Como gostaríamos que fossem os lares de idosos?

Os lares de terceira idade ou residências de idosos não devem ser hospitais, mas sim lugares para se viver, o que nos deve guiar para uma autêntica e urgente mudança do paradigma assistencial que sempre esteve centrado numa perspectiva exclusivamente sanitária.

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Paulo Pimenta

A pirâmide demográfica dos nossos dias e a que reflecte o nosso futuro na geografia que habitamos revela-nos a necessidade urgente de impor medidas, pensar novos modelos e investir no envelhecimento sustentável e feliz das nossas comunidades. 

A pandemia destapou a triste realidade que se vive em muitos lares de terceira idade bem como as suas enormes  fragilidades humanas, sociais e económicas. Muitos idosos, devido ao isolamento imposto pela pandemia, apresentam agora alguns rasgos de défice cognitivo o que nos deve fazer reflectir sobre os modelos actuais de assistência a idosos. 

Os lares de terceira idade ou residências de idosos não devem ser hospitais, mas sim lugares para se viver o que nos deve guiar para uma autêntica e urgente mudança do paradigma assistencial que sempre esteve centrado numa perspectiva exclusivamente sanitária. Afinal, quantos de nós se imaginariam a viver numa residência de idosos nos moldes que nos são conhecidos, ou se sentiria confortável por ter um familiar próximo numa destas instituições? 

No entanto, entendemos facilmente as razões sanitárias, e não só, que tornam estas instituições indispensáveis para acolher milhares de pessoas em todo o mundo. Dificilmente duvidamos que o melhor lar para qualquer ser humano é o seu próprio lar, a sua casa, mas nem sempre este lar está preparado para perpetuar os cuidados que se tornam essenciais a partir de determinado ponto na linha da vida, isto sem pensarmos como o lar nos pode enterrar no poço escuro da solidão

Hoje já são muitas as pessoas que têm residências adaptadas às necessidades da sua faixa etária, uma espécie de “mini-hospitais” em casa, situação que obviamente tem uma implicação financeira acessível a poucos, bem como a obrigatoriedade da existência de cuidadores no domicílio. Com o aumento da esperança média de vida, o contexto imobiliário também deveria reflectir nas necessidades do futuro na logística habitacional que vamos necessitar. Quantas pessoas pensam na terceira idade quando em tenra idade idealizam as suas casas? 

Está claro que, pensando nesta problemática, não podemos esquecer aquilo que faz girar o mundo e os nossos destinos: a economia. Como tal, é fácil concluir que os lares de idosos não são actividades lucrativas e a nível público as vagas disponíveis ficam naturalmente muito longe das necessidades de uma população altamente envelhecida e que cada vez mais vai necessitar e exigir o suporte do estado. 

Os idosos de daqui a 20 anos não serão os idosos de hoje, não terão as mesmas necessidades nem as mesmas expectativas e é por isso que já estão a surgir modelos habitacionais para esta época da vida, tais como o coliving ou cohousing, nos quais os idosos vivem numa espécie de república, com regras e serviços de apoio partilhados, fugindo assim de um dos grandes síndromes da terceira idade: a solidão. 

Solidão essa que, hoje, graças à pandemia, todos temos bem presente e sabemos como nos mata aos poucos por dentro, arrasando a nossa psique, o nosso bem-estar e, por fim, a nossa vitalidade e saúde física.

Um último modelo inspirador daquilo que são ou deviam ser os lares do presente ou do futuro é a vila de Hogeweyk na Holanda, também conhecida como “vila demência”. Até 1993, Hogeweyk era uma residência pública convencional para idosos. Mas, naquele ano, a direcção decidiu reformular o conceito geriátrico para aumentar o bem-estar dos residentes considerando que não era natural ter os residentes deitados numa cama à espera o dia inteiro da sua comida e da medicação. Desta forma, surgiu uma vila pensada para que os seus residentes, neste caso pacientes com Alzheimer vivam num ambiente o mais aproximado possível ao ambiente real. 

Nesta vila, ou cidade imaginária, em que os profissionais de saúde estão distribuídos por serviços essenciais simulados da vida diária de qualquer cidade, são implementados diariamente vários programas, sobre os quais alguns estudos já comprovaram que a interacção e estimulação social que ali se realiza têm a tendência para desacelerar a progressão das demências. 

Se pensarmos nos 30 milhões de pessoas a padecer de Alzheimer em todo o mundo — que é, aliás, o tipo de demência mais comum —, aliado ao facto de que todos vamos envelhecer um dia, podendo ou não padecer desta ou de outras estirpes de patologias, já é tempo de agir para que o futuro dos últimos anos de vida possa ser mais risonho. Afinal de contas, atingir a meta final da linha da vida não deveria ser o caminho mais prazeroso de todos ou o capítulo mais bonito das nossas vidas ao invés de um purgatório de sofrimento e solidão?