A saúde e a sanidade no confinamento

Depois de, em Janeiro de 2020, ter terminado um doutoramento, caí no abismo da pandemia, a que se junta a consumação do Brexit, com toda a incerteza que lhe está associada. Se já seria difícil arranjar emprego, tornou-se uma missão impossível.

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Jon Eric Marababo/Unsplash

A quantidade de artigos sobre o assunto da saúde mental durante a pandemia, tanto por causa do distanciamento físico como dos confinamentos, fez com que o assunto fosse incontornável. Creio que há tendência a agravar-se, dado o stress que a vacinação vai causar, bem como o agravamento da situação económico-financeira. Como devo ser muito má pessoa, pensei logo: “Pimba! Agora é que vão ver!” Acontece que é a minha vida normal, confinado em casa. As regras dos confinamentos eram, e são, menos restritivas do que a minha vida normal. Cego e com falta de equilíbrio por causa da minha doença genética, a Neurofibromatose tipo 2 (NF2), estou, forçosamente, quase sempre em casa, com o bónus de estar a milhares de quilómetros dos meus amigos, uma vez que, por causa da NF2, estou a morar em Inglaterra. Saio para consultas, internamentos, algumas caminhadas higiénicas com a Sofia, minha mulher, e o Lupi, o meu alegre cão de serviço e, às vezes, uma ida a um pub ou a um restaurante.

Depois de, em Janeiro de 2020, ter terminado um doutoramento, caí no abismo da pandemia, a que se junta a consumação do Brexit, com toda a incerteza que lhe está associada. Se já seria difícil arranjar emprego, tornou-se uma missão impossível. Situação confirmada por todas as negas que tenho recebido – a única candidatura que tinha progredido para além da primeira fase teve a vaga cancelada e deslocada para a Índia, disse-me uma senhora ao telefone com uma voz jovial e muito aflita. Tenho a sorte de gostar muito de ouvir podcasts, de ler e ter muitos livros electrónicos que consigo ler com o um software leitor de ecrã. A certa altura começa a fritar um bocado a mioleira, mas, assim mesmo, é muito melhor do que não gostar destas actividades e, pior, não ter essas escolhas.

Não escrevo a minimizar a aflição de ninguém – sei muito bem que um sentimento de ter uma casa desarrumada pode ser tão aflitivo quanto o de receber a notícia de uma doença fatal. Eu próprio prefiro uma operação à mioleirinha a uma unha encravada, livra, dói que se farta! É, antes, a vontade de fazer pensar que esta situação, nova para muita gente, e ainda bem, é o normal de várias outras, sem escolha e sem esperança num “novo normal”.

Eu cá vou continuar a enviar candidaturas para empregos, ao mesmo tempo que tratarei dos sintomas da minha N.F2 e reclamo, muito, para tentar fazer o mundo melhorar.