Sonho de um homem deficiente ridículo

Agora que arranjei uma actividade simpaticamente remunerada, numa multinacional que parece ter planos para mim, se preocupa com o bem-estar dos funcionários e está a tentar providenciar-me uma integração adequada e suave, um novo problema de saúde chega e põe tudo em causa.

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A aparente ambiguidade de pensamentos e situações, que as tornam ininteligíveis em vários momentos, acrescenta alguma dificuldade ao tentar pô-las em palavras, especialmente quando são de alguma forma raras. Eu costumo sentir essa dificuldade, uma vez que sou uma pessoa deficiente e com uma vida peculiar. Vem isto a propósito da situação em que estou metido neste exacto momento em que escrevo. Agora que arranjei uma actividade simpaticamente remunerada, numa multinacional que parece ter planos para mim, se preocupa com o bem-estar dos funcionários e está a tentar providenciar-me uma integração adequada e suave, um novo problema de saúde chega e põe tudo em causa. Estou, novamente, a escrever este texto sob o efeito de esteróides – dos que baixam a inflamação e são recomendados para alguns casos de covid-19 –, à espera de uma craniotomia.

Se uma situação não existisse a par da outra, tudo estaria bem. Ou seja, uma nova cirurgia, mesmo que arriscada, não seria problema para mim. Estou habituado, faz parte da minha vida. Por outro lado, após ter conseguido uma actividade remunerada e numa altura complicada, enviando uma candidatura especulativa para o endereço de e-mail “certo”, faz-me pensar que a oportunidade poderá ser desaproveitada por causa deste episódio de saúde. Isto faz com que o momento seja sentido de forma diferente. O optimismo sai abalado – embora ainda se mantenha em dose recomendável. Normalmente, a minha atitude para conseguir seguir em frente é manter o foco, com ajustamentos a novas circunstâncias caso necessário, e tentar prever potenciais situações desassossegadas, pensando em possíveis soluções para as mitigar tanto quanto possível, evitando-as ou em caso da sua concretização saber como reagir – já tentei abandonar a técnica e os resultados não são tão bons. E isto sem nunca me esquecer de que a vida deve ser desfrutada sem martírios desnecessários.

Acredito que a minha presente circunstância foi fácil de expor – pelo menos de escrevê-la foi, e espero que tenha ficado compreensível. No entanto, somos todos prisioneiros das nossas ideias, do nosso nível de lógica, da nossa retórica, das nossas emoções, dos nossos sentimentos, etc. Acresce que algumas pessoas terão mais dificuldades que outras em compreender e expor ideias, em perceber o que está a acontecer com elas próprias e, até, que se passará algo, adicionando ainda mais dificuldades.

Uma pessoa que seja de alguma forma incapacitada de forma permanente, tal como eu, salvo casos muito excepcionais, terá dificuldades acrescidas durante toda a sua vida. Para nós, considero eu, é importante estarmos afastados de pensamentos castigadores, derrotistas ou miserabilistas, o que me parece ser um discurso fácil na sociedade portuguesa. Este discurso é provavelmente alavancado pelos programas de televisão de daytime, jornais televisivos, redes sociais, provavelmente aumentando o conformismo e a aflição. Tenho dúvidas que exista benefício para alguém, ainda menos para pessoas já de si mais frágeis.

Até hoje tive a capacidade para me afastar. Obrigado ao equilíbrio das barreiras da minha mente com as barreiras do meu corpo. Veremos até quando serei capaz. Não vou deixar de o fazer por desistência.