Ronaldo na Dinamarca

Era bom que Portugal pudesse aprender alguma coisa com a Dinamarca. Talvez assim acabasse o atavismo que tende a transformar a selecção numa equipa de Ronaldo mais dez.

A história do futebol conta-se muitas vezes com os dribles, os golos ou as acelerações das estrelas. É impossível julgar-se a memória do jogo maravilhoso sem invocar Pelé, Maradona, Sócrates ou Eusébio. O endeusamento dos artistas leva-nos, porém, a esquecer a verdade fundamental do futebol: não há estrelas sem constelações, nem mitos sem equipas. É aqui que entra o caso da Dinamarca.

A Dinamarca tem a sua página na história do futebol e tem também as suas estrelas, como os irmãos Laudrup, Peter Schmeichel ou Preben Larsen. Mas, mais do que os seus prodígios, a razão da sua força esteve sempre no colectivo. Neste Europeu, não tiveram Erikssen, mas mantiveram a essência do seu futebol. Um sentido de entreajuda notável, um espírito de união imbatível, um propósito colectivo contagiante e mobilizador.

Se, individualmente, cada um dos seus jogadores não passa de uma avaliação média/alta, o conjunto vale muito mais do que a soma das partes. É o seu sentido gregário, a disponibilidade para o compromisso que tornam o seu jogo entusiasmante. A forma como celebram as vitórias, como se em causa estivessem sempre finais, é testemunho desse espírito. É impossível não olhar para aquela equipa e não ficar impressionado com esta sua humanidade.

Era bom que Portugal pudesse aprender alguma coisa com a Dinamarca. Talvez assim acabasse o atavismo que tende a transformar a selecção numa equipa de Ronaldo mais dez. Portugal deve imenso a Ronaldo e Ronaldo orgulha-nos. Mas quando a equipa joga, estar permanentemente a recordar as façanhas de Ronaldo, os golos de Ronaldo, os recordes de Ronaldo faz-nos regressar ao tempo dos heróis míticos enviados pela providência divina para sublimar as nossas fraquezas colectivas. Ronaldo é bom e, felizmente, enverga a camisola do país. Mas, numa selecção, como num país, quem vence é sempre o colectivo. Não o endeusem.