12 números que mostram como o país mudou num ano

E, de repente, um vírus mudou as nossas vidas. Passamos a andar menos de carro (e isso foi bom para o ambiente) e a ficar muito mais tempo à frente do computador. Nos aeroportos, os aviões chegaram cada vez mais vazios, o que se reflectiu nas contas das transportadoras e das empresas do turismo. Um ano depois do primeiro caso de covid-19 ter sido registado em Portugal, sabemos que o país mudou. Mas quanto? E como? O PÚBLICO reuniu 12 números que contam histórias.

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Miguel manso

-28%: Redução na concentração de dióxido de azoto na Avenida da Liberdade em 2020

Com o país confinado, os carros ficaram em casa e o ar das cidades portuguesas melhorou. Foi o que aconteceu na Avenida da Liberdade, em Lisboa, onde, de acordo com a associação ambientalista Zero, se têm identificado “os piores valores de concentração de alguns poluentes”.

A concentração média anual de dióxido de azoto (NO2) na Avenida da Liberdade passou dos 54,6 microgramas por metro cúbico em 2019 para 39,6  em 2020. Uma descida de cerca de 28% deste poluente associado ao tráfego automóvel.

O padrão mantém-se em 2021. Até ao dia 23 de Fevereiro, a concentração média de dióxido de azoto era de 31.6 microgramas por metro cúbico em 2021 — um número certamente influenciado pelo novo período de confinamento geral.

-12,6%: Redução no número do valor médio diário de veículos a circular nas auto-estradas portuguesas no mês de Agosto

Não foi só nos centros urbanos que se verificou uma descida no tráfego automóvel. Com as medidas anticovid-19 a desaconselhar ou até mesmo a proibir a circulação entre concelhos, o tráfego automóvel nas auto-estradas foi bastante afectado.

Se olharmos para a circulação média diária nas auto-estradas portuguesas (ponderada pelo peso relativo de cada uma das autoestradas), os dados do IMT indicam que em Agosto – um mês tradicionalmente de férias em que muitos portugueses rumam para fora dos centros urbanos, aumentando por isso a circulação nas auto-estradas — ​o  tráfego caiu 12,6%. No Agosto de 2019, circulavam em média 24.842 veículos nas estradas portuguesas todos os dias, ao passo que em 2020 esse valor foi de 21.715 veículos/dia.

No mês de Setembro, o último mês para o qual o IMT divulgou dados, a redução foi menor: em 2019, tínhamos uma média diária de 21 mil veículos; em 2020, esse valor desceu para os 18 mil.

-14,3%: Redução no valor de facturação registado entre Março e Dezembro de 2020 quando comparado com o ano anterior

A pandemia teve um grave impacto económico, com muitos negócios a serem obrigados a fechar durante os confinamentos. Os dados do INE, que se baseiam nos números do site e-fatura, mostram que, entre Março e Dezembro de 2020, a facturação das empresas caiu 14,3%.

A maior queda no volume de facturação aconteceu no Algarve (menos 27% do que no ano anterior), na Madeira (-21,6%) e na Área Metropolitana de Lisboa (-18,2%) — três regiões onde o turismo tem um forte impacto na economia local.

Por sectores, a maior quebra aconteceu no alojamento (-66,5%), nas actividades artísticas, de espectáculos, desportivas e recreativas (-50,6%) e nas actividades de restauração e similares (-42,5%).

+1,6%: Aumento do endividamento de particulares em Dezembro de 2020 quando comparado com o período homólogo

Com muitas famílias a ter de fazer face às despesas com a pandemia, o nível de endividamento dos particulares atingiu, em Dezembro de 2020, o valor mais alto desde Março de 2016. Os dados do Banco de Portugal dizem-nos que, no último mês de 2020, as famílias e instituições sem fim lucrativo ao serviço das famílias deviam aos bancos 141.356 milhões de euros. Um crescimento de 1,6% face a Dezembro de 2019.

Depois de uma descida no montante devido aos bancos no final de 2016, este montante começou a crescer a partir de Maio de 2020, meses depois do primeiro caso de covid-19 ter sido registado em Portugal.

Também as empresas têm recorrido mais ao crédito para fazer face ao impacto económico da pandemia. De acordo com os dados do Banco de Portugal, o endividamento das empresas cresceu 1,6% face a 2019 — destacando-se o sector do comércio, alojamento e restauração, que viram os níveis de endividamento crescer 8,6% e 7,4%.

