Taliban controlam mais de metade do Afeganistão e líder defende solução política para o país

A maioria dos avanços militares dos taliban ocorreram a partir de Maio, quando as forças estrangeiras começaram a sair do país. As conquistas territoriais concentram-se particularmente a Norte do país, ponto tradicional de resistência.

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Apoiantes com bandeiras taliban, junto ao posto fronteiriço de Spin Boldak STRINGER/Reuters

Neste momento, os taliban devem controlar mais de metade dos distritos do Afeganistão, resultado da ofensiva que têm realizado nas últimas semanas em várias províncias do país, avançou um estudo independente realizado pela agência alemã DPA. 

O estudo, realizado através de uma análise levada a cabo por correspondentes da agência, dá conta que o grupo armado deve controlar 210 dos 400 distritos que compõem as 34 províncias do país. Mais: o Governo afegão deve controlar neste momento 110 distritos, o que significa que 80 distritos do país estão a ser disputados.

A maioria dos avanços territoriais dos taliban aconteceram desde Maio, quando as tropas internacionais começaram a retirar-se definitivamente, movimento iniciado pelos EUA. Este avanço concentrou-se particularmente no Norte do país, tradicional ponto de resistência face aos insurgentes, tal como a província de Kandahar, no Sul do país, também terra natal dos taliban.

Para responder aos avanços, o Governo afegão pôs em marcha um contra-ataque em várias províncias, avançou este domingo o porta-voz das forças de segurança afegãs, o general Ajmar Omar Sherwari. Neste sentido, o porta-voz assegurou que mais de 20 das 34 províncias do país são palco de confrontos. As duas partes combatem entre avanços e recuos e fortes confrontos em algumas zonas: nas últimas horas, as forças afegãs recuperaram o controlo de dois distritos e perderam o controlo de outro.

Apelo a solução política

Apesar dos “avanços e conquistas militares”, o líder dos taliban, Haibatullah Akhundzada, afirmou este domingo ser “vigorosamente a favor” de uma solução política para o conflito no Afeganistão, numa mensagem transmitida a propósito da festividade do Eid al Adha. O anúncio foi feito no mesmo fim-de-semana em que representantes do Governo afegão e do grupo fundamentalista islâmico se reuniram para uma nova ronda de conversações sobre o futuro do país.

“Somos vigorosamente a favor de uma solução política para [resolver] os problemas do país”, disse Akhundzada, segundo o canal afegão Tolo News. “Continuamos a apelar que, ao invés de depender de estrangeiros, resolvamos os nossos problemas entre nós e resgatemos a nossa pátria da crise que está a atravessar”, continuou.

“O Afeganistão não permitirá que ninguém utilize o seu território para ameaçar a segurança de nenhum outro país. E também apelamos a todos os países para não interferirem nos nossos assuntos internos”, enfatizou.

O líder do grupo fundamentalista islâmico reforçou que o grupo vai aproveitar qualquer oportunidade que possa conduzir ao estabelecimento de um sistema islâmico no país, em paz e segurança.

Em matérias de política externa, assegurou Akhundzada, os taliban procuram “boas e sólidas relações diplomáticas, económicas e políticas num cenário de interacções recíprocas e com acordos mútuos com todos os países do mundo, incluindo os EUA, após a retirada de todas as forças estrangeiras”.

Esta questão é um dos pontos abordados nas conversações deste fim-de-semana na capital do Qatar, Doha, entre o Governo afegão e os taliban, enquanto se vive uma situação crítica no país. O Governo espera que nestas conversações se decida uma resolução que englobe a maioria das “questões fundamentais” que separam as duas partes, como a redacção de uma nova Constituição, a declaração de um cessar-fogo e a futura participação política dos taliban. 

“No primeiro dia de conversações, o ambiente tem sido descrito como receptivo e tudo foi discutido na mesa das negociações”, avançou a Al-Jazeera. Por outro lado, ambos os lados têm-se mostrado inflexíveis em vários pontos, mas “só no final poderão avaliar-se os resultados concretos”, acrescentou o canal de notícias sediado em Doha.