Desinformação no Facebook recebe mais cliques, revela estudo

O interesse pela desinformação verifica-se em todo o espectro político, segundo um novo estudo conjunto da Universidade de Nova Iorque e da Université Grenoble Alpes que será apresentado em Novembro. O Facebook diz que cliques não são tudo.

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Mark Zuckerberg, presidente executivo do Facebook. Nos últimos meses, as críticas à desinformação presente nesta rede social têm aumentado Reuters/POOL

Entre Agosto de 2020 e Janeiro de 2021, os utilizadores do Facebook prestaram mais atenção a páginas conhecidas por difundir informação incorrecta do que a publicações de fontes reputadas como a Organização Mundial da Saúde. Durante este período, a desinformação recebeu seis vezes mais gostos, partilhas e interacções (por exemplo, cliques e comentários). 

A informação surge num novo estudo da Universidade de Nova Iorque (NYU), nos EUA, e da Universidade Grenoble Alpes, em França, que explora o comportamento dos utilizadores durante as eleições intercalares nos EUA. O trabalho já foi revisto por outros investigadores (processo de peer review) e será apresentado em Novembro. As principais conclusões foram detalhadas esta segunda-feira num artigo do jornal norte-americano Washington Post.

Ao todo, os investigadores analisaram 2551 páginas do Facebook, guiando-se pelas avaliações dos sites da NewsGuard e MediaBias/Fact Check para determinar a fiabilidade do conteúdo. Estas organizações dedicam-se a monitorizar a informação partilhada por meios de comunicação social com base na veracidade dos factos e viés política.

A conclusão dos investigadores foi que páginas que publicam mais informações imprecisas ou erróneas recebem, regularmente, mais gostos, mais partilhas e mais comentários. O interesse pela desinformação verifica-se em todo o espectro político, embora páginas da direita tenham uma propensão maior para partilhar informação enganosa. 

O artigo académico ainda não está disponível para consulta. A equipa de NYU e da Grenoble Alpes pretende publicá-lo antes da apresentação na edição de 2021 da Conferência de Medição da Internet da Association for Computer Machinery (ACM), a primeira sociedade científica e educacional dedicada à computação nos EUA.

Facebook diz que cliques não são tudo

Em declarações ao Washington Post, a equipa do Facebook explica que o estudo em questão apenas olha para as interacções no Facebook e não para o alcance, uma métrica que a rede social considera mais precisa. Contrariamente às interacções directas com as publicações (cliques, gostos, partilhas), o Centro de Ajuda do Facebook explica que o “alcance dá uma quantificação do número de pessoas que foram expostas” a uma mensagem, notando que “as pessoas nem sempre clicam” nas publicações. 

Num email enviado ao PÚBLICO, a equipa da rede social reitera que o estudo se foca na forma como “as pessoas interagem com o conteúdo das páginas” e que isto “representa uma quantidade muito pequena de todo o conteúdo no Facebook”. “As interacções também não devem ser confundidas com o número de pessoas que realmente vêem algo no Facebook”, lê-se na resposta da empresa.

Nos últimos meses, as críticas à desinformação presente no Facebook têm aumentado devido à proliferação de desinformação sobre a covid-19 na rede social. Em Julho, o Presidente norte-americano, Joe Biden, acusou redes sociais como o Facebook de “matar pessoas” ao permitirem a desinformação sobre as vacinas.

Numa tentativa de mudar a narrativa, em Agosto o Facebook publicou um relatório de transparência com as publicações mais vistas no segundo trimestre do ano — em vez de desinformação, as publicações mais populares incluem debates sobre os méritos de juntar açúcar ao esparguete, algumas piadas, uma publicação do Presidente Joe Biden e outra do actor norte-americano Joseph Gordon-Levitt.  No entanto, uma investigação do New York Times revelou que o Facebook abandonou planos de detalhar as publicações mais vistas durante o primeiro semestre porque incluíam uma publicação que associava erroneamente a morte de um médico na Florida, EUA, com a vacina da covid-19.

Em Agosto, o Facebook também foi alvo de fortes críticas porque barrou o acesso de investigadores a mais dados sobre a rede social. Na altura, o Facebook argumentou que dar acesso à informação ia contra o acordo estabelecido com a autoridade da concorrência norte-americana, FTC, no seguimento do escândalo Cambridge Analytica. A FTC desmentiu a justificação com um comunicado onde nota que o acordo “não impede o Facebook de criar excepções para investigações de boa-fé de interesse público.”