O sufoco

O pior parece ter passado e necessitamos de sair deste sufoco com brevidade. Tenhamos a noção que as recrudescências da pandemia dependem tanto ou mais do nosso comportamento que das vicissitudes do vírus.

O crescimento avassalador de doentes covid em cuidados intensivos (UCI) foi travado a 6 de fevereiro. Quando se receava que dos 904 casos registados na véspera se avançasse para os mil, apontado como valor limite da capacidade hospitalar em camas UCI, os casos mais graves começaram gradualmente a regredir. É, assim, dada alguma trégua ao trabalho hercúleo dos profissionais que naquelas unidades procuram, dia após dia, resgatar os doentes covid de um desfecho inexorável.

O apertar das medidas de confinamento revelou-se providencial na redução semanal do número de novos casos, evitando que fosse atingido o número limite em UCI. Tal não impediu, porem, a tragédia de nos aproximarmos dos países europeus com maior mortalidade covid por 100 mil habitantes, nem evitou o sofrimento físico e psicológico dos doentes transferidos entre unidades hospitalares, por vezes distantes da área de residência.

Especialistas em lidar com situações “resvés Campo de Ourique”, desta vez houve que recorrer à ajuda externa face à iminência de uma rotura assistencial grave. Sendo certo que não fomos o único nem o primeiro país a fazê-lo, fomos provavelmente aquele que gerou mais manifestações de solidariedade e causou maior dramatismo na União Europeia, face à nossa situação periférica.

As ofertas de apoio vieram de muitos lados. A todas as nações que se solidarizaram connosco temos de estar agradecidos. Está, porém, por explicar porque priorizámos o apoio da Alemanha via militar, fazendo deslocar profissionais de saúde para parcas instalações de um hospital privado, à possibilidade de aceitar a colaboração entre serviços de saúde vizinhos face à pronta disponibilidade manifestada por Espanha.

Estamos lembrados da situação de rotura assistencial ao nível da maternidade de Portalegre que levou ao estabelecimento de um protocolo de colaboração com a maternidade de Badajoz, que julgo manter-se em vigor. Por que não procedemos agora de forma idêntica, dando prioridade a medidas de proximidade, à semelhança do sucedido nos países da Europa central? Por que se deu preferência a uma solução espúria em vez de um pedido de ajuda sanitária previsto nos mecanismos de apoio da União Europeia? 

Os serviços nacionais de saúde têm problemas e limitações que obrigam a um repensar permanente da sua estrutura, funcionalidade e sustentabilidade financeira, têm porem a enorme virtude de prestar cuidados de saúde sem cuidar de saber do peso da carteira do utente no momento da prestação. 

O pior parece ter passado, necessitamos de sair deste sufoco com brevidade, abrindo a economia e retomando o ensino presencial, cumprindo com mais rigor medidas que a vacinação anti covid não dispensa: o uso obrigatório de máscara, as regras de higiene e de distanciamento físico e a restrição de contactos sociais. Tenhamos a noção que as recrudescências da pandemia dependem tanto ou mais do nosso comportamento que das vicissitudes do vírus.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico