No labirinto do Minotauro: a Comissão e o “passaporte de vacinação” europeu

A criação desta espécie de “passaporte de imunidade” parece ser (teoricamente) uma boa ideia. No entanto, não escapa a problemas complexos que são simultaneamente de natureza tecnológica, médica, ética, jurídica e política.

1. Na cultura europeia, uma das narrativas mais marcantes da mitologia da Antiguidade grega é a do Minotauro, um ser com corpo humano e cabeça de touro que vagueava num palácio labiríntico em Creta. No relato mítico, Teseu foi o herói que matou o Minotauro e conseguiu sair vivo do labirinto onde o monstro se encontrava, algo que ninguém tinha conseguido antes. Usou para isso o miraculoso “fio de Ariadne” — Ariadne era uma princesa de Creta, filha do rei Minos e da rainha Pasífae — o qual lhe permitiu encontrar a saída. Na Grécia moderna, a par do clima mediterrânico, o passado da Antiguidade clássica constitui um património histórico-cultural que atrai inúmeros viajantes do exterior, sendo crucial na economia helénica. Mas a Grécia não é um caso único na União em termos dessa dependência sectorial. De forma similar, Chipre, Portugal, Espanha e outros Estados do Sul têm uma larga dependência desse fluxo de pessoas. Com a aproximação do Verão, a Comissão Europeia ficou sob grande pressão para encontrar um “fio de Ariadne” que permita sair do labirinto do Minotauro (a pandemia da covid-19) provocada pelo vírus SARS-CoV-2 (o monstro).