Raquel Varela exige pedido de desculpas ao PÚBLICO

Direito de resposta de Raquel Varela aos artigos “Raquel Varela perde apoio em concurso da FCT devido a ‘erros’ no currículo” e “Raquel Varela contabilizou 67 artigos científicos e só tinha ‘metade’ desse número”, publicados entre 20 e 22 de Setembro de 2021, nas edições online e impressa do PÚBLICO.

Nunca, em momento algum da minha carreira, inseri no meu CV um artigo, publicação ou atividade científica que não tivesse sido por mim realizado. Exijo um pedido de desculpas do jornal PÚBLICO.

A diferença entre uma “narrativa” e a história

No dia 21 de setembro de 2021 (20 na edição online), o jornalista Samuel Silva publicou no jornal PÚBLICO um artigo, com chamada de capa e acompanhado de uma foto minha, intitulado “Raquel Varela perde apoio para concurso da FCT devido a ‘erros’ no currículo”. Em subtítulo, dizia: “CV tinha entradas repetidas, que faziam aumentar a contabilidade da produção científica da investigadora”.

Comecemos por esclarecer. Os investigadores universitários são obrigados em Portugal a preencher o seu CV numa série de plataformas. O CV fica, em acesso livre, na minha instituição, no Nova Research Portal; e no ORCID, no SCOPUS, no Ciência Vitae. Estas plataformas vão buscar automaticamente as publicações aos sites de revistas científicas, Google Scholar, entre outros. O artigo do PÚBLICO refere-se a um concurso FCT que usa uma dessas plataformas, o Ciência Vitae. Estas plataformas sincronizam automaticamente dados fazendo “duplicações” regulares (repetem o mesmo artigo). Nunca tive conhecimento de serem contabilizadas por júris, onde quer que seja. Um cidadão comum pode não entender estes mecanismos, mas um “editor de ensino superior do PÚBLICO”, Samuel Silva, não o pode ignorar.

O meu CV – Nova Research Portal – é público, Samuel Silva teve acesso a ele. Não existem aí duplicações porque o sistema vai-as eliminando. Além de duplicações, que o jornalista sugere fraudulentas, junta um exemplo, como ser editor e publicar um artigo na mesma obra, ignorando que estamos obrigados a assinalar dois momentos de avaliação distintos (coordenar uma obra, publicar nela).

Sem cronologia não há história

O IHC contactou-me no dia 27 de julho de 2021 dizendo ter uma denúncia anónima de “erros” no meu CV que chegou a um jornalista e órgão de comunicação social. Respondi no mesmo dia perguntando que “erros”, que “órgão de comunicação social” e pedindo ao IHC que desse o meu contacto ao jornalista. A direção do IHC respondeu, em 9 de agosto, solicitando a correção de erros a um concurso FCT, 4.ª edição. Respondi novamente, de férias legais, insistindo que não sabia de que erros se tratava. Não podia corrigir eventuais erros que desconhecia. A direção do IHC respondeu no dia 6 de setembro, quase um mês e meio depois do meu pedido, dizendo que os erros alegados na “denúncia anónima” eram no resumo do Ciência Vitae entregue no concurso, e que o jornalista que comunicou a denuncia anónima era Samuel Silva, do PÚBLICO. Respondi que estiveram durante um mês e meio a enviar-me emails, sonegando informação (acrescento em flagrante desrespeito pela lei a que estão obrigadas as entidades de acolhimento dos investigadores), e que estes métodos eram intoleráveis da parte da direção de uma instituição, da qual, depois de anos de hostilidade (cujos contornos são internos à UNL é aí que se resolvem), saía.

Em 10 de setembro eu e o Grupo de Estudos de História Global do Trabalho, que coordeno, saímos do IHC. 27 investigadores solicitaram à FCSH a constituição do grupo numa outra unidade de investigação. No mesmo dia comuniquei ao IHC a minha desvinculação do IHC, junto com o meu Grupo.

No dia 17 de Setembro de 2021, sou, pela primeira vez, contactada pelo jornalista Samuel Silva, alegando uma “denúncia anónima”: “Pudemos também confirmar a pertinência dessas queixas, consultando o seu currículo público no portal Ciência Vitae. Há várias entradas relativas a publicações que surgem duplicadas.” Respondi que o meu CV é público, e que não respondia a denúncias anónimas, que não havia erros no meu CV. O jornalista respondeu que não me “confrontava com a ‘denúncia anónima’. Confronto-a, isso sim, com a conclusão a que o IHC chegou da avaliação do seu CV”.

