Ursula von der Leyen: “Temos pela frente uma maratona. É preciso controlar os nervos”

A Presidente da Comissão Europeia diz que a UE escolheu bem ao traçar o seu plano para as vacinas. “Todos os produtores que ficaram à frente nessa corrida estão no nosso portfólio”. E afirma que, enquanto médica, o que mais a preocupa “é encontrar uma resposta para o fenómeno das novas variantes”.

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Ursula von der Leyen Reuters

A presidente da Comissão Europeia passou os últimos dias a rever as encomendas de vacinas contra a covid-19 feitas pela União Europeia e a discutir com os CEO das empresas farmacêuticas o que se pode fazer para preparar já uma segunda geração de vacinas que responda a novas variantes do vírus. Numa longa entrevista com oito diários europeus, entre os quais o PÚBLICO, Ursula von der Leyen reconheceu que a gestão da crise pandémica não está isenta de erros, mas defendeu a estratégia seguida pelo executivo comunitário como “a mais correcta” e apelou à calma. “Esta é uma maratona que ainda agora começou. Vamos precisar de guardar a nossa energia, de respirar fundo e de controlar os nervos para o sprint final”.

No dia em que arrancou a vacinação contra a covid-19, falou numa história de sucesso da Europa. Um mês depois, está sob pressão, a defender-se de ataques e críticas à estratégia seguida pelos 27. O que é que correu mal para em tão curto espaço de tempo termos passado do sucesso ao fracasso?
Há sempre altos e baixos em tempos de crise, que pela sua natureza são períodos muito difíceis. Recordo que no início da pandemia, foi preciso algum tempo para a Comissão, sem quaisquer competências na área da saúde, convencer os Estados membros a seguir uma estratégia colectiva. No Verão havia 160 instituições diferentes que estavam a tentar desenvolver uma vacina, e tivemos de ser criteriosos a escolher com quem queríamos negociar. Olhando para trás, penso que escolhemos bem: todos os produtores que ficaram à frente nessa corrida estão no nosso portfólio. Agora ainda estamos no início da produção em massa e no arranque de campanha de vacinação que é incomparável com qualquer outra que tenha sido feita. Neste primeiro mês foram distribuídas 18 milhões de doses. Em Fevereiro serão entregues 33 milhões de doses, e em Março 55 milhões de doses. No segundo trimestre vão chegar muito mais doses. Isto mostra que estamos no caminho certo. Compreendo que aconteçam alguns problemas do lado da produção, mas a tendência vai na direcção certa.

A AstraZeneca disse que problemas na produção a impediam de fornecer à UE as doses que foram contratadas no Verão. A Comissão esperava receber cerca de 100 milhões de doses no primeiro trimestre e afinal só terá 40 milhões. É aceitável que uma companhia falhe desta forma com o seu compromisso? 
A AstraZeneca tem obrigações que tem de cumprir e a nossa expectativa é que as cumpra. É verdade que nós estávamos à espera que a empresa nos entregasse muito mais doses, e que tivemos conhecimento em cima da hora de atrasos e reduções nas entregas, sem que tivesse sido apresentada uma explicação plausível dos motivos para isso. Estamos agora em conversações com a empresa para resolver o problema, e esperamos que eles expliquem como pretendem compensar esta falha e apresentem um plano para isso. Mas penso que já passamos o pior, e um sinal positivo é que a AstraZeneca já mostrou formas de ultrapassar esta situação, de melhorar e acelerar a entrega. A boa notícia é que já vai começar a distribuir doses no dia 7 de Fevereiro, com 3,2 milhões de doses. Em Fevereiro teremos cerca de 17 milhões de doses, depois em Março 23 milhões de doses. Para nós é importante que nos garanta que entrega mais doses em Fevereiro e Março. Esses são os meses onde se prevêem dificuldades [no abastecimento da UE]. Em Abril esperamos que os números de doses disponíveis comecem a subir, até porque nessa altura também já devemos ter a vacina da Johnson&Johnson.

