Ordem dos Médicos propõe nova matriz de risco. Como funciona?

A Ordem dos Médicos e o Instituto Superior Técnico apresentaram um novo modelo para analisar em tempo real a evolução da pandemia, tendo em conta os internamentos e as mortes por covid-19. Ministério da Saúde diz que eventuais alterações só serão ponderadas após reunião no Infarmed, agendada para 27 de Julho.

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O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

A Ordem dos Médicos (OM) defende que a actual matriz de risco não mede da melhor forma o impacto da covid-19 e apresentou, nesta quarta-feira, um novo indicador que tem em conta a gravidade da pandemia. Na proposta do novo “indicador de impacto”, passam a entrar nas contas a letalidade da covid-19 e a capacidade hospitalar. A OM, que construiu o modelo com o Instituto Superior Técnico, acredita que esta matriz é mais ágil do que a actual.

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Este “indicador de impacto” funciona por pontos (pode ir além dos 180) e os 100 pontos correspondem ao limite em que se entra na fase crítica. Para as contas entram o R(t), a incidência, os internamentos e óbitos por covid-19. O grupo de especialistas espera que este modelo seja adoptado pelas entidades competentes como futura matriz de risco.

O bastonário da OM, Miguel Guimarães, explicou, numa conferência de imprensa, que este “é um indicador democrático”, que “pode ser feito em casa” por qualquer pessoa. “Vamos poder utilizar já a partir do momento em que o vamos ter funcional”, disse. Em comunicado, a OM explica que a identificação de novas variantes e a aprovação das vacinas “exige que a avaliação do impacto do SARS-CoV-2 seja feita de forma mais ágil” e em tempo útil, para que exista uma “percepção adequada” do risco da pandemia para a saúde pública.

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O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães (segundo à direita), intervém na conferência de imprensa de apresentação do novo indicador de avaliação do estado da pandemia, numa parceria com o Instituto Superior Técnico, em Lisboa. Na imagem, a evolução do indicador apresentado nos cenários com vacinação (linha de baixo da zona a vermelho) e sem vacinação (linha de cima) ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Este indicador estará disponível nos sites da Ordem dos Médicos e do Instituto Superior Técnico, permitindo que qualquer pessoa o possa consultar “e verificar em que ponto” da pandemia está o país. Segundo Miguel Guimarães, bastará introduzir alguns dados como o R(t) – o índice de transmissibilidade, que corresponde ao número de casos de infecção gerados por alguém com a infecção activa –, a incidência da covid-19 – o número de casos por cada 100 mil habitantes a 14 dias –, o número de internamentos em enfermaria e em cuidados intensivos e a letalidade associada à doença.

Os dois primeiros indicadores (transmissibilidade e incidência) também fazem parte da actual matriz de risco e sustentam o primeiro “pilar” desta nova matriz, chamado “pilar da actividade”. No segundo pilar, o da “gravidade”, entra a letalidade e a capacidade hospitalar tanto em enfermaria como em cuidados intensivos. “Nos 100 pontos estamos na chamada fase crítica, uma fase em que é preciso de facto fazer mais qualquer coisa de substancial”, explica o bastonário. Antes dos 100 pontos – correspondentes à fase “crítica”, que vai até aos 120 pontos – existem as fases “residual” (10 a 40), de “alerta” (40 a 80) e “alarme” (80 a 100). Depois da fase “crítica”, vem a de “ruptura” (para cima de 120 pontos).

A combinação de todos estes dados resultará num “indicador global que permite saber em cada circunstância em que fase estamos, relacionando com a gravidade da situação”, acrescentou Miguel Guimarães. Porém, refere que se continua “sem saber o movimento dos doentes” em termos de internamentos em enfermaria e cuidados intensivos.

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OM/IST

Nesta proposta existe também um modelo de cores, com uma escala gradiente que vai do verde ao vermelho carregado, lê-se no relatório em que é apresentado este sistema. Nele é também referido que se atingiram “valores intoleráveis entre Novembro de 2020 e Janeiro de 2021” em Portugal. O “dia de máximo impacto” desde o início da pandemia, segundo estes valores, foi a 21 de Janeiro.

Indicadores da actual matriz “não chegam”

Com a subida dos casos nas últimas semanas, a actual matriz de risco que fora apresentada pelo Governo no início de Março teve de ser alargada além dos quatro quadrantes, passando a ter mais duas zonas a laranja e vermelho, na vertical. É no vermelho que o país se encontra agora, com um R(t) de 1,14 a nível nacional e uma incidência de 336,3 infecções por cada 100 mil habitantes, segundo os dados revelados esta quarta-feira pela Direcção-Geral da Saúde.

