Jeferson Tenório: “Não há problema nos estereótipos, o problema é não reflectir sobre eles”

O Avesso da Pele, do escritor brasileiro, trata temas como o racismo estrutural e a construção racial através das relações entre pais e filhos e entre casais. Um livro desencadeado por uma abordagem policial de que foi vítima. E por uma conversa com o filho sobre toda a humanidade que sobra para além da pele.

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Carlos Macedo

A ideia de O Avesso da Pele nasceu de uma conversa que Jeferson Tenório teve com o filho, João (a quem dedica o romance), quando ele tinha cinco anos. O escritor brasileiro que é também professor numa escola particular para adolescentes, onde dá aulas de português, literatura e redacção, comprara-lhe uma adaptação para crianças de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Além de imagens bonitas, há frases emblemáticas: “o sertão é dentro da gente”. Jeferson tentou explicar ao filho o que era o sertão dentro de nós. “Obviamente que ele não entendeu, era muito pequeno”, conta. Mas depois de ter explicado a frase, ficou ele próprio a pensar que sertão é esse que carregamos. “O sertão é esse lugar único, singular, que só nós temos acesso, isolado dos outros, um lugar que só nós podemos conhecer”, explica. E lembrou-se então de relacionar isso com a sua experiência enquanto negro no sul do Brasil. “O quanto é necessário preservar este sertão, este lugar, porque a todo o momento somos julgados pela cor da pele. O que em outras palavras significa que esse sertão nada mais é do que uma afirmação da nossa humanidade, que é colocada à prova. A todo o momento temos de provar que somos humanos e queremos esse reconhecimento. O livro surge com essa ideia”, conta ao telefone a partir de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, onde vive desde a adolescência embora tenha nascido no Rio em 1977.