Os pães-de-ló de Arouca e Ovar chegam a novos clientes apesar da Páscoa “menos farta”

Especialidades de Arouca e Ovar encontraram novos caminhos para chegar às mesas, entre as vendas na Internet e uma melhor distribuição.

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Produtores de pão-de-ló de Arouca e Ovar reconhecem que estão a vender menos do que em 2019 porque a pandemia impõe uma Páscoa menos farta, mas aumentaram a distribuição e as vendas online, chegando agora a novos clientes.

No caso de Arouca, concelho do distrito de Aveiro particularmente conhecido pela sua doçaria conventual, são duas as iguarias mais procuradas por esta altura: aquela que é de facto conhecida como “pão-de-ló de Arouca”, que se apresenta numa única fatia, alta e quase quadrangular, encharcada em calda de açúcar e, por esse motivo, normalmente divisível em três a quatro doses; e a chamada “broa ou bôla de pão-de-ló”, cuja aparência é semelhante à versão seca tradicional, mas se confecciona no forno, é um pouco mais macia e tem o topo decorado por uma glace branca.

Os produtores que se dedicam a essas receitas são apenas dois no concelho e ambos admitem perdas financeiras em montantes não revelados. “Houve uma quebrazita ao balcão, porque, como as pessoas têm que estar confinadas e não podem circular entre concelhos, deixaram de vir cá e, mesmo quando vêm, compram menos quantidade, já que, sem o compasso nem a família alargada, as mesas desta Páscoa vão ser menos fartas”, declara Tiago Brandão, da casa A. Teixeira Pinto.

Em contrapartida, o número de revendedores noutras localizações do país cresceu - é o caso da rede El Corte Inglés, “sobretudo o da loja de Vila Nova de Gaia” - e o site que o fabricante de Arouca criou em 2019, ainda antes de detectado o vírus SARS-CoV-2, vem compensando: “Estamos a vender mais online, seja para enviar por correio ou por transportadoras, porque toda a agente está a adaptar-se e a aderir a estas tecnologias”, revela o gerente da casa.

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Os preços do produto mantêm-se em valores pré-covid e a única diferença são as despesas de envio, que “em encomendas até cinco quilos não costumam custar mais do que 6 a 7 euros”, com a vantagem de levarem “mesmo à porta do cliente” uma oferta que pode ser “degustada com calma em convívios mais pequenos”, de preferência “com um espumantezinho a acompanhar”, para melhor se equilibrarem os níveis de açúcar.

Já Renato Oliveira, gerente da casa Alberto Teixeira Pinto & Filhos, tem optado por vendas apenas no seu próprio estabelecimento, para manter a exclusividade. Com uma procura que este ano já se adivinha “melhor do que a da Páscoa de 2020”, quando o confinamento imposto pela covid-19 era “muito mais apertado”, o produtor disponibiliza as encomendas à porta e, embora a fatia encharcada e a broa de ló sejam os doces mais procurados, garante que o freguês “continua a levar de tudo um bocadinho”.

Os preços mantêm-se iguais por duas razões: porque “o cliente também está a passar dificuldades e não ia perceber se agora fossem alterados” e porque há a expectativa de que, após o desconfinamento, o regresso ao serviço de mesa acabe por compensar as perdas, “com mais gente a sentar-se para um saborear um doce e um chazinho, e desfrutar do ambiente tranquilo da sala”.

Já no concelho de Ovar, igualmente no distrito de Aveiro, é mais difícil conhecer a situação geral dos 12 fabricantes do pão-de-ló com creme de ovos na base porque a respectiva associação de produtores não atende o telefone.

O site dessa organização remete para um telefone que já não lhe está atribuído, pelo que a actual proprietária do número indicado atende a chamada já com o recado pronto: “Eles já deviam ter mudado o número, mas nem o alteram nem atendem quando alguém lhes liga para o outro telefone”.

É assim Alda Almeida, proprietária da Casa das Festas, quem acaba por contar como a pandemia lhe mudou o negócio. Desistiu dos envios por correio porque “só dão problemas e o produto não chega ao cliente em condições”, mas, em contrapartida, durante o cerco sanitário de 2020 começou a fazer entregas ao domicílio e tem corrido tão bem que o passa-palavra lhe garantiu “muitos clientes novos”.

Defendendo que “qualquer vareiro que se preze tem sempre à mesa da Páscoa um pão-de-ló de Ovar ou pelo menos uma rosca doce”, a empresária está optimista: “Vou atingir os valores de 2019. Vai ser tudo para clientes locais, mas acredito que vai compensar pela vida que tenho levado com o meu marido, os dois aqui sozinhos, sempre presos a trabalhar”.

Contactados outros dos 12 estabelecimentos certificados, vários mostraram-se indisponíveis e só Manuel Cardoso, sócio da casa Pão-de-Ló Cardoso, aceitou falar.

Disse que o negócio não está muito famoso, mas vai ser “um bocadinho melhor este ano do que em 2020"; contou que continua a privilegiar a venda ao balcão e através de um grupo restrito de revendedores porque à gerência “não sobra tempo para tratar do comércio online"; e também apoiou o argumento de que os preços não podem ser alterados “porque então as vendas ainda iam ser piores”.

Aspectos positivos, só aponta dois: apesar de se perder dinheiro, a pandemia ajudou a abrandar o ritmo, permitindo “que se trabalhe melhor e se tenha mais tempo para a vida pessoal"; e, venha o que vier, o pão-de-ló vareiro continua a saber bem “de todas as maneiras”, à fatia ou à colher, simples ou mexido com queijo amanteigado, regado “com vinho fino, com vinho de mesa, com whisky ou com vodka”.

“Desde que o acompanhamento tenha álcool, o pão-de-ló de Ovar cola bem com tudo”, garante o pasteleiro.