Herdeiros de Hergé processam artista que fundiu Tintim com as pinturas de Hopper

O pintor francês Xavier Marabout imaginou um Tintim erotizado a encontrar-se com mulheres sensuais nos cenários pintados pelo pintor americano Edward Hopper (1882-1967). Os herdeiros de Hergé não acharam graça e o caso vai a tribunal em Maio.

tintin,bd,artes,culturaipsilon,banda-desenhada,pintura,
Fotogaleria
tintin,bd,artes,culturaipsilon,banda-desenhada,pintura,
Fotogaleria
tintin,bd,artes,culturaipsilon,banda-desenhada,pintura,
Fotogaleria

Nos quadros de Xavier Marabout, um pintor da Bretanha francesa nascido em 1967, o assexuado Tintim desenhado por Hergé troca a companhia do capitão Haddock, e as movimentadas demandas em busca do tesouro de Rackham o Terrível ou do ceptro de Ottokar, por lânguidos encontros com beldades de calendário nos cenários americanos pintados por Edward Hopper. Os herdeiros de Hergé (1907-1983), e em particular o segundo marido da sua viúva, Nick Rodwell, não gostaram da ideia e instruíram os serviços jurídicos da empresa familiar, a Moulinsart, para avisarem Xavier Marabout de que este não estava autorizado a utilizar a imagem de Tintim nas suas obras.

Marabout reconhece que a Moulinsart lhe enviou uma carta em 2015, pouco após ter iniciado a série Hergé/Hopper, que já vai hoje em 24 telas, e explica que tentou, sem sucesso, sensibilizar os herdeiros de Hergé para os propósitos artísticos do seu trabalho, que “não prejudica a obra de Hergé” e, pelo contrário”, defende, “alimenta o mito” de Tintim.

Os argumentos não convenceram a Moulinsart, que em 2017 processou formalmente o pintor bretão por “contrafação” e “atentado ao direito moral”. O julgamento começa no próximo dia 10 de Maio no tribunal de Rennes, em França.

Leitor voraz de banda desenhada desde a infância, Marabout não esqueceu os seus primeiros heróis quando começou a interessar-se pela pintura moderna, e teve a ideia de associar as personagens de BD que o tinham cativado aos pintores cujo universo visual mais o fascinava. Inscrevendo-se nos seguidores contemporâneos da chamada comic strip art, com origem na arte pop dos anos 60 e em artistas como Roy Lichtenstein, a originalidade de Marabout está na ideia de fundir dois universos artísticos específicos. E ainda antes de explorar a associação de Hergé a Hopper, já cruzara as personagens do lobo McWolf e do cão Droopy, dos desenhos animados de Tex Avery, com a pintura de Pablo Picasso, ou os mundos de Batman e de Gustav Klimt.

Um Tintim romântico

Quando imaginou misturar Hergé e Hopper, Marabout pensou de imediato em criar um Tintim apaixonado. “Tive logo o desejo de o fazer apaixonar-se, de imaginar uma vida sentimental para este herói que julgamos ser assexuado, e desenvolvi essa narrativa nas telas de Hopper”, conta o pintor numa entrevista publicada esta quarta-feira no jornal Le Parisien.

Na versão de Marabout do célebre Nighthawks, é agora Tintim quem se senta ao balcão com uma provocante loura, enquanto o barman de barrete branco pintado por Hopper dá a vez a uma barwoman ruiva com chapéu de cowboy.

Dos interiores de hotéis e restaurantes às paisagens rurais americanas com as suas casas de madeira ou bombas de gasolina no meio do nada, todos os cenários recorrentes de Hopper reaparecem na obra de Marabout, mas agora como cenário para as estas novas aventuras de Tintim, que mostra o seu musculado torso num quarto de hotel, conversa com uma mulher no alpendre de uma casa, com a cadela Milou ao lado, ou beija outra dentro de um automóvel, junto à ponte de Queensborough, em Nova Iorque, que Hopper pintou em 1913.

O artista bretão rejeita a acusação de contrafaçcão que lhe é imputada, argumentando não haver confusão possível entre o seu trabalho e o de Hergé. E defende o seu direito a sexualizar a personagem de Tintim, observando que o propósito é humorístico e que a paródia constitui uma excepção em matéria de direitos de autor. O advogado que representa os herdeiros não concorda e lembra que o próprio Hergé afirmara várias vezes em entrevistas que evitava envolver mulheres na sua obra – Castafiore é uma gritante excepção – porque achava que raramente eram cómicas.

Ao jornal inglês The Guardian, Marabout explica que a sua obra ilustra a tese do historiador e antropólogo francês Christian Jacob de que não há transmissão cultural sem apropriação. “Revisito a minha própria cultura, fundindo diferentes mundos culturais e dando-lhes sentido, porque alguns universos falam entre si em segredo”, descreve o artista. “Na minha série Hergé/Hopper, imaginei uma vida romântica para Tintim no universo intimista e voyeurista do pintor americano”, diz. E se “as pinturas em que Tintim é encenado com pin-ups são divertidas”, Marabout acrescenta que quis  também “mostrar que estes dois universos são perfeitos para se encontrarem: o mistério das pinturas de Hopper a responder ao mistério de Tintim”.

Defendendo que a liberdade de expressão, que inclui o direito à paródia, é um princípio fundamental da democracia, Marabout disse ao Guardian ter esperança de que a justiça lhe dê razão, mas não escondeu algum receio, já que “atravessamos um período difícil em que as liberdades vão declinando a cada dia”.

A sociedade Moulinsart reclama uma indemnização de 12.500 euros, uma verba que poderá ser significativa para Xavier Marabout, mas que não deixa de parecer um tanto irrisória quando comparada com os montantes que o coleccionismo em torno de Tintim movimenta. Basta lembrar que em Janeiro passado um projecto de capa para o álbum O Lótus Azul, assinado por Hergé, foi vendido em leilão por 3,2 milhões de euros.