Tropeçar alto e a bom som: o projecto Ouvir Vozes e a dimensão sociocultural da doença mental

A investigação recente indica que cerca de 4% da população ocidental tem a experiência de ouvir vozes mas, quando falamos de uma vivência curta ou isolada, a percentagem cresce exponencialmente com algumas investigações com públicos específicos (o universitário, por exemplo) a apresentar valores entre 40-80%.

Foto
Unsplash

Volta e meia lembro-me daquela história em que se numa escada todos os degraus forem do mesmo tamanho e, de repente, um for de medida diferente, tropeçamos. O projecto Ouvir Vozes (OV) pretende ser um desses degraus. Tem por pilar a pesquisa baseada em artes para abordar o fenómeno complexo e subjectivo de ouvir vozes que outras pessoas não ouvem, o seu significado para as pessoas ouvidoras, mudanças ao longo da vida e períodos de crise, mas também de alternativa. O objectivo principal é promover um diálogo abrangente que tenha como centro e protagonistas as pessoas ouvidoras, que nos ensinam que ouvir vozes pode também ser uma componente integrada do seu dia-a-dia, da sua concepção do mundo e da sua dinâmica mental. Reconhecendo a importância dos cuidados de saúde mental à medida de cada pessoa, é fundamental acrescentar uma compreensão desta experiência a partir de quem a vive e mapear e discutir outros conhecimentos sobre saúde mental.  

Na visão da equipa OV, a pesquisa baseada em artes é um conjunto de ferramentas metodológicas em todas as fases de investigação (planeamento, recolha, análise, interpretação e disseminação) e que faz uso de experiências afectivas e sensoriais, assim como da razão e do intelecto, como formas de conhecer e de responder ao mundo. Dá licença interpretativa para criar sentido, reconhecendo que o conhecimento pode ser não só compreendido, mas também, e principalmente, experienciado. A ênfase aqui é colocada no fazer, o que significa que o conhecimento é gerado pela prática artística e que esta não é nem deve ser um produto final usado para comunicar aquilo que já foi estabelecido pela investigação através de métodos tradicionais. 

Voltemos ao degrau que nos faz tropeçar. A investigação recente indica que cerca de 4% da população ocidental tem a experiência de ouvir vozes mas, quando falamos de uma vivência curta ou isolada, a percentagem cresce exponencialmente com algumas investigações com públicos específicos (o universitário, por exemplo) a apresentar valores entre 40-80%. No senso comum, a experiência de ouvir vozes é tida como algo angustiante e perturbador, próprio de quem perde a ligação com a realidade. No campo da saúde, é encarada como um sintoma – as alucinações auditivo-verbais – tido em conta na definição de um diagnóstico e alvo de intervenção terapêutica, nomeadamente farmacológica. Dessa forma, o fenómeno e as pessoas que ouvem vozes são geralmente remetidas para o estereótipo da loucura e marginalizadas como figuras bizarras. 

Mas e se esta experiência nos fosse mais próxima? E é aqui que começamos a tropeçar. Puxando a metodologia à minha disciplina, ou não fosse eu herdeira da etnografia, da história oral e dos métodos visuais como formas privilegiadas de envolver comunidades que são fonte de informação e diferentes públicos, é importante destacar que OV combina uma série de abordagens e reportórios artísticos e criativos que, num todo, contribuem para alterar a habitual relação com diferentes comunidades e públicos como co-construtores do conhecimento, ao longo de todo o processo.

A experiência dos elementos desta equipa transdisciplinar (comunicação de ciência, cinema, som, teatro, ciências sociais, saúde mental e activismo) é essencial para promover este diálogo “artadémico" que dá a conhecer experiências associadas a viver com questões de saúde mental enquanto expande o diálogo sobre o fenómeno de ouvir vozes. Como? Cria-se a dúvida e a surpresa: e se ao passar num espaço público, sem qualquer aviso, começar a ouvir vozes? Dissemina-se informação: e se sintonizar uma rádio (feita por utentes de um serviço de saúde mental) e for confrontada com histórias na primeira pessoa de quem cuida, trabalha com ou ouve vozes? Desafiam-se hierarquias: e se assistir a uma mesa redonda sobre o futuro da saúde mental onde se ouvem vozes outras que não aquelas a quem é socialmente reconhecida autoridade para discutir o assunto? Democratiza-se o conhecimento: e se não precisar de se deslocar a certos espaços privilegiados para participar neste projecto? Cria-se empatia: e se assistir a uma peça de teatro tendo como origem e consultoria as pessoas ouvidoras e ficar a perceber como gerem uma série de desafios quotidianos? 

São estas algumas das provocações que o projecto OV propõe chegando a quem habitualmente participa em eventos académicos e lê textos científicos, assim como a quem se encontra fora destas andanças mas frequenta iniciativas artísticas, quem não tem interesse nestas esferas ou tem, mas por razões de acesso (financeiro, geográfico, cultural) não se sente confortável em participar.

 Porque o objectivo do conhecimento é tornar-nos mais humanos. E para isso, é preciso tropeçar.