Dia do Pai: isso é o que tu dizes

O que vivo hoje com os meus filhos não consigo equiparar ao que fiz em tempos com o meu pai. Foi o que foi naquela época, nas circunstâncias da vida diferente que existia, e se não senti falta na altura foi porque também não conhecia.

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Steven Van Loy/Unsplash

Esta é a expressão favorita do meu filho de sete anos, quando lhe digo alguma coisa que não quer ouvir ou, estando interessado, não está “nem aí” para o assunto naquele momento. Por norma sorrio e respondo “Isso é o que tu achas!”, numa troca de galhardetes que faz as delícias da irmã mais velha, se esta estiver a assistir.

Não sou fã do Dia do Pai, assim como não sou fã do Dia da Mãe, da mulher, da criança, e de todos os dias que pretendem homenagear alguma coisa que já foi abarbatada pelo mercado de consumo e cria em nós uma obrigação bastante absurda de gerar circulação de dinheiro.

Vivo o tempo em que os meus filhos petizes me dão presentes felizes feitos por eles, com algumas ideias trazidas da escola, mas muitas outras geradas pela imaginação própria, sempre estimulada por mim e pela mãe. Não precisamos de datas especiais para fazer esta troca de inspirações e durante todo o ano abrimos exposições e transformamos a casa numa galeria de arte multidimensional, onde expomos a nossa criatividade, cada vez mais ecológica porque a sustentabilidade é um real dever de todos nós.

Há um significado, sentimento e empenho diferentes quando se sente que estamos com a mão na massa e quando usamos a nossa arte e engenho para alegrar alguém que não é um estranho.

Nos tempos ímpares em que vivemos, com o distanciamento social a vigorar no mundo como comportamento regra, tenho curiosidade em pensar quantos pais e filhos irão ser a excepção e darão um abraço verdadeiramente sentido como nunca antes havia acontecido.

De pais que partiram sem a despedida dos seus filhos, numa solidão atroz, difícil de imaginar e sentir, a filhos que neste primeiro ano de pandemia passaram mais tempo com os pais do que com os professores, reforçando laços que naturalmente deviam estar sempre presentes, mas que foram forçados a acontecer em circunstâncias extremas, todas as famílias devem ter vivido situações excepcionais.

As salas de estar, se ainda não o eram, passaram a ser a divisão da casa onde tudo pode acontecer. Montar castelos e tendas, brincar às bonecas, jogar à bola, dormir a sesta, fazer educação física, estudar, trabalhar e, nalguns casos, até há quem tenho conseguido descansar, com ironia e sempre, quase sempre muito para lá do final do dia.

Neste dia, que muitos nomeiam “do Pai”, vão haver, por certo, muitas omissões, mas por mais justificações que se queiram dar, porque dizem que não se pode circular, que não se pode facilitar e beijar ou abraçar, só vão realmente falhar aqueles que não souberam ser e estar em todos os outros 364 dias do ano.

Ser pai ou filho não acontece uma vez no ano, e para quem vive ou viveu essa realidade, nem a saudade pode ajudar, porque não há memórias para recordar, histórias para contar, experiências para sentir, e a relação que um dia se criou e tinha tudo para ser forte e vingar, simplesmente esmoreceu e se calhar até morreu, sem que nenhum o conseguisse evitar.

O que vivo hoje com os meus filhos não consigo equiparar ao que fiz em tempos com o meu pai. Foi o que foi naquela época, nas circunstâncias da vida diferente que existia, e se não senti falta na altura foi porque também não conhecia.

Hoje aceito o que foi e aprendi com isso, tornando-me um pai que não precisa de esperar pelas datas especiais para dar e que abomina as convenções que querem rotular e formatar sentimentos de agradecimento. Para mim, Dia do Pai é todos os dias porque essa é a minha realidade e qualquer dia é bom para abraçar, beijar e dizer que se ama o outro.

Que todos os pais e filhos possam sentir esta liberdade de expressão, libertar sentimentos sem medo do bicho papão, e que este seja o último ano em que sentiram obrigação de fazer um telefonema, uma visita ou uma compra, só para cumprir o calendário.