-70%: Descida no número de passageiros desembarcados nos aeroportos nacionais

A quebra no sector do alojamento pode ser facilmente explicada pela redução do número de estrangeiros que visitaram o nosso país em 2020. Com muitos países a impor restrições para evitar uma maior propagação do vírus, o número de passageiros desembarcados nos aeroportos nacionais sofreu uma quebra astronómica. Em 2020, os dados do INE revelam que desembarcaram nos aeroportos portugueses cerca de 9 milhões de pessoas. No ano anterior tinham sido 29 milhões.

A maior quebra em termos relativos registou-se no número de passageiros provenientes da Ásia e Oceânia (-76%) mas, em termos absolutos, a maior redução aconteceu no número de passageiros provenientes do continente europeu: foram menos 18 milhões de passageiros a desembarcar em solo nacional provenientes da Europa.

+14,9%: Aumento do consumo de energia nos clientes domésticos entre Março e Dezembro de 2020

O teletrabalho e o dever de ficar em casa também aumentaram o peso da conta da luz no orçamento das famílias portuguesas. Os dados da Direcção-Geral da Energia e Geologia (DGEG) apontam para um aumento de 14,9% entre Março e Dezembro de 2020 no consumo de energia nas casas dos portugueses.

Este aumento não significa, no entanto, que o país tenha consumido mais energia. É que, com muitos negócios parados por causa da pandemia, o sector dos serviços viu uma redução de 18,3% na energia consumida quando comparado com o mesmo período homólogo. Na indústria, a queda foi de 5,6%.

+101,5%: Crescimento de consultas à distância nos cuidados de saúde primários em 2020

A pandemia mudou também a forma como os portugueses têm acesso aos cuidados de saúde no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Com as atenções voltadas para a covid-19 e o receio de muitos portugueses em ir aos hospitais, como se viu pela redução drástica de idas às urgências no início da pandemia, vários especialistas têm lembrado a importância de manter o contacto com quem sofre de outras doenças para evitar uma segunda “pandemia”, desta vez com todas as outras doenças que ficaram por diagnosticar.

Uma das soluções encontradas foram as consultas à distância. De acordo com os dados do Portal da Transparência do SNS, em 2020 realizaram-se 18,5 milhões de consultas não presenciais – mais do dobro do que em 2019.

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+37,8%: Valor mais elevado do crescimento do uso de internet em Portugal face ao início do ano

O teletrabalho, o ensino à distância, mas também a necessidade de passar a fazer grande parte das nossas vidas online levaram o tráfego de internet a crescer consideravelmente em 2020.

Segundo os dados da Cloudflare, uma empresa tecnológica que fornece serviços de segurança da Internet, o tráfego de internet em Portugal foi quase sempre 15% maior do que aquele que a empresa registou no arranque do ano. O maior pico aconteceu a 25 de Outubro, quando se registou mais 37,8% de tráfego online quando comparado com os valores do início do ano. O uso da Internet em território nacional segue o mesmo padrão dos restantes países analisados pela empresa: um grande crescimento de tráfego quando começou o primeiro período de confinamento, que só viu uma ligeira quebra nos meses de Verão.

O tráfego aumentou, mas o que os portugueses fazem online também mudou muito com a pandemia. De acordo com os dados facultados pela empresa ao PÚBLICO, entre o início de Fevereiro e o final de Março de 2020, sites de cartões de melhoras, com conteúdos educativos ou de entretenimento e sites para deixar de fumar foram os que viram o maior crescimento de tráfego com o início da pandemia. No pólo oposto estão os sites de casamentos, que viram um decréscimo de quase 65% de tráfego no início da pandemia.

+14%: Subida no número de vezes que as músicas mais ouvidas no Spotify foram reproduzidas

O ano de 2020 pode ter tirado aos portugueses os festivais de música ou até aqueles minutos de viagem para o trabalho que davam para ouvir um novo single. Mas o facto de poder ouvir música enquanto se trabalha sem incomodar o colega do lado parece ter compensado essas quebras. De acordo com os dados do Spotify, os portugueses parecem ter ouvido mais música em 2020 do que em 2019.