Antes de falar de outras empresas, podemos esclarecer se a AztraZeneca se comprometeu a cumprir o contrato, por exemplo a recorrer à capacidade das unidades do Reino Unido para abastecer a UE? 
A AstraZeneca é livre de recorrer a qualquer uma das unidades identificadas no contrato. A empresa é que tem de decidir como se organiza para responder às obrigações contratuais que têm com os seus clientes, nós não temos nada com isso. A única coisa que queremos é ter explicações plausíveis quando estão em causa quebras nas encomendas que nós fizemos e que não estão sujeitas a nenhuma pré-condição. O que deixamos muito claro foi que esperamos transparência, que foi o que tentámos estabelecer através do novo mecanismo de autorização de exportações de vacinas, que nos permite saber o que foi produzido e o que foi exportado e se está em causa o stock que a UE reservou nos seus contratos. Com esse retrato completo podemos discutir com as empresas à volta de factos, e não de rumores. Nós queremos as vacinas, esse é o nosso objectivo. Sabemos que o panorama que temos pela frente é de uma maratona. Ainda nem fizemos o primeiro sprint. Por isso vamos precisar de guardar energia, de respirar fundo e de controlar os nervos.

Quando rebentou este conflito com a Comissão, o CEO da AstraZeneca disse que toda a gente estava muito nervosa. Acha que isso explica as críticas que os Estados membros dirigiram à Comissão? Isto é só um problema de gestão de expectativas, ou sente algum descontentamento ou falta de confiança na estratégia seguida?
É totalmente compreensível que as pessoas queiram as vacinas já, que haja expectativas e que haja pressão. Aceito isso absolutamente. Esta crise pandémica já dura dez meses. É um stress incrível para todos: os indivíduos e as sociedades. Nós próprios estamos sob imensa pressão. E por isso compreendo que haja alguma fúria. Mas penso que a médio e longo prazo temos de nos manter firmes. Estou profundamente convencida que a nossa estratégia de vacinação, com este portfólio de empresas, com estes contratos de aquisição antecipada, com estes níveis de investimento, foi a mais correcta.
Os Estados membros foram integrados e incluídos no processo desde o primeiro dia. Há transparência e confiança total. Todos nós sabemos que só ultrapassaremos esta crise se permanecermos unidos. Eu sei que posso confiar nos Estados membros e eu acredito mesmo que nós vamos ultrapassar a crise juntos. Penso que foi importante a Comissão fazer entender às empresas que espera que os contratos sejam cumpridos, porque precisamos de trabalhar com calendários previsíveis. Devemos aceitar que haja problemas no arranque da produção em massa, pequenos problemas com a cadeia de abastecimento. Mas podemos ter confiança que as doses da vacina de que estamos à espera vão chegar.

Os problemas no arranque da campanha não comprometem a meta de ter 70% da população adulta vacinada até ao fim do Verão?
Não. Essa é a nossa meta e estou convencida que seremos capazes de a alcançar.

Uma das críticas que se ouviu nos últimos dias foi que nas negociações a Comissão esteve demasiado focada em poupar dinheiro aos Estados membros, e que por causa disso ficou para trás na corrida. Foi assim?
Os números contam uma história muito diferente. Investimos cerca de 2,7 mil milhões de euros em contratos de compra antecipada que foram um pré-financiamento das empresas para elas aumentarem as suas capacidades. Este dinheiro não foi para pagar as doses de vacinas, foi apenas um investimento nas empresas, para eles poderem começar a produzir antes de obter a autorização da vacina e assim estarem em condições de entregar as doses. O pagamento das doses depois é feito pelos Estados membros, em função da quota que cada um reservou.
A diferença nas nossas negociações em relação a outros foi que nós decidimos, com o consentimento total de todos os Estados membros, que nos nossos contratos de vacinas a segurança era um critério tão importante como a eficácia. Nunca quisemos arrepiar caminho no escrutínio e análise de dados do processo de aprovação. Houve outros que concederam uma autorização de emergência em 24 horas, mas penso que completar o processo todo, que demorou três a quatro semanas, foi a melhor decisão. É verdade que por causa disso começamos mais tarde. Mas vacinar é injectar uma substância biológica activa num indivíduo saudável. É uma enorme responsabilidade.

Mas tratando-se de uma crise e de uma situação de emergência, não seria de esperar uma acção mais agressiva e determinada da UE, que acabou por ficar em desvantagem na corrida pelas vacinas?
A negociação dos contratos não foi uma limitação. O que explica o atraso foi o facto de nós não aceitarmos atalhos no processo de aprovação. As farmacêuticas procederam aos ensaios clínicos a uma velocidade impressionante, e em paralelo deram os dados à Agência Europeia do Medicamento, que por boa razão é uma agência independente, e os aprovou. Vejamos o que aconteceu em concreto. No caso da BioNTech, assim que obtiveram a autorização começaram a distribuir vacinas. O mesmo aconteceu com a Moderna. Tivemos um conflito com uma terceira empresa, a AstraZeneca, que quando o processo de aprovação terminou, não tinha vacinas para nos entregar.

