Simone Biles pôs o mundo a falar sobre a saúde mental

Simone Biles surpreendeu em Tóquio e pôs o mundo a falar sobre a saúde mental e sobre a elevada pressão a que os atletas de alta competição estão sujeitos para corresponder às expectativas da equipa e do país que representam. Os grandes atletas revelam-se também na forma como encaram as dificuldades e no fair play com que enfrentam os momentos menos felizes.

Foto
@PETERCALHEIROS

Há alguns anos, Simone revelou-se corajosa ao expor os abusos sexuais a que era sujeita no âmbito da sua atividade desportiva, e ontem, aos 24 anos, embora seja difícil avaliar o que se passou com exatidão, podemos assumir que a atleta mostrou uma enorme maturidade ao apresentar as suas fragilidades perante o mundo do desporto e ao chamar atenção para este e para outros tipos de problemas psicológicos com que se deparam algumas atletas.

Este é um puzzle complexo: a pressão vem da sociedade, da família e do próprio atleta, que traça objetivos elevados e que muitas vezes apenas vive para o desporto, isolando-se de todo o resto.

As equipas e os espectadores veem estes atletas como verdadeiros deuses do Olimpo, mas é preciso entender que a pressão exercida para a perfeição acarreta-lhes um nível muito elevado de tensão física e psicológica, culminando facilmente em ansiedade, depressão e burnout. A ansiedade surge pelas frequentes experiências que causam stress e que, interpretadas como ameaçadoras, desencadeiam respostas como a vontade de fugir, a necessidade de ser perfeito e os pensamentos de fracasso (não vou conseguir, não sou capaz) ou centrados no erro.

Este tipo de autodiscurso faz também com que o atleta sinta que a pressão para a realização ultrapassa o nível desportivo e recai sobre ele enquanto pessoa, fazendo-o questionar as suas capacidades e competências e conduzindo-o, mais facilmente, ao desânimo. São comuns sintomas de tristeza profunda, irritabilidade, perda de prazer em atividades que antes eram prazerosas, dores no corpo e, em casos mais graves, pensamentos de suicídio.

Foram sábias as palavras de Simone quando disse: “Temos de proteger a nossa saúde e o nosso bem-estar e não fazer apenas o que o mundo quer que façamos”. Além da pressão sobre si, muitos atletas não têm uma estrutura psicossocial de apoio adequada e acabam mais propícios a fragilidades e, sem a ajuda especializada para colmatar necessidades, poderão pisar num terreno propício ao descontrolo emocional e ao recurso a comportamentos de risco (como, por exemplo, o abuso de substâncias), por vergonha de mostrar a sua vulnerabilidade.

Foto
@PETERCALHEIROS

A doença mental deve ser encarada tal como encaramos a doença física — ninguém tem vergonha de ir ao médico de família ou ao gastrenterologista. Quem sabe se a Simone terá aberto as portas para um olhar sobre o mundo em que se passe a ver com seriedade as necessidades emocionais das pessoas como se olha para as maleitas físicas, quebrando o preconceito sobre os benefícios do acompanhamento psicológico.

As instituições ligadas ao desporto devem apostar na educação e na prevenção, através de formação sobre aspectos psicológicos ligados à sua atividade e incluindo medidas de ação perante uma situação de agressão, quer seja física, sexual ou psicológica. Sobretudo, é preciso deixar claro para cada atleta que proteger a sua saúde física e psicológica é o primeiro passo para evitar dificuldades, que há comportamentos que não devem ser aceites e que o pedido de ajuda é uma coisa séria.

As pessoas em geral, incluindo atletas, seus familiares e treinadores, devem tomar este caso como um alerta para a necessidade de limitar a exigência e a procura da perfeição, esforçando-se para reconhecer a violência a que muitas outras Simones estão sujeitas.


A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990