Obviamente, a alegada “denúncia anónima” era afinal um expediente: o PÚBLICO era a fonte do IHC e o IHC era a fonte da notícia do PÚBLICO.

Durante quase dois meses, o jornalista Samuel Silva teve tempo para contactar, segundo diz no seu email de 17 de setembro de 2021, quase toda a gente (cito: “Reitoria, a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, a FCT e o IHC”), menos eu. Durante todo esse tempo, a figura da “denúncia anónima” foi usada tanto pela atual direção do IHC como pelo jornalista do PÚBLICO. Eu recusei responder a “denúncias anónimas” (ilegais) e exigi ao IHC que substanciasse os alegados “erros”.

Por ignorância destas plataformas e de como se constrói um CV, que deixavam o seu artigo sem qualquer substância, o jornalista voltou à carga. Em 22 de setembro surge nova “notícia” no PÚBLICO, com base exclusivamente numa nota da atual direção do IHC, afirmando que “Raquel Varela contabilizou 67 artigos científicos. Só tinha ‘metade’ desse número. Dos 38 artigos que a investigadora dizia ter publicado como única autora nos últimos cinco anos, o Instituto de História Contemporânea também só encontrou ‘um terço’”. A notícia foi colocada online às 18:46 do dia 21 de Setembro, sem qualquer contraditório, e o jornalista em causa contactou-me por email (tendo acesso ao meu telefone) às 18:14, email a que não tive acesso nem forma de responder em tempo útil. A nota do IHC que o PÚBLICO cita sem qualquer verificação pretende fazer uma contabilidade do CV e usa expressões como “aproximadamente”. Podem ler-se coisas no PÚBLICO, com base na nota, como “tem pouco mais de uma dezena” de artigos indexados em três índices nos últimos cinco anos, como autor. São 18, só nessa categoria.

Quando da entrega da candidatura ao referido concurso tinha não 67 artigos indexados publicados mas 68. Não metade, como alega a notícia na “gorda”. Não há, nunca houve, qualquer artigo não publicado referido no meu CV. A FCT ou a FCSH nunca me contactaram por “alegados erros” no CV.

Na primeira página do concurso entregue à FCT temos de colocar os links para as plataformas e CVs (coloquei quatro links distintos com o CV completo nessa página, dois obrigatórios e dois voluntários), preencher o Percurso académico, Plano de atividades e Resultados, destacar as cinco principais obras publicadas, tudo com limitação de caracteres. No resumo do CV (e não no CV, como é referido na nota do IHC) não referi todas as indexações dos artigos (indexações que sempre estiveram no CV) por limitações de espaço no Percurso, e logo em baixo, na mesma página, no Plano e Resultados, na primeira linha, estão os artigos dos últimos cinco anos (“41 artigos indexados”, sem qualquer nota de indexações). Junto print screen. Mais: tendo em conta a atitude hostil da atual direção do IHC, informei oficialmente a FCT, e antes de qualquer artigo no PÚBLICO, por carta registada de que, caso existisse alguma ambiguidade no Percurso do CV (não colocar todas as indexações), juntava resumo discriminado das indexações com o pedido de que fossem entregues aos avaliadores.

Para se compreender a enormidade da acusação lançada contra o meu bom nome eis uma nota final para o leitor: o concurso a que concorro é o nível mais alto da carreira, só se pode concorrer com agregação, provas públicas que realizei e que implicam a defesa perante um júri nacional e, no meu caso, também internacional, do CV. Sem certificado de agregação não podemos concorrer a este nível. Ter 40, 50 ou 60 artigos indexados é irrelevante para um avaliador nesta fase da minha carreira, porque em média na minha área tem-se bastante menos do que isso. Eu tenho 68, dos quais 17 só no índice Scopus. Os avaliadores concentram-se no mérito do projeto que concebemos, no número de citações, e nas cinco principais obras elencadas. Não há qualquer vaga hipótese de eu ter procurado obter um benefício de forma fraudulenta em qualquer concurso.

Os erros dos dois artigos do PÚBLICO e da nota do IHC são factuais, atentam contra a minha honra. Estes métodos são intoleráveis, deontologicamente inaceitáveis numa sociedade democrática, que deve mobilizar-se contra a decadência ética na nossa vida pública.

Raquel Varela