Um momento de publicação independente: The Press and the P

Fanzines, edições de autor, livros de artista — nesta rubrica queremos falar de publicação independente. Leonor Carpinteiro apresenta The Press and the P.

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Mana Kaasik

Apresenta-nos a tua publicação.
Tomando como ponto de partida o famoso conto A Princesa e a Ervilha de Hans Christian Andersen, The Press and the P é uma breve estória gráfica que reflecte sobre as características da impressão tipográfica tradicional e as diversas relações que podemos estabelecer entre ela e a linguagem – neste caso, recorrendo a expressões da língua inglesa.

Entre o poema visual e o conto de fadas, ao longo da leitura somos desafiados através de trocadilhos e estimulados com pistas tácteis e visuais, ao mesmo tempo que nos questionamos acerca da invisibilidade daquilo que pode ser sentido e tentamos entender o que têm afinal as ervilhas a ver com tudo isto. Ao passar as páginas encontraremos texturas variáveis, impressões cegas, profecias escondidas e páginas desdobráveis, entre outras surpresas que nos convidam a uma viagem pelos muitos P's do vocabulário tipográfico – e por uns quantos colchões!... The Press and the P é, assim, um livro de artista dedicado a todos os print geeks sonhadores que há por aí.

Quem são os autores?
The Press and the P foi escrito, composto e impresso por Leonor Carpinteiro.

Do que quiseste falar?
A ideia base para este projecto foi a semelhança que encontrei entre a estória contada n’A Princesa e a Ervilha e a impressão tipográfica. Assim como a princesa, que consegue sentir uma ervilha colocada por baixo de 20 colchões, uma prensa de impressão bem afinada deixa sempre transparecer na impressão a textura do que quer que coloquemos por trás do papel onde vamos imprimir a mínima diferença de pressão provoca sempre uma diferença na impressão. Esta observação levou-me à conclusão de que uma prensa pode ter a sensibilidade de uma princesa. Partindo deste pressuposto, e após alguma investigação acerca do conto de fadas original e das suas várias adaptações literárias e cinematográficas, outras relações começaram a tornar-se claras: as palavras “P” (letra P, que em inglês se lê “pea”) e “ervilha” (em inglês, “pea”), a relação da expressão inglesa “Mind your Ps and Qs” com o universo da impressão, a quantidade de palavras do vocabulário tipográfico que iniciam pela letra “P” (pressure, point, platen, press, print, printer…).

Este livro surge no contexto da conclusão de uma temporada de oito meses passada na Estónia, a trabalhar num sítio incrível chamado TYPA. Lá aprendi a compor com caracteres móveis, a ver os espaços brancos entre as palavras e a distinguir um “p” de um “q”. The Press and the P é assim uma forma de partilhar o meu fascínio por esta área, tanto junto daqueles que também gostam de sujar as mãos com tinta como junto aos que só querem saber de contos de fadas.

Questões técnicas: quais os materiais usados, quantas páginas tem, qual a tiragem e que cores foram utilizadas?
The Press and the P foi escrito, composto e impresso por mim, e encadernado com a ajuda de Agnieszka Kunz, Jelisaveta Dzigurski and Kristiin Hanimägi, na TYPA (Museu/Estúdio dedicado ao papel e à impressão), na Estónia (Tartu), em 2020. Está escrito em inglês, tem um formato de 115 mm X 140 mm, 26 páginas e foi impresso a duas cores (rosa e verde) sob diferentes tipos de papel e cartão fino. Livro impresso em tipografia com composição manual, utilizando caracteres móveis em chumbo e madeira e outros equipamentos tipográficos históricos. Tiragem limitada de apenas 42 cópias!

Onde está à venda e qual o preço?
Está à venda através de e-mail ou mensagem privada e tem o custo de 15 euros.

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Mana Kaasik

Porquê fazer e lançar edições hoje em dia?
Bem, porque é incrível! É uma sensação indescritível essa de termos a oportunidade de partilhar o nosso pequeno universo ou a nossa visão muito peculiar sobre determinado assunto com alguém. Muitas vezes, alguém que nem conhecemos e a quem o nosso trabalho ressoará de formas que não conseguimos sequer imaginar. Incentivar e valorizar a produção de publicações em contexto não industrial, que partilham uma visão autoral e abordam temas que raramente encontram palco no mercado editorial, parece-me mais que essencial.

Recomenda-nos uma edição de autor recente lançada em Portugal.
Não posso deixar de recomendar o Manual Prático do Tipógrafo, de Joana Monteiro (Clube dos Tipos) e Rúben Dias (Tipografia Dias), composto e impresso na Tipografia Damasceno, em Coimbra. Apesar de não ser uma edição recente ainda existem exemplares para venda e tem sido divulgado um programa de trocas que permite levar para casa este Manual sem recorrer a dinheiro. Esta publicação foi criada para utilização no contexto de oficinas de tipografia tradicional, consistindo num glossário de termos essenciais que possibilitará estreitar a distância entre novos interessados na prática, técnicos e designers.