Estados Unidos deportam criminoso nazi para a Alemanha

Emigrou para o Canadá em 1959 antes de se fixar em Oak Ridge, no Tennessee. Amigos e familiares ainda tentaram evitar na Justiça que fosse enviado para a Alemanha, mas Friedrich Karl Berger, de 95 anos, acabou mesmo deportado.

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Friedrich Karl Berger chegou a Frankfurt este sábado e foi entregue aos investigadores para interrogatório Reuters/DOJ

Friedrich Karl Berger, de 95 anos chegou este fim-de-semana à Alemanha. Não foi um regresso às origens, nem uma viagem de lazer e o antigo guarda num campo de concentração de Neuengamme, perto de Hamburgo, tinha à sua chegada no sábado as autoridades que o levaram para interrogatório. Perdida a batalha judicial, Friedrich Berger foi deportado para a Alemanha depois de se comprovar a sua participação na morte de centenas de prisioneiros durante a Segunda Guerra Mundial.

A documentação que incrimina o deportado foi encontrada num navio alemão naufragado, descoberto em 1950, cinco anos depois da queda do III Reich. O material foi analisado por historiadores do Departamento de Justiça dos Estados Unidos ao longo dos anos. Em Fevereiro de 2020, Berger admitiu que tinha trabalhado num campo em Neuengamme, perto da cidade alemã de Meppen, que abrigava principalmente prisioneiros russos, holandeses e polacos. Os prisioneiros viviam em condições “atrozes”, segundo o juiz, e foram explorados e obrigados a trabalhar no exterior durante o Inverno de 1945 “até à exaustão e à morte”. No final de Março, à medida que as forças britânicas e canadianas ganhavam terreno, os nazis abandonaram o complexo.

Berger estava encarregado de vigiar a evacuação forçada dos prisioneiros numa viagem “desumana” de duas semanas que custou 70 vidas, de acordo com a acusação. Centenas de outros prisioneiros morreram depois, quando estavam detidos em dois barcos ancorados na baía de Lübeck, no Mar Báltico, bombardeados por engano pelos britânicos.

O juiz de imigração do Tennessee emitiu a ordem de deportação no dia 28 de Fevereiro, após um julgamento de dois dias. Habitantes de Oak Ridge e amigos de Berger começaram uma batalha legal para evitar a deportação, que terminou em Novembro do ano passado, quando a ordem foi confirmada.

Ao Washington Post, Friedrich Karl Berger afirmou que tinha apenas 19 anos quando os factos ocorreram e que foi obrigado a trabalhar no campo de concentração. “Depois de 75 anos, isto é ridículo, não consigo acreditar”, reclamou, sendo a sua única declaração pública.

Berger emigrou para os Estados Unidos em 1959, assim como milhões de europeus naquela época. Berger foi primeiro para o Canadá, mas acabou por criar raízes em Oak Ridge, uma pequena cidade do Tennessee, nos Estados Unidos da América.

Em 1979, o Departamento de Justiça lançou um programa especial para detectar, investigar e deportar qualquer pessoa que tenha colaborado com as forças nazis na Segunda Guerra Mundial e, desde então, ganhou processos contra 109 indivíduos. Nos últimos 30 anos, o Departamento não parou de tentar encontrar colaboradores dos nazis e a deportação de Berger pode ser uma das últimas, senão mesmo a última.

Berger foi deportado com base numa emenda de 1978, conhecida como Emenda Holtzman ao Acto de Imigração e Nacionalidade, que proíbe qualquer cúmplice nazi de entrar ou viver nos Estados Unidos. “Neste ano, em que se celebra o 75.º aniversário das condenações de Nuremberga, este caso mostra que o passar das décadas não impedirá o Departamento de procurar fazer justiça em nome das vítimas de crimes nazis”, disse o procurador-geral Interino Monty Wilkinson.