Ai Weiwei: mitomania e impotência

Rapture deixa-nos num estado de risonha e desconsolada impotência. Sobre o mundo, a arte contemporânea e o que é, afinal, uma exposição de arte.

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Uma sucessão de tautologias que roçam a mitomania Daniel Rocha

“A exposição é uma exposição privada”. A frase desce do alto da bilheteira, sem direito a réplica. Aos fins-de-semana, o bilhete normal custa 15 euros, durante a semana, 13. Mas há pessoas a fazer fila, casais, jovens que vão, enquanto não chega a vez, contemplando as luzes dos telemóveis. Deslocaram-se à Cordoaria Nacional para ver Rapture de Ai Weiwei, com a curadoria de Marcello Dantas. E aguardam a entrada na exposição que está em todo o lado. Este “em todo lado” é, claro, uma hipérbole. Rapture só pode ser vista ali, ainda que, conceda-se, seja anunciada por todo o país. Nos outdoors, nos mupis, na imprensa, na televisão, a fotografia do artista, os dedos a abrir os olhos, reproduz-se esmagadora, omnipresente: “estou a ver-vos, venham ver-me”. O apelo é familiar e espectacular e até certo ponto, honesto. Afinal Rapture é um blockbuster produzido por uma empresa de espectáculos (pop e musicais) — a Everything is New — que, como outras, noutras paragens, se apropriou da heterogeneidade mais ligeira de alguma arte contemporânea. Ou dito, sem reservas, que também esta, mais ou menos travestida, pode ser um produto a consumir, sem grandes sobressaltos. Esse é aliás o contrato subjacente à exposição: venham espantar-se, venham indignar-se, venham (porque não?) divertir-se com a obra de Ai Weiwei, um artista da arte contemporânea. Se, pelo caminho, conseguirem pensar, tanto melhor. Ora, o facto é que Rapture é uma exposição de efeitos, uma montra de obras pelas quais os visitantes tendem a passar quais flâneurs deslumbrados e indiscretos. Uma oferta glutona de, diz o press-release, “85 obras, onde se incluem instalações e esculturas em grande, média e pequena escala, assim como vídeos/filmes e fotografias”.