David Justino: “Se não temos condições políticas, há que dar lugar a outros”

David Justino admite saída de Rui Rio antes do próximo congresso, independentemente das autárquicas, caso considere que não tem condições políticas para continuar. “Depende do cansaço, da vontade, do empenho, de muita coisa.” Se isso acontecer, David Justino sairá com ele.

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David Justino conhece há muito Marcelo Rebelo de Sousa. Foi porta-voz do PSD  para a Educação, quando o actual Presidente da República era o líder do partido.

Marcelo em Belém é parecido com Marcelo presidente do PSD e Marcelo comentador? Continua a querer ter influência na vida do PSD?
Há características do professor Marcelo Rebelo de Sousa que eu identifico desde os anos 90, quando ele era presidente do PSD, era eu porta-voz para a área da Educação. O Marçal Grilo era ministro na altura. Marçal Grilo defendia um pacto para a Educação. Eu não sou muito adepto de pactos, mas na prática, sem eu saber, o professor Marcelo Rebelo de Sousa fez um pacto com o Governo Guterres, com o professor Marçal Grilo.

Eles conheciam-se, eram amigos, não havia problema nenhum – porque é que estava ali um porta-voz qualquer, jovenzinho imberbe, a meter-se pelo meio (risos)? Era o problema das propinas. E fez-se. Hoje temos propinas no ensino superior, porque o professor Marcelo viabilizou uma iniciativa do Governo Guterres.

O professor Marcelo já deixava transparecer, embora às vezes disfarçasse muito bem, que é um institucional, ao respeitar a estabilidade governativa durante a legislatura. Viabilizou três orçamentos do Estado do engenheiro Guterres! Nós, tidos como muleta do Partido Socialista, não viabilizámos um único! 

Mas Marcelo Presidente está convencido de que os orçamentos vão passar à esquerda.
Não sei se está convencido...

Acha que está a fazer pressão?
Acho que sim.

Porque acha que o PSD já está perdido?
Nem vale a pena pensar de outra maneira. Não esperem do PSD que seja uma espécie de bombeiro do regime. Há uma coisa que somos há muitos anos, uma espécie de mulher-a-dias do regime. Quando a sala está suja, vem o PSD, vai limpar a sala. E ainda a sala não está completamente limpa e o PS está pronto para entrar novamente. Somos uma espécie de faxineira do regime. Neste caso, não podemos ser a muleta do regime. 

O presidente da Assembleia defendeu que o Governo devia dialogar também com o PSD sobre o Orçamento. Esse diálogo está ferido de morte pelas trocas de palavras menos simpáticas entre os dois líderes?
Não sei se está ferido de morte, mas está muito moribundo. Não é pelo facto de o primeiro-ministro nos ter atacado que vamos alterar a nossa posição. Nem vamos responder nos mesmos termos. Estas acções ficam com quem as pratica. E, naquele sentido politiqueiro tradicional... a vingança serve-se mais fria. Vamos ter oportunidades de responder a essas coisas.

Segundo aspecto, aquilo que o primeiro-ministro disse agora não é muito diferente do que disse em Agosto do ano passado, quando traçou uma linha vermelha, quando disse que com entendimentos com o PSD o Governo caía a seguir. Se é assim, ficamos eternamente agradecidos, porque nos liberta da responsabilidade de encontrar compromissos para resolver os problemas do país. Está mais que visto que o primeiro-ministro não os quer resolver connosco.

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Agora, há uma coisa que eu sei: o PSD, quer em relação à reforma da Justiça, quer à reforma das Forças Armadas, não exige nada em troca. Os casamentos que se anunciam à esquerda são casamentos muito complicados. As noivas exigem um dote muito elevado. E quem vai pagar o dote somos nós e eu não gosto de pagar dotes deste tipo de casamentos. Nem são uniões de facto, são ajuntamentos por conveniência. E, sendo ajuntamentos por conveniência, a única lógica que ali está presente é preservar o poder. 

Não sabemos se Rui Rio sai ou fica depois das autárquicas. Admite o regresso de Passos Coelho?
Não falo com o dr. Pedro Passos Coelho há algum tempo. Tenho o maior respeito e amizade para com ele, mas nunca ouvi da parte do dr. Passos Coelho qualquer sinal ou intenção de se poder constituir como alternativa à actual liderança. Agora, que há uma espécie de guarda-costas que andam sempre a meter aqui algumas agulhas na engrenagem também há. Há gente que anda a alimentar isto. Nunca tive nada contra o dr. Pedro Passos Coelho, mas tenho alguma coisa contra esse tipo de gente. Nestas coisas tem de haver transparência e lealdade e nem uma coisa, nem outra eu reconheço em algumas das pessoas que estão a promover este tipo de fantasmas.

Agora há uma coisa: não é pelo facto de o dr. Passos Coelho se disponibilizar ou não disponibilizar a candidatar-se à liderança do PSD que o dr. Rui Rio vai tomar a sua posição. Ele vai pensar assim: tenho ou não condições para fazer alguma coisa daquilo que eu vim cá para fazer, que é resolver os problemas do país? Se ele entender que sim, vai continuar e sujeitar-se ao escrutínio. Se entender que não tem condições nem virá a ter tão cedo, é capaz de, por livre iniciativa, se retirar. O dr. Rui Rio está na mesma situação do que eu. Não vivemos da política. 

E ficamos a saber isso depois das autárquicas?
Vamos ter um processo eleitoral interno. E a seguir às autárquicas tem de haver esse período de reflexão sobre se há condições para que a estratégia que foi delineada há três anos tenha continuidade ou não. Ao contrário do que muita gente diz, há uma estratégia. Sabemos o que é que queremos, aonde queremos chegar. 

Está a dizer que não depende só das autárquicas?
Não, não depende. 

Depende do cansaço do líder do PSD?
Do cansaço, da vontade, do empenho, de muita coisa. O dr. Rui Rio vai fazer uma avaliação: o que é que eu estou aqui a fazer? Posso acrescentar alguma coisa ou não? E vai tomar a decisão. Eu também não estou a ver-me, se ele não ficar, a ficar a fazer seja o que for. Estou cá por ele, mas acima de tudo pelo projecto que nos uniu, para tentarmos fazer alguma coisa pelo país. A partir da altura em que não temos condições políticas para o fazer, eu acho que há que dar lugar a outros. Ficar no poder pelo poder não é muito atractivo.

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