Parte 1: A gravidez não é sempre um estado de graça

Na maioria do tempo sentia-me cansada, sonolenta, nauseada, demasiado emotiva e demasiado cheia de gases. E a azia? Era de tal ordem que me sentia capaz de ombrear na arte de cuspir fogo com os dragões da Daenerys Targaryen.

Durante toda a minha vida ouvi dizer que a gravidez era um estado graça e, talvez por isso, mal vi os dois tracinhos cor-de-rosa no teste comecei a esperar pela sensação de estar no centro do mundo e de transportar, quase literalmente, o rei na barriga. O problema é que a espera foi infrutífera porque, em ambas as gravidezes, durante as 37 semanas que durou cada uma delas, nunca senti nada que se assemelhasse à tal graça que todos referiam.

Confesso até que, a determinado ponto, comecei a sentir-me uma espécie de extraterrestre, como se fosse a única mulher no mundo incapaz de compreender as maravilhas da gravidez. É verdade que era espectacular quando os sentia mexer e que, algumas vezes, me olhava ao espelho e me sentia bonita. O problema é que estas vezes eram as excepções. Na maioria do tempo sentia-me cansada, sonolenta, nauseada, demasiado emotiva e demasiado cheia de gases. E a azia? Era de tal ordem que me sentia capaz de ombrear na arte de cuspir fogo com os dragões da Daenerys Targaryen.

E depois toda a gente dá opiniões, não é? “Come amêndoa pelada que a azia passa”, “já tens a barriga muito baixa, isso deve estar por uns dias”, “estás tão mal-encarada, isso não será anemia?”. Opiniões, opiniões, opiniões. Como se não fosse já tudo demasiado confuso na cabeça de uma mulher que, de repente, percebe que a sua vida vai mudar para sempre de forma irremediável.

Sei que há mulheres que amaram estar grávidas. A minha irmã mais velha, durante as gravidezes, deixou de andar e passou a desfilar. Foi quase como se tivesse engolido o sol e sentisse que tudo girava à volta da barriga dela. Sucede que ela não experimentou aquelas náuseas de grávida que nos fazem esvaziar o estômago até na presença de cheiros e alimentos que antes adorávamos. Também não teve uma diabetes gestacional que a obrigasse a picar os dedos sete ou oito vezes por dia (as grávidas diabéticas, ao contrário da restante população com a doença, têm de avaliar a glicemia antes e após as refeições) e a administrar insulina mais umas quantas. E nunca me lembro de a ver deitada na cama a cumprir aquele repouso absoluto em que temos medo até de mexer os olhinhos.

E sim, eu sei que foi ela quem teve gravidezes normais e que as minhas foram patológicas. Imagino, por isso, que a maioria das mulheres se identifique mais com a tal coisa do “estado de graça” do que eu que, se pudesse, rebaptizava a gravidez para “estado de desgraça” e pronto.

Até a minha saúde mental, sempre tão boa até esta altura, começou a mostrar que, afinal, não era tão intocável quanto eu acreditava.

Fiz 30 anos durante a primeira gravidez e na noite do meu aniversário, quando me deitei, fui incapaz de adormecer. Nem sei quantas voltas dei na cama enquanto ouvia o meu marido a ressonar num sono solto. Mas sei que o pensamento da minha própria mortalidade me atormentava. A ilusão de imortalidade da juventude, percebi de repente, tinha-me abandonado. O dia 28 de Julho de 2016 foi o dia em que deixei de ser jovem. E, de repente, o medo da morte atacou-me com força. Porque agora não estava sozinha, agora tinha um bebé que dependia de mim para tudo e eu sabia que não lhe podia falhar. Passei semanas angustiada e ainda fui a umas quantas sessões de psicoterapia. Depois a ficha lá caiu e as coisas acabaram por se reajustar até que a privação de sono voltou a estragar tudo (mas esse é assunto para uma próxima semana).

Hoje em dia, contudo, quando me recordo da gravidez lembro-me essencialmente das coisas boas ou, pelo menos, as coisas boas sobrepõem-se. A primeira vez que senti o Pedro mexer-se fiquei com a sensação de que me tinham rebentado umas bolhinhas na barriga. Ainda pensei “isto são gases, de certeza”, mas a continuidade da sensação fez-me perceber que era o meu bebé. E esse foi um momento especial. Quase tão especial como quando soubemos, durante a gravidez do João, que a placenta que nos tinha dado chatices desde o início, afinal, se tinha aliado a nós e decidido colaborar.

Também me lembro de me sentir feliz a escolher roupinhas de bebé, a lavá-las e organizá-las, a planear o quarto e a seleccionar cada detalhe, desde chupetas até carrinhos de passeio. As gavetas com as coisinhas deles cheiravam tão bem que, às vezes, as abria só para inalar aquele odor perfeito a bebé.

Não tive “boas gravidezes”. Mas as minhas más gravidezes tiveram momentos felizes. E apesar dos medos, angústias e incertezas, foram elas que me trouxeram o mais importante da minha vida: estes dois que aqui andam aos pulos quando até já deviam estar a dormir e que me fazem perceber todos os dias que, por eles, até aguentava gravidezes de dois anos. Mesmo que, cá no fundo, continuasse a sentir inveja da mãe rato que despacha o assunto em pouco mais de 15 dias.