Esta burla tem perfil público

Sob a promessa de retornos aliciantes (em bom rigor, de banhos em jacuzzis atulhados de maços de notas), e travestidos de investimentos legítimos em trocas cambiais ou criptomoedas, montaram-se inúmeros esquemas piramidais.

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É curioso como alguns gestos insólitos podem abalar toda uma estrutura. Como, perante a apatia das autoridades, são cidadãos insuspeitos a agir em nome do interesse público, debaixo de ameaças e sanções legais.

Há poucos dias, um jovem streamer partilhou em directo, diante de uma audiência crescente e em polvorosa, os ficheiros fraudulentos e plagiados que uma empresa cobrava aos seus alunos por largas centenas de euros. Redlive13, hackeando o site da organização dedicada à venda de cursos de investimentos financeiros, denunciou a participação de numerosos influencers na burla, que se serviam do seu mediatismo para atrair os mais jovens.

O caso exposto é sintomático de um fenómeno “pandémico” que se disseminou nos últimos anos, subtilmente, mas bem às claras. Sob a promessa de retornos aliciantes (em bom rigor, de banhos em jacuzzis atulhados de maços de notas), e travestidos de investimentos legítimos em trocas cambiais ou criptomoedas, montaram-se inúmeros esquemas piramidais – negócios cuja verdadeira fonte de receita assenta nas mensalidades chorudas pagas pela ingenuidade dos aderentes. É simples: o dinheiro vai trepando e fixando-se no topo da pirâmide e, caso o recruta endividado não queira ficar a perder, terá de se tornar também ele um marketeer, convencendo conhecidos a juntar-se ao esquema e passando-lhes a batata quente para a mão (para uma descrição breve e humorística do fenómeno, ver este vídeo): 

Não te enganas se pensares que isto está destinado a um fim catastrófico. E também não é errado achar que, tal como se usa o trading para mascarar uma economia destas, também se podia usar um par de sapatos velhos.

A probabilidade de te teres deparado com uma burla destas é muito elevada, se:

  1. Reparaste na fotografia de um jovem entrepreneur num pôr do Sol do Dubai, sentado num carro desportivo fluorescente;
  2. A descrição contiver uma frase comovente sobre o poder dos sonhos, retirada à sorte de um livro de auto-ajuda;
  3. O perfil, com um número suspeito de seguidores, for uma ode ao luxo e ao materialismo;
  4. Se nada disso não for muito condizente com o empenho missionário em querer fazer enriquecer todos os que enviarem uma mensagem privada.

Diariamente, centenas de aspirantes a vidas folgadas caem na teia. Já fui convidado a participar num evento secreto de “angariação de clientes”, uma videochamada com centenas de participantes a quem se pediu silêncio e uma subscrição mensal de mais de 200 euros, após uma missa recheada de discursos motivacionais e uma enorme deficiência na descrição do produto em oferta.

A falta de mobilização dos lesados explica-se tendo em conta todos os mecanismos de repressão (que podem assumir a forma de uma intimidação), de internalização da culpa pelos prejuízos e a própria natureza dos contactos e do controlo exercido pelas “famílias”. A complacência social e a impunidade jurídica perante a banalização deste tipo de práticas – tipificadas como burla qualificada (com pena de prisão até 8 anos) e violadoras de inúmeras disposições do direito do consumo – são a parte mais preocupante da história.

Mas, para além da censura devida, há que reflectir sobre as razões da proliferação deste crime, numa cultura que erigiu a auto-ajuda e o empreendedorismo a um estatuto religioso – e há quem se sirva disso para manipular e culpabilizar. Em que a precariedade se generalizou e escasseiam os empregos que merecemos. E em que a abundância material e a popularidade mediática são sinónimo de sucesso e um factor de legitimação social. Esta burla é a decadência lógica e esperada de tudo isto.