Este domingo esteve em discussões com os CEO das empresas farmacêuticas para aumentar a produção?
Discutimos várias coisas. Começámos por observar que já temos várias variantes do vírus, mas a indicação, até agora, é que as vacinas de que dispomos são eficientes para estas variantes. Porém, temos que acelerar os nossos preparativos para o caso de aparecerem outras variantes que possam colocar problemas às vacinas. Começamos a pensar o que devemos fazer: melhorar a partilha de dados relativos à sequenciação do vírus, para perceber como ele muda, e investir em pesquisa para adaptar a vacina às mudanças do vírus. Precisamos de uma coordenação constante com a EMA, para que durante esse trabalho de ajustamento para uma segunda geração da vacina possamos ter os dados suficientes para o processo de licenciamento ser mais rápido. Em paralelo, estivemos a ver como podemos aumentar a capacidade de produção, em toda a Europa. Foi uma sessão muito construtiva.

Na semana passada houve anúncios de cooperação da Sanofi e Novartis na produção da vacina da Pfizer. Pode a Comissão fazer alguma coisa para promover este tipo de acordos?
Só posso saudar as empresas que estão dispostas a trabalhar juntas. A Curevac também se juntou à Bayer. É muito positivo. Sabemos que produzir vacinas é extremamente complicado e devemos procurar na Europa onde existem unidades que podem ser usadas para fazer parte deste processo de produção. Devemos explorar todas as opções disponíveis, para dentro de um ano, por exemplo, termos uma estrutura montada à qual podemos sempre recorrer se for necessário.

Como médica, o que a preocupa mais neste momento: a rapidez do contágio com as novas variantes ou a lentidão do processo de vacinação?
Como médica, ainda estou abismada com a rapidez com que foi possível desenvolver e produzir uma vacina. O que a ciência conseguiu fazer em dez meses foi fenomenal, milagroso mesmo. O nosso inimigo é o vírus, e o desenvolvimento da vacina é parte da solução. Mas estou realmente preocupada com a ocorrência destas variantes. Sabemos que vamos ter de nos adaptar, e estou confiante que as novas plataformas com mRNA serão ágeis para responder às variantes. Mas o que mais me preocupa é encontrar uma resposta rápida para este fenómeno.

Já nos disse que acha que a UE seguiu a estratégia correcta, mas não falou em erros. Foi tudo bem feito até aqui, não tem nenhuma lição a retirar da gestão da crise?
Estamos há dez meses numa montanha russa e estamos a aprender constantemente. Mas o que posso dizer é que à medida que esta crise se prolonga mais fico convencida que a nossa abordagem foi a mais correcta. Não estaríamos aqui hoje, com três vacinas no mercado e duas a caminho, se não tivéssemos mantido a nossa unidade. No trabalho diário há sempre erros, claro. Temos de estar disponíveis para reconhecê-los e aprender com eles, e imediatamente responder e melhorar. Vamos sempre ter sucessos e derrotas, mas o importante é manter sempre em vista o que é essencial. Para mim, o essencial é a unidade da União Europeia e avançar em conjunto com os Estados membros para ultrapassar este momento difícil.

Em relação a erros, sente que esse foi o caso quando a Comissão decidiu invocar o regulamento 16 do protocolo da Irlanda no âmbito do mecanismo de autorização de exportações?
Tenho consciência da enorme sensibilidade da questão da fronteira na Irlanda, e estou aliviada e grata por termos conseguido encontrar uma boa solução para esse problema, com o apoio do Taoiseach. Os procedimentos normais de adopção demoram o seu tempo, a UE foi muitas vezes criticada por ser demasiado lenta. Num ano de crise tivemos de tomar quase 900 decisões de emergência. Tivemos de agir com muita rapidez. E quando é assim existe sempre o risco de perder algo de vista. Estou satisfeita por ter sido possível obter uma solução que merece a confiança da Irlanda.

Sente que a avalanche de críticas na semana passada afectou a sua credibilidade?
Vamos esperar pelo fim do mandato para avaliar quais foram os sucessos e quais foram os erros. Penso que nessa altura saberemos melhor.