Na sessão de apresentação do indicador, na Ordem dos Médicos, em Lisboa, o matemático Henrique Oliveira, especialista em sistemas dinâmicos, explicou que os dois indicadores que compõem a actual matriz de risco “não chegam” e “começam a dar uma visão parcial do problema”. A actual matriz, diz, “é lenta” e “são precisos indicadores mais rápidos”.

Este modelo permite ainda revelar “com grande rigor os efeitos apreciáveis da vacinação”. O relatório enviado pela Ordem dos Médicos ao PÚBLICO indica que este sistema tem “abertura” para novas variáveis, podendo introduzir-se novos indicadores caso haja necessidade, “nomeadamente em termos de gravidade e novas variantes”. O documento refere ainda que “é muito simples estabelecer níveis regionais de impacto e saturação para todas estas dimensões”, desde que sejam disponibilizados os dados pelas autoridades de saúde de internamentos para cada região.

Os autores acreditam que este modelo é mais simples, flexível, transparente e robusto, além de permitir uma análise mais rápida da evolução da pandemia no país.

Na mesma sessão, o bastonário da Ordem dos Médicos adiantou que a ministra da Saúde, Marta Temido, já recebeu a proposta de novo indicador e que sabia que havia uma equipa a trabalhar o assunto há mais de um mês. “Temos aqui uma ferramenta interessante para continuarmos a fazer aquilo que desde o início defendemos, que é achatar a curva. Agora temos que ajudar a vacinação a achatar a curva”, argumentou o bastonário.

“O Presidente da República já tem conhecimento [do indicador], o Governo terá de decidir”, afirmou, sublinhando que a Ordem dos Médicos está disponível para prestar esclarecimentos sobre a nova ferramenta. Sublinhando que aos especialistas compete “apresentar soluções e fazer recomendações”, Miguel Guimarães frisou que “era importante que quem tem responsabilidade olhasse e levantasse questões”.

Em resposta enviada ao PÚBLICO, o Ministério da Saúde refere que “acompanha diariamente e divulga com regularidade os vários indicadores que a Ordem dos Médicos sugere que sejam integrados na matriz de risco” e que “estes indicadores têm, de resto, sido tomados sempre em consideração nos processos de decisão”.

Porém, o Ministério da Saúde “recorda o consenso técnico existente sobre esta matéria e que foi reafirmado na última reunião do Infarmed, realizada em Maio, em que os especialistas defenderam a manutenção da matriz de risco definida em Março”.

Na resposta, é também sublinhado que “o Governo convocou, entretanto, uma nova reunião com especialistas no Infarmed para o dia 27 [de Julho], pelo que é apenas nesse contexto, e nunca antes da referida reunião, que qualquer eventual alteração pode ser ponderada”.

Proposta da nova matriz de risco é “uma boa iniciativa”

Segundo o virologista Pedro Simas, do Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa, a matriz de risco apresentada é “uma boa iniciativa”, embora saliente não conhecer em detalhe o algoritmo em que assenta. O especialista destaca ainda à agência Lusa que, numa altura em que a vacinação avança, o risco da pandemia está agora nos serviços de saúde e menos no número de infecções.

“A infecção é sempre um factor determinante, mas tem de ser adaptada ao risco e, neste momento, um maior número de infecções não se traduz no risco de aumento de mortes”, diz, embora admita que Portugal se encontra numa “fase de transição em termos de hospitalizações”, com alguma pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde.

O virologista nota que o facto de uma grande parte da população portuguesa já ter tomado pelo menos uma dose da vacina contra a covid-19 ajuda também a conter a disseminação do vírus, o que faz com que o “risco diminua imenso”.

“Se confiarmos na ciência, a evidência diz-nos que as vacinas funcionam de duas formas: são extremamente eficazes na protecção contra a hospitalização e são muitos eficazes na prevenção contra a disseminação exponencial do vírus nas pessoas vacinadas. Partindo desse pressuposto, à medida que se vai evoluindo na vacinação, tem de se ir evoluindo nas linhas vermelhas”, destaca.

Pedro Simas concorda ainda que o R(t) e a taxa de incidência de novos casos — os critérios que compõem a actual matriz de risco em vigor — “servem para antecipar o que vai acontecer nos internamentos, mas estão desactualizados”, face ao avanço da vacinação. com Lusa