Protestos contra restrição do aborto na Polónia levam a mais detenções

Foram presas 20 pessoas em três noites de manifestações contra a entrada em vigor da proibição da interrupção voluntária da gravidez em caso de malformações graves do feto. Manifestantes querem transformar o protesto numa “tradição”.

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Manifestção em Varsóvia ALEKSANDRA SZMIGIEL/Reuters

Pelo menos seis pessoas foram detidas sexta-feira em Varsóvia na terceira noite de protestos contra a reforma da lei do aborto, que proíbe a interrupção voluntária da gravidez em quase todas as circunstâncias. Ao todo, as autoridades já prenderam 20 pessoas nestes protestos que começaram logo na quarta-feira, quando entrou em vigor a decisão do Tribunal Constitucional de impedir o aborto em casos de malformação fetais graves.

Além da capital, houve manifestações em Gdansk, Cracóvia, Breslávia e Katowice, além de várias outras cidades mais pequenas. A onda de indignação contra a alteração legislativa que torna quase impossível o aborto, num país que se mantém profundamente católico e é governado por um partido ultraconservador (Lei e Justiça, PiS na sigla em polaco), já se vinha fazendo sentir desde o final de Outubro, altura da decisão do Tribunal Constitucional.

Entre os 14 detidos na quinta-feira à noite está Klementyna Suchanow, autora e activista que é uma das líderes do movimento polaco Greve das Mulheres, que tem estado na linha da frente das manifestações e que nos últimos anos tem organizado protestos em massa contra as leis restritivas do aborto na Polónia.

Em Varsóvia, o protesto começou na rotunda Dmowski, rebaptizada como rotunda dos Direitos das Mulheres. Munidas e munidos de panos verdes com o símbolo da Greve das Mulheres e palavras de ordem, “Aborto seguro, legal e gratuito”, os manifestantes tiveram de marchar por caminhos alternativos depois de a polícia ter bloqueado várias artérias da capital e, a determinada altura, ter tentado mesmo travar o protesto.

“Temo o que podem fazer-nos retroceder ainda mais e endurecer a lei”, disse Martyna, uma das manifestantes, ao diário polaco Gazeta Wyborcza, citado pela Europa Press. Joanna, uma livreira reformada, afirmava que estava na manifestação porque “não pode ser que um homem decida sobre os corpos das minhas filhas e netas”.

Depois de mandar os manifestantes para casa sem sucesso e com o protesto a provocar engarrafamentos e alterações de percurso dos transportes públicos, a polícia decidiu travar o passo do protesto de forma mais dura, com gás lacrimogéneo, por alturas da rua Marsalkowsla, nas imediações do Palácio da Cultura e da Ciência, onde a polícia começou por parar um dos automóveis dos manifestantes e deter o condutor.

Gerou-se um momento de tensão, em que uma criança teve de receber assistência numa ambulância, afectada pelo gás lacrimogéneo.

“Reagiram decididamente perante actos de agressão contra os agentes”, afirmou a polícia de Varsóvia num Twitter, garantindo que os agentes apenas reagiram aos ataques com gás dos manifestantes, que obrigaram dois polícias a receber assistência médica.

Parte dos manifestantes conseguiu ludibriar a acção da polícia e chegar até à zona onde mora o líder do PiS e poder na sombra na Polónia, Jaroslaw Kaczynski, para gritar “liberdade e igualdade”, por entre música e dança.

Os manifestantes só desmobilizaram passada a meia-noite na Polónia, não antes de outra das líderes da Greve das Mulheres, Marta Lempart, ter apelado aos presentes para que se voltem a juntar para um novo protesto na próxima sexta-feira e que transformem as manifestações numa “tradição”.