A hipótese de recomendar o uso de duas máscaras está a ser estudada

Grupo de peritos foi novamente consultado pela Direcção-Geral da Saúde para avaliar recomendação feita nos Estados Unidos pelo Centro de Controlo e Prevenção de Doenças.

Em entrevista ao PÚBLICO, a directora-geral da Saúde fala sobre a questão da comunicação relacionada com a pandemia e do excesso de informação que pode não deixar as pessoas mais esclarecidas. Graça Freitas partilha ainda o que sentiu quando esteve infectada pelo SARS-CoV-2, confidencia que chegou a usar dois oxímetros para controlar o nível de oxigénio no sangue, e revela que a norma criada no início da pandemia, com indicações de como se proceder em caso de infecção, está a ser revista. 

O CDC (Centro de Controlo e Prevenção de Doenças) norte-americano veio agora recomendar a utilização de duas máscaras em vez de uma só. Inicialmente, a directora-geral chegou a defender que não se devia usar máscara
Não, eu nunca defendi isso. Um dia vamos ter todos que ir ouvir essa história de novo e ver como isso se tornou num mito urbano. Disse isso porque se assiste frequentemente, por estarmos com máscara, a uma aproximação demasiado grande entre as pessoas. O uso da máscara não invalida o outro critério, que é uma distância física de precaução, nem invalida lavar as mãos. Se fosse só por isso [usar máscara], muitos países já não tinham a doença.

Mas concorda com a recomendação do CDC, do uso de duas máscaras? 
Temos neste momento dois grupos de peritos a estudar essa precaução, pelo medo das novas variantes. Já andamos a consultar os peritos regularmente há muito tempo, e a última consulta, há cerca de duas semanas, foi no sentido de manter a recomendação actual. Agora, com a nova decisão do CDC, voltámos a pedir a opinião aos peritos.

Não acha que tem faltado muita clareza na transmissão das mensagens às pessoas? 
A comunicação tem sido feita por milhares de pessoas, isso é facto positivo e é um facto negativo. Depois, é evidente que não se considera [a palavra] de qualquer pessoa comparável à palavra do Presidente da República ou do primeiro-ministro. Podemos chamar-lhe comunicação política, mas é uma comunicação importantíssima para o país porque emana de pessoas que têm um poder que lhe foi dado pelo voto, pela democracia. A dos cientistas também vale e a das pessoas também terá o seu valor. O que acontece é que em todo o mundo, de um modo geral, fala-se demasiado. Como público que assiste a um dia inteiro de notícias, não sei se a pessoa está mais elucidada ou não. Ela acredita na palavra do senhor Presidente da República, no senhor primeiro-ministro, na senhora ministra da Saúde...

Não devia também acreditar na directora-geral da Saúde?
Também deve acreditar na directora-geral da Saúde e há cientistas que têm aparecido e têm tido posições extremamente coerentes. Não sempre iguais, não sempre certas, mas muitíssimo coerentes e de elevada qualidade, baseados em estudos e sobretudo baseado no que chamo a incerteza científica. Mas creio que há um excesso de comunicação sobre o tema em si. É muito monotemático. Isso não só cansa as pessoas, como leva a que no mesmo dia oiçam três ou quatro mensagens que não são concordantes.

Desistiu de dar conferências de imprensa? No momento em que país vivia a sua pior fase não teria justificado uma conferência de imprensa pelo menos duas ou três vezes por semana?
A estratégia de comunicação do país não depende da Direcção-Geral da Saúde [DGS]. Em nenhum país do mundo a estratégia de comunicação é uma coisa que é do domínio técnico, é do domínio nacional e do domínio obviamente político. Há diferentes fases. Nenhum país deixa a estratégia de comunicação ao nível do seu funcionário técnico. Essas estratégias têm de ser entendidas como desígnios nacionais.

Esteve doente com covid-19? Sabe como foi contagiada?
Sei em que dia e em que hora fui infectada, foi na DGS. Os meus contactos sociais estão reduzidos a dez, não faço mais nada do que o movimento pendular daqui para casa, e o meu marido não teve a doença. Estou convencida de que foi uma questão de ventilação, porque estávamos de máscara, a distância suficiente, pusemos álcool nas mãos. A única coisa que consigo intuir é que aquela sala estava fechada e basta ter havido uma pequena saída do vírus.

E como foi a experiência de estar doente?
Esta é uma doença que tem uma certa flutuação. Um dos sintomas que tive foram dores musculares intensas que, quando pensava que estava a melhorar, voltava a sentir. Isto dá uma insegurança, nunca sabe qual é o sentido da doença, se afinal estou a melhorar ou a piorar. Quando parecia que estava a melhorar, o sintoma reaparecia. Um dia a pessoa sente-se relativamente bem e no dia seguinte tenta sair da cama e já não está como estava… isso cria medo. Agora imagine: eu tinha oxímetros, aqueles aparelhos que medem o oxigénio [no sangue], um em cada dedo, tinha um e depois uma amiga mandou-me outro e eu, para calibrar um pelo outro, chegava a usar os dois. O certo é que sem sintomas ele baixava e, quando comecei a melhorar, começou a subir. E, sem eu sentir alguma alteração pulmonar, continuava a respirar da mesma maneira. Nunca baixou para valores perigosos, mas o certo é que houve uns dias em que estava a baixar.

Sem sinal físico que fizesse soar o alerta?
Não tinha nem falta de ar, nem dor no peito, nunca tive febre. Tive três sintomas mais aborrecidos, as dores musculares, com a tal oscilação que não dava tranquilidade, tosse já quase quando estava a ter alta, e, nalguns dias, astenia, aquela sensação de fraqueza ao ponto de não se querer fazer nada, não ter força, não ter vontade, a sensação de que o corpo pede cama, descanso. Esta incerteza… fica-se com mais respeito [pelo vírus]. 

O facto de ser médica agrava essa percepção? 
Agrava. A gente sabe que pode haver aquela mudança, um agravamento entre o sétimo e o décimo dia. Foi a partir daí que comecei a usar dois oxímetros.

Isso significa que as pessoas devem ter um oxímetro em casa?
Se calhar sim, se o souberem usar. Estamos a rever a norma do que as pessoas devem fazer em casa. Se calhar com o que se sabe hoje… A norma está a ser revista, é do início da pandemia. Mas temos de perguntar se [o oxímetro] é útil e [se serão necessárias] instruções, para saber como se põe, como deve ser feito.

Se pudesse entrar numa máquina de tempo, o que é que tinha feito diferente? 
Se calhar logo no primeiro dia tinha explicado bem essa questão das máscaras para não ser citada tantas vezes, até à eternidade. E é interessante a história do milhão de infectados [que no início da pandemia disse ser um cenário provável]. Era apenas um cenário. Se calhar podia ter dito isso de outra maneira. Também quando disse, no início, que este vírus não chegaria cá, era o que estava dito em todos os papers do mundo, o que a OMS dizia, o ECDC [Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças] e o CDC diziam.