Da responsabilidade dos média

A evolução da pandemia como da vida política põem seriamente em questão a qualidade do jornalismo de que dispomos…

Os jornalistas formam um meio profissional singular. E uma das caraterísticas do meio é sentir-se autorizado a falar de tudo e todos (felizmente) e a criticar tudo e todos (embora desprovido por vezes de pertinência). Outra, é detestar que haja quem, no exterior, se permita falar do jornalismo praticado e ouse criticá-lo. E, como são os jornalistas que fazem os média, a crítica tem pouco acesso a estes. Acrescente-se o facto de “a classe” gostar pouco que exercícios internos de crítica sejam levados ao conhecimento de leitores, ouvintes ou espectadores. Porém, nos dias de horror que vivemos, há razões sobejas para nos interrogarmos sobre o jornalismo em matéria de pandemia e de eleições.

Quando a covid-19 atacou Portugal, diversas agremiações e personagens do mundo médico-sanitário tomaram de assalto os média. Assalto tanto mais facilitado que se pratica cada vez mais nas redações um jornalismo sentado, de computador e telemóvel, longe do “terreno” e da vida quotidiana dos cidadãos. Uma prática largamente reforçada pelo confinamento e as “videochamadas”, e ainda pelo facto de que, contrariamente ao que acontece noutros média europeus, as redações portuguesas, que se saiba, não contam com médicos-jornalistas.

Ora, nada mais fácil do que estender um micro e uma câmara (de preferência em “direto”) a um titular ou representante de agremiação: presidente de conselho de administração de hospital, diretor clínico, chefe de serviço, enfermeiro chefe e demais gente de ordens, associações profissionais e sindicatos, presidentes e diretores de lares, presidentes de câmaras e chefes de bombeiros… Passámos assim a ser informados algumas vezes com rigor e serenidade. Mas a maior parte das vezes fomos massacrados por personagens sem escrúpulos, preocupados com promoção pessoal, corporativa ou partidária. Ou por instituições dotadas de assessorias que instrumentalizam os média e põem em valor quem lhes paga. E isto perante jornalistas satisfeitos com declarações mais ou menos estrondosas, incapazes de sentido crítico e de poder de síntese, divulgadores do sentimento de caos e de dúvida permanente em relação às decisões administrativas. Sem se preocuparem com iniciativas criativas e positivas, nem com pedagogia elementar perante a pandemia. Reforçando um clima geral ansiogénico, depressivo, mas também uma clara desconfiança em relação aos média.

Não houve, no entanto, até agora uma reflexão de fundo da “classe” sobre a “cobertura” da pandemia, nem como é tratada uma situação política que, aliás, contribuiu a criar. Onde se viu, com efeito, em países de velha democracia, os média praticarem este pluralismo pervertido, extraviado, em que é dada a mesma importância a eleitos únicos de formações de facto inexistentes antes da própria eleição? Ora, como, num dos casos, o eleito conhece manifestamente os critérios de seleção dos factos de atualidade pelos média, ei-lo fazendo declarações o mais provocadoras e radicais possível, dentro e fora do parlamento, de modo a levar os jornalistas a darem-lhe a atenção e importância que deseja.

Perdendo de vista a função social e a responsabilidade política que é a sua, os média, e sobretudo a televisão, adoram este género de personagem desbocado, augusto de circo e superman de feira. E não se privam de reter uma declaração ou um gesto forte para ilustrar uma sequência e instigar um título apelativo. Dando-lhe assim impunemente palco, fazendo-o conhecer e divulgando as suas opções, bem mais do que seria de esperar numa prática de jornalismo ponderado e sereno. Ao mesmo tempo que jornalistas e média vão assim perdendo estima e respeito de leitores, ouvintes e espectadores.

Os jornalistas pretendem viver demasiadas vezes numa espécie de extraterritorialidade em relação às contingências da vida social e da sociedade democrática. Esquecendo que eles também, pela maneira como levam a atualidade ao conhecimento dos cidadãos e como a interpretam, são um vetor determinante no combate à pandemia. Como o são na oposição à vaga de fundo que alastra pela Europa (e não só): a tentação autoritária, xenófoba, racista… que sempre, absolutamente sempre, começou por castrar a informação, os jornalistas e os média…

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico