Repressão de Ortega vira-se contra antigos sandinistas

No domingo foram detidos mais cinco políticos da oposição na Nicarágua, incluindo duas figuras históricas do movimento sandinista.

Foto
Mural de apoio a Daniel Ortega numa rua em Manágua Oswaldo Rivas / Reuters

A perseguição do regime de Daniel Ortega na Nicarágua à oposição continua a todo o vapor. No domingo, foram detidos mais cinco políticos críticos do Presidente, elevando para 12 o número de opositores presos nas últimas semanas.

Segundo a polícia, os cinco políticos detidos no domingo pertencem ao Unamos, um partido fundado por dissidentes da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), o partido herdeiro do movimento sandinista que é hoje controlado por Ortega. Entre os presos estão a antiga ministra Dora Téllez, figura histórica do sandinismo, e o general na reserva Hugo Torres, que combateu ao lado de Ortega contra a ditadura de Anastasio Somoza, diz a BBC.

A prisão de Téllez é significativa por se tratar de uma personalidade com um enorme peso simbólico no seio do movimento sandinista, apesar de ter rompido com Ortega nos últimos anos. Com 22 anos, Téllez fez parte do esquadrão guerrilheiro que em Agosto de 1978 tomou o Palácio Nacional do Congresso, uma das acções mais importantes da luta contra Somoza e vista como um dos passos mais determinantes rumo ao derrube da ditadura.

Quando a FSLN chegou ao poder, Téllez, que era estudante de Medicina quando se juntou à guerrilha sandinista, tornou-se ministra da Saúde. Nos últimos anos, passou a ser uma crítica de Ortega, que acusa de estar a impor uma nova ditadura na Nicarágua. “Eliminar todas as candidaturas, toda a oposição, é o objectivo de uma ditadura em agonia”, escreveu na semana passada no Twitter.

Candidatos afastados

As detenções mostram o carácter cada vez mais repressor do regime de Ortega, no poder desde 2007, e, antes disso, entre 1979 e 1990. A onda de detenções de figuras opositoras tem o objectivo de afastar qualquer candidato com hipóteses de prejudicar a sua reeleição em Novembro.

Nas últimas semanas foram presos 12 políticos, entre os quais quatro candidatos presidenciais: Cristiana Chamorro, Arturo Cruz, Félix Maradiaga e Juan Sebastián Chamorro. Segundo as autoridades, são acusados de conspiração com potências estrangeiras contra o Estado.

Todos eles foram detidos ao abrigo de uma lei de segurança nacional aprovada no final do ano passado que permite a prisão de pessoas acusadas de “traição” ao país, mas que, segundo os seus críticos, representa uma criminalização da oposição a Ortega. De acordo com a lei, “os nicaraguenses que encabecem ou financiem um golpe de Estado, que alterem a ordem constitucional, que fomentem ou incentivem actos terroristas, que incentivem a ingerência estrangeira ou apelem a intervenções militares”, ficam impedidos de se candidatar a eleições.

Na semana passada, os EUA reforçaram as sanções aplicadas a personalidades do regime, incluindo a filha do Presidente, Camila Ortega Murillo, que foi administradora de um canal televisivo pró-governamental.

O recrudescimento do regime de Ortega começou em 2018, na sequência de grandes protestos contra uma reforma da Segurança Social impopular, explica o El País. As manifestações foram reprimidas de forma muito violenta e, segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), foram mortas pelo menos 328 pessoas, e milhares tiveram de fugir para o estrangeiro.

Para Ortega, os protestos foram a confirmação de que a Nicarágua estava sob ataque dos EUA empenhado em derrubá-lo. A interferência de Washington na política nacional, sobretudo através do financiamento dos “Contras” – um grupo militarizado apoiado pela CIA que tentou afastar os sandinistas do poder logo após o derrube de Somoza – é um elemento recorrente no discurso de Ortega e tem servido para justificar muitas das acções de repressão da oposição nos dias de hoje.