Jornalista de Hong Kong condenada por “falsas declarações” durante investigação

O documentário que resultou da investigação de Choy Yuk-ling foi galardoado com um prémio jornalístico por levantar “questões importantes que as pessoas no poder se recusam a responder”.

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A jornalista Choy Yuk-ling junto ao tribunal onde foi condenada por falsas declarações para obter dados para um documentário jornalístico PAK YIU/Reuters

Uma jornalista de Hong Kong foi considerada culpada de ter prestado falsas declarações para aceder a dados para um documentário sobre o tratamento policial numa manifestação em 2019. O veredicto de Choy Yuk-ling, anunciado esta quinta-feira, foi denunciado pelos Repórteres Sem Fronteiras como mais um exemplo do declínio da liberdade de imprensa em Hong Kong.

Ao declarar o veredicto, o juiz Ivy Chui disse que as regras “não têm o propósito de permitir que o público obtenha detalhes de veículos sem que haja limitações”, ordenando ainda o pagamento de uma multa no valor de 6 mil dólares de Hong Kong (cerca de 643 euros) por violação de uma lei de trânsito. 

O documentário, transmitido pela estação RTHK, investigava a inércia da polícia perante um ataque de manifestantes pró-Pequim contra os protestantes pró-democracia e transeuntes. Através dos registos das matrículas, a jornalista queria ser capaz de relacionar supostos atacantes com pessoas influentes que estariam a favor de Pequim e apurar os motivos que contribuíram para o atraso da resposta policial.

Choy Yuk-ling, conhecida como Bao Choy e galardoada com prémios jornalísticos conseguidos ao serviço da RTHK, foi detida em Novembro por ter acedido aos registos. “É devastador que o juiz decida que já não é permitido investigar informação pública”, disse a jornalista aos repórteres que se encontravam no exterior do tribunal. “Fazer jornalismo de investigação não é um crime”, acrescentou, citada pelo Guardian.

O documentário não passou despercebido e ganhou, um dia antes do veredicto, o prémio Kam Yiu-yu para a Liberdade de Imprensa. Segundo o júri, o filme “levanta questões importantes que as pessoas no poder se recusam a responder”, para além de usar de forma “detalhada e profissional” os registos públicos. Por sua vez, a RTHK recusou o prémio.

Recuos na liberdade de imprensa

“Este é um dia de vergonha para Hong Kong”, disse o director da Associação de Jornalistas de Hong Kong, Chris Yeung, para quem criminalizar o trabalho jornalístico equivale a “destruir indiscriminadamente” a liberdade de imprensa.

No ranking mundial de liberdade de imprensa, a cidade desceu do 18.º lugar, em 2002, para o 80.º em 2020, segundo um relatório publicado na quarta-feira pelos Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Sobre a condenação de Choy, a organização considera que “o facto de uma investigação jornalística poder ser uma ofensa punível enfatiza a extensão do recente declínio da liberdade de imprensa em Hong Kong”.

A estação RTHK tem sido, em particular, alvo de uma “campanha intimidatória por parte do Governo com o objectivo de restringir a sua autonomia editorial”, denuncia o relatório da organização. A última mudança aconteceu em Fevereiro, aquando da substituição do director por Patrick Li, sem experiência no sector, que cancelou vários programas politicamente sensíveis.

Outro marco negativo na evolução da liberdade de imprensa no território foi a condenação a 14 meses de prisão, na semana passada, de Jimmy Lai, por participar em dois protestos “não autorizados”. O fundador do Apple Daily, crítico do Governo e laureado com os Prémios de Liberdade de Imprensa dos RSF de 2020, apelou aos jornalistas a “lutarem por justiça”.