhor amigo, mas o que aconteceu foi um pouco desvalorizado pelos amigos e pela família dela, e até por ela própria. São só cinco episódios em que ela explora esta ideia de às vezes, de certa forma, as mulheres desculparem estas coisas - estava bêbado, não estava bem, teve uma infância difícil. Ela faz esta reflexão, explora estas questões, vai falar com os amigos, com a família, sobre porque é que estas coisas acontecem. Achei uma perspectiva muito refrescante. Estas histórias que são mais da nossa intimidade ficam sempre muito bem na rádio, e ultimamente estão a fazer-se muitas coisas deste género, descomplexadas e descomprometidas, o que é muito bom.

A série especial podcasters regressa daqui a poucas semanas. Para quem não leu as entrevistas anteriores, ficam os links das conversas com Rute Correia (Interruptor), com Bernardo Afonso (Fumaça), com Rita Cabrita (Bruá) e com Marco António (366 Ideias). Se tiverem sugestões, digam-me coisas no Twitter ou por e-mail!


Placard

A Sofia Saldanha deixou uma série de sugestões de podcasts a que regressa sempre que quer ouvir boas histórias e procurar inspiração:


O que se anda a passar


Enquanto isso, no PÚBLICO...

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