Agustina “não é difícil de ler”, mas é mais fácil de se ouvir

Agustina À Boca de Cena é o novo podcast da Casa Comum, o espaço cultural da Reitoria da Universidade do Porto. Pela voz da filha de Agustina Bessa-Luís, Mónica Baldaque, chegam-nos as palavras de Agustina, agora imortalizadas em áudio.

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Adriano Miranda

Mónica Baldaque, filha de Agustina Bessa-Luís, nunca tinha ousado pensar em fazer uma representação sonora dos textos da mãe como esta que nos traz agora através da Casa Comum, o espaço cultural da Reitoria da Universidade do Porto. É a própria quem dá voz à memória de Agustina, que faleceu em 2019, presente em cada excerto declamado no podcast Agustina À Boca de Cena. A homenagem não só permite que aqueles que a admiravam possam reencontrá-la, como convida as novas gerações a mergulharem no imaginário da escritora.

Os episódios serão recheados, na sua maioria, por excertos da autoria de Agustina que, sendo romances, “não são autobiográficos” por já estarem transformados, embora possam conter traços verdadeiros, avisa a pintora. Já as cartas que Agustina escrevia têm uma autenticidade incomparável, mas essas não revelará neste podcast por respeito à vontade da mãe. “São material demasiado íntimo para estar a banalizar”, afirma, recordando que Agustina via as memórias como “uma propriedade privada, e os seus recantos obscuros, os seus convívios, os seus laços, são domínios que nunca o leitor irá alcançar”.

Já havia tentado há uns anos transpor conversas sobre Agustina para a dimensão radiofónica, mas nunca foi bem-sucedida. Numa das reuniões da direcção do Círculo Literário Agustina Bessa-Luís, da qual a vice-reitora da Universidade do Porto, Fátima Vieira, faz parte, discutia-se como levar Agustina aos jovens — que “é sempre um problema, não sei se um falso problema”, reconhece Mónica Baldaque. Foi então que, ouvindo a vice-reitora anunciar o início dos podcasts da Reitoria, agarrou a oportunidade de tornar este projecto “visível e audível”. Com dois episódios publicados, mostra-se entusiasmada com a resposta positiva dos ouvintes.

Mónica Baldaque acredita que se capta melhor uma ideia ao ouvi-la, do que a lê-la. A leitura “já obriga ao treino”, para se resistir às distracções que assombram. “Acho que é uma maneira mais leve, mais directa, de fazer entrar a geração mais jovem na linguagem de Agustina”, acredita, criticando que se caracterize a sua obra como difícil de ler quando, na verdade, é apenas “difícil de seguir”, sem preparação para tal. “As pessoas já não têm determinadas obrigações de leitura nem de reflexão, e depois deparam-se com um texto de Agustina que as obriga à atenção e à reflexão, e a uma cultura que não têm”, justifica.

A pintora repara, ainda, que, em relação à transposição de Agustina para o cinema, “a gente mais nova é capaz de ver o filme 500 vezes e nunca ter lido o romance”. Como tal, acredita que a palavra ouvida, mesmo no cinema, facilita o caminho da autora até aos jovens. “E depois, daí, não direi que toda gente que ouve lê, mas [mesmo que] seja uma pessoa em 100 que vá ler os livros já é muito bom.” O que prova que Agustina é muito mais do que uma escritora, e a sua obra é muito mais do que literatura. Na verdade, para a filha, o único cognome atribuível à mãe seria “a educadora”, porque “não há uma página em que não transmita um princípio educativo fundamental, e é isso que a faz ser eterna  a sua palavra e a sua mensagem”.

Escolher os textos não é tarefa fácil, “há muita coisa”, admite. A maioria são pequenos pensamentos e notas que Agustina foi deixando em agendas ou nas margens dos seus manuscritos, ou até dos romances. “São pensamentos avulso”, que a ex-directora do Museu Nacional Soares dos Reis enquadra no início de cada rubrica. Contudo, há também textos da autora que nunca foram publicados, ou mesmo que já foram esquecidos com a erosão do tempo. “São praticamente inéditos porque já ninguém se lembra deles e ainda não foram reeditados”, acrescenta. Além disso, podem esperar-se ainda recortes de entrevistas da autora que “constituem qualquer coisa até de actual, em relação a assuntos que neste momento estão presentes na nossa sociedade”.

No entanto, desengane-se quem espera ouvi-lo pela voz da própria escritora. “Só através de mim”, garante, entre risos. Acontece que os textos em que Agustina Bessa-Luís está presente com a sua própria voz são entrevistas que pertencem à televisão. “Isso é todo um outro processo [de direitos de autor] que teria de ser desenvolvido e eu não sei se cabe aqui neste projecto”, explica a filha da autora. Há, no entanto, algo que está a ser equacionado, fora do domínio das televisões: “a leitura de um conto por Agustina”. “Realmente, era interessante ouvir a própria voz da Agustina e a sua maneira tão particular de falar e de expor, e de troçar, inclusivamente, com as coisas ditas sérias”, ri-se. 

podcast segue uma certa linha orientadora. O primeiro texto foi a crónica A Viagem de Trezentos Passos, “que era o passeio que ela dava quase diariamente na zona da [Praça] Carlos Alberto e [Praça] dos Leões”. Agustina escreve sobre o encontro e a conversa com um pobre e uma mulher que vendia violetas. A acção desenrola-se junto da fonte dos Leões, na Praça de Gomes Teixeira, em frente à Reitoria, e, portanto, Mónica considerou que seria o texto perfeito para simbolizar o nascimento do projecto. “Além do texto ser lindíssimo e lembrar todo um ambiente da Baixa da cidade que desapareceu completamente, e para sempre”, é ali que é gravado o podcast.

Assim, pelas palavras de Agustina, e a voz de Mónica Baldaque, a passagem lida revela-se um apelo à memória colectiva das pessoas que o ouvem. “Várias pessoas que ouviram disseram que até se lembravam do nome dele, e quem ele era  esse pobre que vendia pentes”, conta, ressalvando que hoje em dia tal “já é romanesco”. 

O segundo episódio aborda o livro biográfico que Mónica escreveu sobre a autora, Sapatos de Corda - Agustina. “É uma espécie de um texto sobre a memória”, reflecte. Depois, seguem-se excertos sobre um conto esquecido: “A Agustina sempre gostou muito de todo esse imaginário fantasmagórico e fantástico e há um conto belíssimo que eu acho que já ninguém conhece, até porque a própria edição já está esgotada há séculos.” 

Será também apresentada uma passagem do livro Doidos e Amantes, à luz da sua reedição, que conta “uma história verdadeira que se passou em Lisboa, e acabou aqui no Porto”. “É um livro muito especial em toda a obra de Agustina porque, embora tenha tido uma profundíssima investigação — ajudada muito pelo marido, Alberto Luís, o meu pai , tem aspectos perfeitamente engraçados e que fazem rir até”, sublinha.

Por fim, outra grande ambição é conseguir a colaboração do Teatro Universitário do Porto, uma ideia que a pandemia atrasou e portanto, por agora, só se escuta uma voz nas leituras. Mas “virá a acontecer”, garante, até para se ouvirem várias vozes em simultâneo a encorpar as histórias através das quais a escritora ainda vive.