Alemanha: o centrista simpático Armin Laschet é o novo líder da CDU

O candidato que representa a linha de continuidade de Angela Merkel venceu a segunda volta das eleições do partido conservador alemão.

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Armin Laschet Reuters

Armin Laschet, o chefe do governo da Renânia do Norte-Vestfália, é o novo líder da União Democrata-Cristã (CDU), o partido da chanceler, Angela Merkel, vencendo numa segunda volta Friedrich Merz, o antigo consultor da BlackRock que representava um regresso a uma CDU mais à direita, no congresso do partido que terminou este sábado. Laschet fica mais perto de ser candidato a chanceler, embora haja ainda obstáculos no caminho.

Laschet destacou-se entre os três candidatos com um discurso forte e pessoal. Falou do seu pai, mineiro, para sublinhar que é preciso confiança em todos os elementos da mesma equipa, e no final, saiu de trás do púlpito para mostrar a medalha da sorte que ele lhe deu para o congresso. Repetindo o tema, lembrou que há muitas pessoas que confiam primeiro na chanceler, Angela Merkel, e só de seguida na CDU. “Essa confiança não se herda”, disse, é preciso conquistá-la, defendeu.

Disparando contra Merz, que fez carreira, e fortuna, na consultora BlackRock, disse que a CDU não precisa de um CEO mas de um capitão de equipa. Prometeu não polarizar, lembrando o que aconteceu no Capitólio dos EUA. Falou aos políticos regionais da CDU, recordando o assassínio de Walter Lübcke, de Kassel, morto por um elemento da extrema-direita em 2019.

Num congresso que decorreu online, por causa das restrições decretadas pela pandemia, 1001 delegados puderam escolher o novo chefe do partido. Na primeira volta, Friedrich Merz teve 385 votos, Armin Laschet 380, e Norbert Röttgen 224. Na segunda volta de desempate, Laschet obteve 521 votos, Merz 466: o partido continua dividido.

Laschet, 59 anos, de Aachen, é conhecido pela sua postura europeísta, moderada, e pragmática (e visto, no entanto, como apaziguador em relação à Rússia). Entre os três concorrentes, contava outra vantagem: conseguiu ganhar, em 2017, as eleições no seu estado, tradicionalmente um bastião social-democrata, governado pelo SPD em grande parte do pós-guerra (governa em coligação com o Partido Liberal Democrata – FDP).

Fica agora mais perto de poder ser o candidato da CDU às legislativas de Setembro. Mas há meses que há dúvidas sobre isto, face à maior popularidade de políticos como o chefe do governo da Baviera, Markus Söder, ou o ministro da Saúde, Jens Spahn.

Matthias Dilling, investigador de ciência política da Universidade de Oxford, que falou com o PÚBLICO pouco depois da votação, prefere não fazer ainda previsões quanto ao candidato a chanceler. “Há que notar que é um pouco raro [que não seja já óbvio quem é o candidato], mas não totalmente: em 2002, só em meados de Janeiro é que foi declarado que Angela Merkel não tentaria a nomeação [para candidata a chanceler] e que Edmund Stoiber, da CSU, seria o candidato conjunto. A CDU está ligeiramente atrasada no calendário, mas não é um atraso imenso”. 

Olhos em Söder e Spahn

Muito pouco antes de o congresso decidir o novo líder, uma sondagem do Barómetro Político da televisão pública ZDF mostrava que o único dirigente que mais de metade dos inquiridos considerava apto a ser chanceler era Markus Söder (54%), seguindo-se o candidato a chanceler do Partido Social Democrata (SPD) e ministro das Finanças Olaf Scholz (45%), Spahn (32%), os candidatos à liderança agora derrotados Merz e Röttgen (29%) e Laschet (28%).

Spahn concorreu em equipa com Laschet, e a sua intervenção no congresso foi arriscada: usou o tempo dado aos delegados para fazer perguntas para lembrar que concorria com Laschet e defender a vantagem da candidatura em duo (os dois representam pontos de vista diferentes do partido: Spahn, que teve Wolfgang Schäuble como mentor no Ministério das Finanças, foi sempre mais crítico de Merkel). 

Num comentário, o repórter parlamentar do Süddeutsche Zeitung Robert Rossmann destaca que a intervenção de Spahn foi muito mal vista. O ministro “foi penalizado pelo que fez com um mau resultado na votação para os vices do partido” que se seguiu. Laschet, diz Rossmann, “venceu apesar de Spahn, e não por causa dele”.

Antes do congresso, a imprensa alemã vinha a fervilhar com a especulação de que o popular ministro da Saúde poderia vir a ser o candidato a chanceler; analistas políticos não excluíam que possa haver uma troca na equipa Laschet-Spahn. Spahn negou esses rumores.

As eleições vão decorrer com a pandemia omnipresente, e Laschet tem sido criticado pela sua gestão na Renânia do Norte-Vestfália, sobretudo quando defendeu menos restrições, tendo de corrigir o tiro depois de um surto no matadouro da empresa Tönnies. Já o ministro da Saúde, Jens Spahn, ganhou um protagonismo que o deixou entre os políticos mais populares, mesmo estando sob fogo pelo início um pouco atribulado da campanha de vacinação contra a covid-19 da Alemanha.

Complicando ainda um pouco mais o caminho de Laschet para a candidatura à chancelaria, o ano de 2021 é chamado um “superano eleitoral”, com vários estados federados a ir às urnas. A 14 de Março, as eleições na Renânia-Palatinado e em Baden-Württemberg podem trazer problemas ao partido e Laschet será atingido se a CDU tiver maus resultados.

Mas há outro efeito possível: muitas vezes, os recém-eleitos para a chefia de um partido ganham popularidade muito rapidamente. Isso aconteceu, por exemplo, com Annegret Kramp-Karrenbauer, que chegou a ultrapassar Angela Merkel nas sondagens, lembra Rossmann no seu comentário no Süddeutsche Zeitung. “Se Laschet beneficiar deste efeito e a CDU não se sair muito mal nas eleições nos estados federados que se aproximam, será muito difícil tirar-lhe a candidatura a chanceler.”