O coração ainda bate. Um domingo de chuva

Rir já é uma forma de fintar os sacrifícios, as dores, o fim inevitável de tudo.

Foto
"E ela enfiava-se no mar. Ria-se de todos nós por não sermos destemidos como ela" Jack B/Unsplash

Eram quatro irmãs. A mais velha chamava-se Carolina.

Carolina era uma mulher forte de olhos claros mas um vendaval de riso e generosidade. A fotografia que nunca tirei leva-me sempre a ver as quatro irmãs sentadas em cadeiras de praia rindo nunca eu soube de quê, mas havia um constante: “olha e o…? E a…?”. A pergunta desaguava em tardes de riso das irmãs. Lembro-me, nessa fotografia impossível, de as ver em lágrimas de tanto rir. E eu, miúda, à procura de respostas para aquela insanidade boa, aquela libertação de quatro mulheres lutadoras, cada uma à sua maneira.

A Tia Carolina era a irmã mais velha da minha mãe. Às vezes, quando me perguntam de onde veio o meu humor (?), eu lembro-me dessa fotografia a cores que nunca pude tirar mas onde estava contido o riso de uma vida, de várias vidas, de quatro irmãs.

A Tia Carolina chegava aos domingos para aproveitar a praia e eu lá ia com a família assistindo com perplexidade a tudo o que não percebia. A praia embrulhada num nevoeiro que se entranhava, e a água do mar a uma temperatura que impediria qualquer um de nós de lá enfiar um dedo que fosse, todos a seco, menos claro, a Tia Carolina. Ela avançava destemida para o mar e uma hora depois voltava com um sorriso maior que ela, dizendo: “Estava tão boa a água!”. Estava sempre perfeita a água. Só para ela.

Lembro-me especialmente dos dias cinzentos em que eu me perguntava: será que a Tia Carolina vem hoje? A praia parecia-me um cenário impossível, impossível mas não para ela. Às vezes chegávamos com o areal molhado da noite de chuva, mas nada disso lhe assustava o sorriso. E então, a chuva voltava mesmo que fosse de mansinho, e ela enfiava-se no mar. Ria-se de todos nós por não sermos destemidos como ela. Abrigávamo-nos entre barracas e pára-ventos à espera que a chuva parasse, e, lá ao fundo, ela boiando, um relevo que saltava à vista num mar deserto em domingo de chuva. Eu infeliz a ver a chuva num dia que devia ser de Verão e ela de regresso até nós, rindo mais do que nunca, garantindo que com a chuva, a água estava ainda melhor. Demorei anos para perceber tudo isto: a generosidade dela, o prazer de viver, o riso e a água do mar como libertação, os sacos de maçãs de pele enrugada que trazia para oferecer à minha mãe.

O riso e a generosidade, duas coisas que percebo agora melhor.

A Tia Carolina era uma católica conservadora que rezava pelos filhos dela, pelos dos outros, pelos clientes da sua pequena loja, pelo mundo em geral. Talvez fosse essa Fé a atirá-la para as ondas sem medo. E a juntar gente, comida, convívios. Quero pensar que veio dela a minha vontade de inventar motivos para fazer festas. Uma ideia de celebração que às vezes nos falta porque tememos, mesmo sem querer, a pequena punição inconsciente que nos lembra que a vida é feita de sacrifícios e o prazer é coisa pouco normativa.

Rir já é uma forma de fintar os sacrifícios, as dores, o fim inevitável de tudo. Há muito tempo que me escudei no riso para me distrair do incompreensível. E choro a rir, como as quatro irmãs, agora perante a perplexidade da minha filha que no seu encolher de ombros revela a tal incompreensão.

Quando fui para a maternidade levei comigo uma camisa de noite da Tia Carolina. Tinha ela morrido há um ano.

Na minha cabeça continuo a vê-la a boiar num domingo de chuva sem outras alegrias que não a dela.