Os dados da popular plataforma de música mostram que, entre Janeiro e Novembro de 2020, as 200 músicas mais escutadas em cada um dos dias acumularam um total de 553 milhões de reproduções. No mesmo período, em 2019, esse valor andava nos 483 milhões – um crescimento de 14,6% em 2020.

Mas não foi só o número de reproduções que aumentou. Uma análise do PÚBLICO a estes dados mostrou também que, com a pandemia, os portugueses parecem ter procurado refúgio nas músicas de Natal: começaram a ouvir música desta quadra 11 dias mais cedo do que era habitual. Um padrão que, de acordo com o Spotify, se reproduziu em vários países.

-18%: Quebra no número de livros vendidos em 2020

Se os portugueses terão ouvido mais música no Spotify, a pandemia não parece ter suscitado o interesse dos portugueses na leitura – ou, pelo menos, na compra de livros. Os dados da consultora GfK apontam para uma redução na ordem dos 18% no número de livros comprados em Portugal em 2020.

Segundo os números da GfK, cedidos ao PÚBLICO, em 2020 gastaram-se 128,7 milhões de euros em livros em Portugal, menos 17% do que no ano de 2019. Ainda antes de a pandemia chegar a Portugal, o mercado estava a crescer timidamente (mais 1% em valor de vendas face ao mesmo período do ano anterior), mas o confinamento provocou uma redução de 58% em relação a 2019 no total facturado em vendas de livres. O período de desconfinamento levou a uma ligeira recuperação nestes números, que, apesar de tudo, continuam no vermelho: entre a 23.ª e a 53.ª semana do ano o mercado livreiro vendeu menos 10% do que em igual período do ano anterior.

-75,3%: Redução do número de espectadores nas salas de cinema portuguesas

A pandemia reduziu também o número de espectadores nas salas de cinema nacionais. No ano de 2020, estes espaços registaram um total de 3,69 milhões de espectadores. São menos 11,28 milhões do que aqueles que o Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) registou no ano de 2019.

A pandemia teve um claro efeito nestes números, mesmo depois do fim do primeiro confinamento. Na semana antes de se ter registado o primeiro caso de covid-19 em Portugal, as salas de cinema portuguesas tinham registado 283.228 espectadores. Quando os portugueses puderam regressar às salas de cinema (desde que cumprissem as normas de contenção do vírus, como o uso de máscara), os números nunca voltaram a aproximar-se dos valores pré-pandémicos. O máximo semanal de espectadores que se registou já durante a pandemia aconteceu na semana de 3 a 9 de Setembro, quando 109.492 bilhetes foram comprados numa semana.

Em 2021, antes do segundo confinamento geral, os números de espectadores voltaram a baixar para os níveis registados em Julho de 2020. Na primeira semana do ano foram vendidos 12.327 bilhetes e, na segunda semana, 13.399.

+3,3 valores: Subida nas notas nos exames nacionais

As mudanças impostas pela pandemia também tiveram efeitos no ensino. Com milhares de alunos a terem aulas à distância, a falta de computadores e os problemas de acesso à Internet foram visíveis. Mas, em termos quantitativos, foi nas notas dos exames nacionais que se verificaram os maiores efeitos da pandemia: subiram, mas a explicação passa pela mudança de algumas regras.

A maior subida em relação ao ano anterior aconteceu a Biologia e Geologia e a Geografia A, provas onde se registou uma subida de 3,3 valores das médias nacionais. Também Física e Química e Matemática A registaram médias bastante superiores aos anos anteriores (3,2 e 1,8 valores, respectivamente). Entre os exames nacionais realizados, a subida mais tímida aconteceu com a prova de Português, que viu a sua média crescer 0,2 valores, muito próximo daquilo que é habitual nesta prova.

Uma subida generalizada nas notas que podia ser um sinal de que, em termos de aprendizagem, a pandemia ainda não tinha tido efeitos nos resultados escolares dos alunos do secundário. No entanto, essa subida de notas é explicada pelas alterações nas regras dos exames, que autorizou, por exemplo, os alunos a não responder às matérias que não tivessem trabalhado em sala de aula por causa da suspensão das actividades presenciais entre o final do 2.º período e as primeiras semanas do 3.º período. Caso os alunos respondessem às questões opcionais, eram contabilizadas as respostas com melhor classificação.