Moçambique não pode perder o norte

Moçambique não pode perder o norte (palavra que aqui assume todos os seus sentidos). Estabilidade e desenvolvimento, é isso que se precisa. E que esse binómio, hoje ainda tão distante, possa (mesmo) fazer parte da vida das pessoas.

Dentro de dias chegará a Moçambique um avião de carga enviado pela União Europeia, com ajuda humanitária disponibilizada por Portugal e Itália no esforço de minorar o sofrimento dos 800 mil deslocados provocados pelos ataques de grupos armados no norte do país.

Desloquei-me recentemente a Pemba – Cabo Delgado e pude perceber quanto é necessário de tudo um pouco. À distância, não conseguimos sequer imaginar que coisas básicas podem ganhar, no terreno, um valor incalculável.

Num assentamento que visitei em Montepuez, a comunidade, composta por pessoas provenientes de diversos distritos, organizou-se para construir 15 casas para os mais idosos, que já não têm a força necessária para, com paus, canas, barro e colmo, construírem as suas casas. Ali ninguém é deixado para trás. Contudo, faltavam lonas e sem elas a chuva entrará nas casas. Sim, em Cabo Delgado uma lona pode fazer toda a diferença, sobretudo na época das chuvas, e toda a ajuda humanitária que possa chegar fica manifestamente aquém das necessidades.

Há falta de tudo: comida, abrigo, roupas, cuidados de saúde, escola para os mais novos, apoio psicológico, que ajude a minorar o sofrimento acumulado por adultos e crianças que viram e viveram a morte de familiares e vizinhos e a destruição de tudo o que tinham. Esta gente está a ser “arrancada pela raiz” – uma imagem usada por Mia Couto, com a sua imensa sabedoria em traduzir por palavras o que ultrapassa a razão.

Há quem queira voltar às suas casas, ao sítio onde sempre viveu. Há quem tenha medo e diga que não quer voltar. E há até histórias de quem, tendo regressado, tenha voltado a ter de fugir, tenha sido raptado ou acabado mesmo por perder a vida.

A missão militar portuguesa participa na tão óbvia quanto necessária formação do Exército moçambicano. É previsível que o Conselho Europeu decida, no dia 12 de julho, o envio de mais militares da União Europeia. E, contrariando alguns que usam a crítica como modo de afirmação, não posso deixar de, com inteira justiça, sublinhar o papel da presidência portuguesa do Conselho da União Europeia no avançar deste apoio. Entretanto, a SADC (Comunidade de Desenvolvimento da África Austral) já anunciou o envio de tropas para reforçar a atuação das forças de segurança no terreno. Reforça-se o investimento da intervenção ao nível da segurança. 

Mas é bom que se perceba que essa intervenção comporta riscos ao nível humanitário que é preciso prevenir, e que não bastará se não houver uma efetiva estratégia de combate aos fatores que estão na origem dos sentimentos de revolta e de exclusão, que acabam por se constituir em verdadeiros canais abertos para o recrutamento e a radicalização dos jovens.

É, pois, necessária uma aposta clara ao nível do desenvolvimento, do reforço da estrutura do Estado e dos serviços públicos em todo o território. Mas também no combate à corrupção instalada, na promoção da coesão social e territorial e na educação e qualificação dos mais jovens – arredados das oportunidades de emprego geradas pela exploração dos recursos naturais, por falta de preparação. Sem um programa robusto nestas áreas – e sem uma efetiva vontade política para o executar…  o problema de fundo manter-se-á.  Só isso poderá fazer com que se consiga tornar as comunidades resilientes aos apelos da radicalização e à infiltração de elementos ligados a estes grupos. Sem isso o problema que está criado naquela zona ameaça eternizar-se e até estender-se territorialmente.

Em suma, Moçambique não pode perder o norte (palavra que aqui assume todos os seus sentidos). Estabilidade e desenvolvimento, é isso que se precisa. E que esse binómio, hoje ainda tão distante, possa (mesmo) fazer parte da vida das pessoas.

Isabel Santos é eurodeputada do PS, membro da Comissão de Assuntos Externos e da Subcomissão dos Direitos Humanos do Parlamento Europeu

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico​