Nos primeiros dias do ano, percentagem de testes positivos à covid foi de 17%

Portugal deveria fazer uma média semanal de 96 mil testes para não perder cadeias de contágio e controlar a disseminação do vírus, defende investigador. Com um confinamento menos restritivo do que em Março e Abril, a previsão de 14 mil casos diários no final do mês pode ser ultrapassada.

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Daniel Rocha

Foi a revisão, em baixa, das estimativas de 14 mil novos casos diários de covid-19 para 25 de Janeiro, que apresentaram na última reunião no Infarmed, para 13.200, quando o novo confinamento só agora entrou em vigor e com medidas menos restritivas que em Março e Abril, que fez soar os alertas e levou os investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa a cruzarem os dados que tinham com mais indicadores. Receiam que os casos reais de covid sejam mais do que aqueles que estão a ser detectados. Entre 1 e 12 de Janeiro, a taxa de positividade foi de 17,4% em média, revela o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (Insa).

“Vimos que a partir de 25 de Dezembro houve um aumento da incidência e que cinco dias depois os internamentos e os óbitos reagiram. Agora, temos uma incidência de 8.600 casos – média da semana – e os internamentos e os óbitos não estão a responder. No mínimo, deveria existir uma desaceleração, mas nem isso ocorreu. Por isso, achamos que a testagem deveria duplicar”, explica ao PÚBLICO Carlos Antunes, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que faz modelação da epidemia com Manuel Carmo Gomes.

Carlos Antunes, que ao jornal i alertava para um possível planalto artificial de 10 mil casos por limite de testagem, explica que “antes do Natal tínhamos uma taxa de positividade [testes positivos entre o total realizado] à volta dos 8% e agora está em cerca de 20%. Se lançamos uma rede de pesca no mesmo sítio e se estamos a apanhar mais peixe, é porque existe mais peixe no mar. A percentagem de sintomáticos entre os [testes] positivos também está a aumentar, o que quer dizer que estamos a deixar os assintomáticos de fora”, diz.

“Temos de passar para o dobro dos testes para baixar a positividade e identificar mais cadeias de contágio e quebrá-las. Aumentando a testagem e com um confinamento geral desaceleramos a velocidade de transmissão do vírus e podíamos controlar a situação”, afirma, referindo que o país “deveria passar de uma média semanal de 48 mil testes para 96 mil testes”.

Testes a acompanhar a epidemia

Quanto à testagem, o presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública considera que “o volume de testes devia acompanhar a evolução da epidemia”. Ricardo Mexia assume que a duplicação da positividade “preocupa”. “Temos feedback de algumas pessoas com dificuldade em marcar testes, o que dificulta a estratégia de testar, rastrear e acompanhar”, diz, salientando também a necessidade de “treinar e reforçar” as equipas de saúde, algo que “é preciso que aconteça rapidamente”.

O ex-bastonário dos médicos Germano de Sousa, que gere uma rede de laboratórios com o seu nome, diz que da sua parte tem capacidade para realizar mais testes. Com os postos de colheita abertos perto de 12 horas por dia, refere que “é possível aumentar os testes pedidos” e destaca a sobrecarga que tem recaído sobre a saúde pública. Também no seu grupo se tem detectado um aumento da positividade e não esconde a sua preocupação. “Estamos num período terrível. A minha opinião é que se deveria ter fechado no Natal. É um drama esta pressão sobre o SNS”, lamenta.

Em resposta ao PÚBLICO, o Insa, que coordena a rede nacional de laboratórios que realizam testes à covid, diz que “entre 1 e 12 de Janeiro, a taxa de positividade foi de 17,4% em média”. Explica que a rede “é actualmente constituída por 142 laboratórios, o que permitiu a Portugal passar de uma média de cerca de 12 mil testes/dia realizados em Abril de 2020, para cerca de 45 mil testes/dia até 12 de Janeiro de 2021”.

Quanto à capacidade de testagem, diz que é aferida pelo número de testes diários que os laboratórios dizem conseguir fazer sem necessidade de recursos adicionais. “Esse valor situa-se actualmente em cerca de 60 mil testes/diários, o que não significa que seja esta a capacidade máxima de testagem do país, na medida em que estes laboratórios têm a possibilidade de escalar a resposta”, diz o Insa, que acrescenta que não existindo constrangimentos no mercado, “Portugal encontra-se a testar de acordo com as necessidades colocadas pela actual situação epidemiológica e com possibilidade de aumentar essa capacidade se tal for necessário”.

A Direcção-Geral da Saúde, por seu turno, diz que “não tem conhecimento de entidades que tenham referido uma limitação de testes” e explica que “as notificações laboratoriais das instituições são monitorizadas ao longo do tempo”. “"As entidades com maior número de não-conformidades no preenchimento das notificações são contactadas pela Direcção-Geral da Saúde num processo de melhoria contínua, com apoio na resolução dos problemas e esclarecimento de dúvidas, aliados a um momento de formação”, acrescenta, referindo que desde Dezembro 109 instituições - 35 clínicas médicas, 26 farmácias, 12 IPSS, 11 serviços de saúde ocupacional e 25 outras entidades - foram validadas pelas entidades competentes para notificarem testes no Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica.

Previsões a curto prazo

Quanto às estimativas que apresentadas na terça-feira passada, Carlos Antunes explica que o modelo matemático que usam trabalha sobre dados reais e baseia-se na dinâmica da incidência e no ritmo de aumento e diminuição de casos. “A estimativa de 14 mil casos foi no pressuposto de uma dinâmica da curva epidemiológica idêntica à de Março e Abril. A desaceleração de casos implicaria serem as mesmas condições de mobilidade e de confinamento. Se as medidas são mais diluídas e a movimentação maior, poderá superar os 14 mil casos diários”, explica.

Nesse encontro também Baltazar Nunes, epidemiologista do Insa, apresentou cenários de evolução da taxa de transmissão do vírus relacionados com o encerramento ou não das escolas, estando o resto em confinamento. Questionado pelo PÚBLICO sobre o facto de as actuais medidas permitirem mais mobilidade e que efeito teriam nas estimativas apresentas, o especialista explicou que os cenários “foram obtidos com base em modelos matemáticos que permitem a alteração do número de contactos entre as pessoas da população em quatro contextos: casa, trabalho, escola e outros locais”.

“O que foi feito foi considerar que o pacote de medidas actualmente implementadas levará a população portuguesa a reduzir o número de contactos da mesma forma que alterou em Março/Abril. Não é possível quantificar o efeito da presença ou ausência de medidas específicas. O que se espera, acima de tudo, para que se observe o mesmo efeito, é que população portuguesa adopte actualmente os mesmos comportamentos que adoptou em Março/Abril, com excepção do contexto escolar”.