Portugal pondera se vai autorizar vacina da AstraZeneca para pessoas mais velhas

Vários países europeus recusaram imunizar pessoas acima de 65 anos com esta vacina, por falta de dados para este grupo etário. Mas há argumentos para dizer que há informação suficiente para a poder administrar. As primeiras doses chegam para a semana.

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O Reino Unido está a imunizar idosos com a vacina da AstraZeneca, mas vários países europeus alegam falta de dados para a autorizarem para os mais velhos Reuters/CARL RECINE

Vários países europeus recusaram recomendar a vacina contra a covid-19 da AstraZeneca a pessoas com mais de 65 anos, apesar de a Agência Europeia do Medicamento (EMA) não ter imposto limites de idade. A Comissão Técnica de Vacinação da Direcção Geral de Saúde está a avaliar a questão, e espera-se para breve um parecer, apurou o PÚBLICO junto do Infarmed, a autoridade nacional para o medicamento. A decisão não pode tardar, porque as primeiras 113 mil doses desta vacina são esperadas na terça-feira, 9 de Fevereiro.

A Suíça recusou aprovar a vacina da AstraZeneca para qualquer idade. Espanha, França, Alemanha, Polónia, Áustria, Suécia, Itália e Países Baixos consideraram que não há provas de que a vacina – da qual a União Europeia encomendou 400 milhões de doses, mas que a farmacêutica está a ter problemas para satisfazer as encomendas – seja eficaz nas pessoas acima de 65 anos. E por isso não vão administrá-la a maiores de 65 anos. Abrem assim as portas a uma diferenciação entre grupos populacionais.

Jorge Soares, presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, considera que faria sentido Portugal acompanhar as decisões tomadas noutros países europeus. “Faz todo o sentido que acompanhemos. Se o número de pessoas que entraram nos ensaios clínicos com mais de 65 anos não demonstrou um benefício tão significativo quanto os outros grupos etários, talvez faça sentido utilizá-la só nos grupos etários inferiores”, afirmou.

Mas o epidemiologista Manuel Carmo Gomes, da Faculdade de Ciências de Lisboa e membro da Comissão Técnica de Vacinação, diz não compreender estas decisões do ponto de vista científico. “Não me parece nada óbvio que essa recomendação seja baseada em evidência científica”, afirma. Os dados relativos à concentração de anticorpos no sangue – a resposta imunogénica – obtidos nos ensaios clínicos de fase 2 sugerem que a vacina se comportará de forma idêntica nos idosos. “A resposta imunogénica sugere que a vacina da AstraZeneca deve proteger as pessoas mais velhas, e não o contrário”, afirma.

“Ou há uma má vontade de alguns países contra a AstraZeneca ou então também não percebo porque é que vacinam idosos acima de 80 anos com vacinas de ARN-mensageiro (ARNm)”, como as da Moderna e da Pfizer-BionTech, elabora Manuel Carmo Gomes. “Também não existe evidência nos ensaios clínicos de que tenham uma efectividade vacinal neste grupo”, sublinha.

Sem certeza estatística

A vacina da AstraZeneca usa uma tecnologia diferente; o gene da proteína da espícula, que o SARS-CoV-2 tem à superfície, é inserido num adenovírus desactivado, para não fazer mal, em vez de ser no ARNm, como as vacinas concorrentes. “Mas na realidade, em todas as vacinas, não há uma garantia com certeza estatística de que será eficaz em todas as faixas etárias”, explica por sua vez Miguel Castanho, do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

“O número de pessoas que entra num ensaio clínico é muito grande. Mas o número das que adoecem é relativamente pequeno, é fruto do acaso. E esse número é dividido pelas várias faixas etárias, o que dá pouquíssimas em cada idade. Assim, deixa de ser possível dizer, com certeza estatística, para cada idade, se a estratégia é boa ou não”, exemplifica.

Quanto ouvimos falar nas taxas de eficácia de 95%, ou mais recentemente, para a vacina russa Sputnik V, de 91,6%, são valores médios para todas as faixas etárias, diz Miguel Castanho. “Isto não é, do ponto de vista prático, nada muito real, muito palpável; é só dizer que em todas as idades do ensaio clínico houve uma redução de casos, se compararmos os números do grupo de controlo. Mas não há aqui uma robustez estatística”, explica.

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Vacinas da AstraZeneca Lee Smith/REUTERS

“Uma das grandes interrogações neste momento é se de facto as vacinas vão ter esta eficácia muito elevada também nos mais velhos, até porque é mais fácil estimular o sistema imunitário de um jovem. Mas isto é válido para a vacina de Oxford e para qualquer uma das outras”, frisa Miguel Castanho, que também diz não ver motivo para a discriminar face às restantes.

Correr ou escolher

Quer isto dizer que não se justifica fazer uma diferenciação entre grupos da população – reservar as vacinas da AstraZeneca para os mais jovens, e outras para os mais velhos, por exemplo?

Miguel Castanho acha que se justifica fazer a diferenciação, embora a divisão possa fazer-se com base noutros factores. “Acho que isso devia ter sido planeado desde o princípio”, diz. “Até teria gostado de ver um plano de vacinação construído mais à base da melhor vacina e da razoabilidade da sua aplicação do que de uma corrida para ver quem é que chega primeiro, e o primeiro leva o que quer que seja”, afirma.

“Por exemplo, com a vacina russa, não é escondido, quase toda a gente que entrou nos ensaios clínicos é caucasiana. As vacinas foram testadas para populações que não foram iguais e não deram resultados absolutamente iguais entre si. Portanto, as vacinas também não são todas iguais, esperar-se-ia que algumas sejam mais adequadas a algumas pessoas que outras”, explica.

“Eu acharia absolutamente natural que houvesse algum critério. Só se entende o que está a ser feito, que é as pessoas estarem numa fila de espera, as vacinas vão chegando e qualquer um toma qualquer vacina, pela necessidade de fazer tudo muito rápido”, explica Miguel Castanho.

De primeira e de segunda, não

Manuel Carmo Gomes acha a possibilidade de discriminar entre vacinas uma péssima ideia. “As pessoas podem começar a achar, erradamente, que há vacinas de primeira e vacinas de segunda”, afirmou. “Não sei é da natureza humana, mas andam para aí todo o tipo de teorias da conspiração a circular.”

Na sua opinião, a utilização de vacinas diferentes para diferentes grupos da população só se deveria basear em critérios logísticos, “dentro do espírito de vacinar o maior número de pessoas possível, o mais rapidamente possível”, diz. Porque essa deve ser a prioridade: “Devíamos tentar cobrir todas as pessoas que estão na primeira fase do programa de vacinação o mais depressa possível. E precisamos de todas as vacinas que temos”, disse.

Por isso defende o alargamento do prazo entre doses – uma posição suportada pela pré-publicação online na Lancet de um estudo sobre a vacina da AstraZeneca, esta semana, que mostra que se torna mais eficaz se o prazo entre doses for alargado para 12 semanas. “Há muitas vacinas que podem e devem ser administradas com um intervalo de 12 semanas. Isso é que é o habitual. O que não é habitual é que a primeira e a segunda dose sejam dadas com 21 ou 28 dias de intervalo”, diz.

“A única razão porque as companhias fizeram os ensaios com esse período entre as doses foi porque estamos no meio de uma pandemia terrível e precisavam absolutamente de acelerar os ensaios. Mas isso não é o normal”, defende.

Mas à medida que vai havendo mais vacinas disponíveis – a da Janssen, tomada numa única dose, pode ser aprovada até Março pela EMA –, diz ainda Miguel Castanho, poderia haver condições para adaptar o plano de vacinação. “Para algo mais racional, em vez de ser só baseado na pressa, porque no final o que vai contar não é como começou o plano de vacinação. O que conta é como acaba.”