Entre os profissionais do audiovisual, a solidariedade veio para ficar

Cativeiro é uma iniciativa voluntária, que uniu a música à representação e ao vídeo, para apoiar a União Audiovisual. E para que “os tempos difíceis que vivemos não nos tirem a humanidade”.

Nas primeiras imagens do pequeno filme Cativeiro, há um momento que nos é familiar. Alguém dentro de sua casa, possivelmente em confinamento, perplexo e preso ao sofá por heras que o amarram. O videoclipe realizado por Bruno Costa, que acompanha um tema instrumental da banda Irene, parte de um apelo: “Que os tempos difíceis que vivemos hoje não nos tirem a humanidade.”

A música e produção do vídeo foram feitas pro bono, por artistas que mantiveram parte do seu trabalho e não conseguiram ficar presos aos sofás de suas casas, enquanto assistiam às notícias sobre a crise no sector cultural e a falta de apoios para colegas e profissionais do audiovisual.

“Numa situação trágica para muita gente, ao ponto de não existir comida para pôr na mesa, nós éramos uns privilegiados e sentíamos o dever de contribuir”, conta Jorge Lima, músico na banda Irene, criada em 2017 com Marco Veiga. “Tínhamos vontade de fazer algo para ajudar a União Audiovisual, mas também tentar acordar as pessoas, para que se lembrem que sem os outros não somos nada, não adianta estarmos aqui. Não podemos perder a solidariedade e amor ao próximo.”

O tema Cativeiro, composto por Jorge Lima, nasceu durante o confinamento de 2020, quando teve tempo para se dedicar à música, que sempre foi, para si, “terapêutica”.  Uniu-se, na realização do vídeo, a Bruno Costa, amigo de longa data e fundador do projecto The Storytellers. “A diferença entre o conforto que uns têm e outros não durante a quarentena é o tópico essencial neste vídeo”, explica o guitarrista de 38 anos. As heras com que o actor António Afonso Parra se debate surgem para nos relembrar da nossa natureza. “Nascemos todos iguais e, gradualmente, seguimos o mesmo caminho, com a ideia de que temos de ser quase máquinas e de nos afastar de um lado natural.”

Os únicos objetivos da banda através deste tema, dizem, são espalhar a mensagem e angariar fundos (através de donativos para o IBAN PT50 0035 0402 00054127630) para que a União Audiovisual (UA) continue o trabalho e possa ajudar o maior número possível de pessoas a manter uma vida com dignidade. 

No Natal de 2020, a UA apoiava cerca de 280 famílias. Hoje, quase seis meses depois, são cerca de 350, quase mil pessoas por mês. “Quando olhamos para os números, percebemos que as coisas não estão a melhorar muito. Realizam-se pequenos eventos, mas há pessoas há um ano e meio sem trabalhar”, afirma Inês Sales, membro da associação, em entrevista ao P3. “Há muita gente que ainda está muito aflita.”

A União Audiovisual, criada durante a pandemia para apoiar colegas e profissionais do audiovisual, continua a pedir que sejam doados bens alimentares e não perecíveis. Lisboa é a região onde recebem mais pedidos de ajuda e onde vivem mais de metade das famílias apoiadas. “Quem precisa de apoio, não tenha medo, não tenha vergonha, ninguém saberá quem são. Há um núcleo muito pequeno com acesso a esses dados”, explica Inês Sales. Para quem precisar, a União Audiovisual oferece também um serviço de apoio psicológico gratuito.

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