Faraós do Forex

O Forex é o mercado de divisas e estas, ao contrário da maioria dos outros activos negociáveis, são ao mesmo tempo instrumentos e indicadores económicos. Basicamente, se os países fossem empresas, as divisas seriam as suas acções.

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REUTERS/Kim Kyung-Hoon

A cibervida transmitida por centenas de pessoas nas redes sociais é uma verdadeira alusão ao estilo de vida dos faraós do Antigo Egipto. São jovens, a viver uma vida emprestada, prometem lucros em pouco tempo, ostentam roupas e carros de luxo, demonstram resultados ficcionados em plataformas de simulação e emanam uma sapiência que faz tremer qualquer mago da economia ou gestão, utilizando expressões como mentor millionaire, mindset e travel the world. São instagrammers à procura de capitalizar os seus seguidores para um negócio bem mais perigoso do que apresentam e sem consciência sobre os crimes que cometem.

O negócio do Forex ou FX (acrónimo da expressão inglesa Foreign Exchange) não funciona em nenhum edifício, não tem representantes, é apenas digital. O Forex é o mercado de divisas e estas, ao contrário da maioria dos outros activos negociáveis, são ao mesmo tempo instrumentos e indicadores económicos. Basicamente, se os países fossem empresas, as divisas seriam as suas acções. Os intervenientes no mercado Forex são os governos, bancos, fundos de investimento, correctoras e investidores profissionais e particulares, devidamente autorizados e licenciados pela regulação de mercado.

No fundo, o negócio é este: cada divisa é representada por um trigrama, que pode ser o dólar americano (USD), dólar australiano (AUD), libra esterlina (GBP), euro (EUR), franco suíço (CHF), entre muitas outras. A compra de uma divisa envolve sempre a venda simultânea de outra. A título de exemplo, ao dia de hoje, o EUR/USD = 1,16517, o que significa que um euro vale 1,16517 dólares. O investidor não está a comprar euros ou dólares, mas uma taxa de câmbio entre duas moedas, que está constantemente a mudar. Só para se ter uma ideia, as variações ocorrem sempre na quarta casa decimal à direita da vírgula, ou seja, num cenário de subida de 1,16517 para 1,16617 dólares (uma subida épica num só dia = 0,010), para ganhar 1000 euros, o investidor teria de investir 100 mil euros.

Mas o que faz este negócio ser um esquema piramidal? São as inúmeras transferências em contas de desconhecidos (os ditos faraós) para que estes invistam com a esperança de um retorno. Inicialmente, acaba por ocorrer esse retorno. Mas, como em qualquer esquema, alguém ficará para trás. Os lucros esperados viram prejuízos. Os jovens com mas visibilidade são as presas mais fáceis e o passo seguinte é convencê-los a trazer mais pessoas para o negócio, criando uma espécie de tentáculos do polvo. Quanto mais central for a posição do player, mais dinheiro entra no bolso ilicitamente. Sem entender bem como, os jovens acabam envolvidos num esquema piramidal.

Existe ainda assim outro modus operandi: os jovens são aliciados a comprar cursos online de como se tornar um expert de Forex, chegando a mensalidade a ser superior à de uma propina académica. Aqui mora outro entrave legal: qualquer instituição, para que possa leccionar um curso em Portugal, deve ser reconhecida como tal, o que não é manifestamente o caso. Os ditos formadores fazem crer que o lucro se antecipa com os chamados signals, ou seja, através de figuras geométricas virtualmente criadas sobre as variações do mercado (graficamente representado). Cada figura criada permitiria antecipar se o preço vai subir ou descer. Tudo uma valente treta.

A Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) já veio a lume pronunciar-se sobre um pretenso movimento designado Forex Portugal, justificando que este não poderia exercer qualquer função de intermediação financeira por não cumprir os requisitos nos termos do Código dos Valores Mobiliários, ou seja, ser interlocutor credenciado para investir em Forex. Todavia, para contornar estas questões legais, os mentores destas organizações estão a agir de forma diferente. Isto é: até aqui estavam espalhados pela Europa, nestes ditos movimentos; porém, para fugir às malhas apertadas da regulação financeira, estão a operar a partir de paraísos fiscais, nomeadamente da América Latina, muito propícios a esquemas fraudulentos, em que podem receber dinheiro, dividi-lo pelos membros, sem qualquer tipo de responsabilização. No fundo, é como se fosse uma rede de tráfico internacional, em que os cabecilhas se encontram em parte incerta e os faraós são a cara visível do negócio, recebendo uma percentagem por cada angariação.

É bom que todos tenham noção do seguinte: o Forex resulta da lei da oferta e da procura, ponto. Sempre que uma moeda é comprada, mais procura é gerada no mercado, empurrando o preço para cima. Encontrar o ponto de equilíbrio é a chave de como entender o trading de Forex e, nos dias de hoje, ainda por cima em tempos adversos, uma boa parte do volume transaccionado resulta de pura especulação (conhecida por trading for profit). Além dessa, existem factores, como as taxas de juro, inflação, eventos políticos, catástrofes naturais, etc. É um negócio tão imprevisível como controlável. Espero que percebam isso e larguem esse vírus.