Freelancer e com dúvidas? Sofia explica, uma dica de cada vez

Uma designer portuguesa começou a partilhar dicas para os freelancers (e não só) no Instagram, simplificando informação que pode dar dores de cabeça. Entretanto, criou um podcast e albergou conteúdos num site. E lançou um formulário para traçar o perfil do freelancer português.

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Kelly Sikkema/Unsplash

“Olá! Bem-vindos ao Fazer Preços e Assim, um podcast sobre viver da criatividade”: Sofia Rocha e Silva abre uma porta sonora, a cada duas semanas, aos trabalhadores independentes (e não só) que carregam as dúvidas e questões do costume. Como fazer um orçamento, as poupanças, os seguros, a gestão de tempo. Para já, há quatro episódios para ouvir, mas os conselhos da designer freelancer não moram apenas no podcast — basta sair da plataforma escolhida para ouvir o Fazer Preços e Assim e rumar ao Instagram de Sofia. Foi esse o ponto de partida para o podcast. E para a Dica do Freelancer, que também é um hashtag, como se lê mal se chega ao seu perfil, que nasceu em Junho último. 

“Não foi algo que tivesse pensado com início, meio e fim. Foi crescendo”, explica. Nos quadradinhos que deslizam pela tela, há mais conteúdo sobre ser trabalhador independente do que do quotidiano da vila-realense de 30 anos, ainda que o nome de utilizador se mantenha no plano pessoal. Caso exista aversão a redes sociais, Sofia também lançou um site, o Luscofia, onde tudo o que é publicado no Instagram também está disponível para leitura. Recapitulando: um podcast, uma conta no Instagram e um site. Tudo para ajudar freelancers com dúvidas. Porquê? “Já tinha esta ideia há muito tempo. Com a pandemia, acabei por ter mais tempo livre e o feedback foi automático.” E não só: a designer descreve-se como “obcecada por ter as contas em condições”, para além de lhe ser “algo natural aconselhar e dar dicas”.

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Sofia Rocha e Silva, designer de 30 anos.

Sofia percebe as dores de quem procura as suas páginas para se esclarecer: é freelancer desde 2015 e, para além do design, faz trabalhos nas áreas da ilustração, copywriting e gestão de redes sociais. Também é presidente da cooperativa cultural TRANSA, sediada em Vila Real, na qual a gestão de orçamentos e de tempo e de outras questões mais ou menos burocráticas pesam tanto quanto a programação cultural. O currículo é bom, mas a designer avisa, modesta: “Não sei de tudo, mas há coisas em que consigo ajudar.”

Grande parte dessa ajuda tem que ver com orçamentos. “É uma questão que não tem idade, mas vem, sobretudo, de pessoas que saíram do curso. Mesmo para mim continua a ser uma questão complicada”, conta. Não é que haja “uma resposta imediata”, apesar de o problema ser transversal: existe o medo de cobrar a mais, mas também o receio de não lucrar o suficiente para pagar as portagens da auto-estrada. “Com a experiência, acabas por perceber que o valor que fazes tem de pagar as despesas. Tens de lucrar alguma coisa e crescer. Depois, começas a conseguir fazer o preço sem pensar muito”, sintetiza.

Até lá, porque ganhar experiência pode não ser pêra doce e “começar é sempre difícil”, há dicas para alavancar esse trajecto: “O primeiro passo, que é muito importante, é fazer um diagnóstico do dinheiro que gastas, os teus custos, quanto dinheiro precisas.” Assim, ficar-se-á com uma noção do quanto se deve cobrar pelo trabalho. Só que em áreas como o design há outra armadilha. “Não sabemos quanto cobram os nossos pares. Há um vácuo em relação aos preços. Há países com tabelas de preços, mas não acho que resolva”, diz.

Quem é o freelancer português?

Se a pandemia trouxe a disponibilidade para Sofia começar este projecto, também retirou trabalhos da agenda — e, com isso, quebras no rendimento, algo que se terá reflectido nas contas de muitos trabalhadores independentes, mesmo com os apoios do Governo (e com “apoio extraordinário ao rendimento dos trabalhadores” do Orçamento do Estado para 2021, que abrange também trabalhadores do serviço doméstico e desempregados sem protecção social). Assim, para a designer, a existência de um fundo de emergência revelou-se importante este ano: a situação poderá ter feito “muita gente repensar e perceber que é necessário ter poupanças”, se for possível. E Sofia sabe de pelo menos 348 pessoas (à data da conversa com o P3, a 7 de Dezembro) que o tenham feito.

É que a designer lançou, através da página do Instagram, um formulário para uma “pesquisa participativa”. O objectivo é saber quem são os criativos de Portugal (não obrigatoriamente freelancers), quanto cobram pelos seus trabalhos e em que condições trabalham. Algumas respostas já estão disponíveis para consulta e é possível responder ao formulário até 26 de Janeiro. Depois, Sofia cruzará dados e tentará desenhar algumas conclusões. Para já, sabe que 97% dos inquiridos (num total provisório de 580, sendo que 180 são freelancers) se identifica como “branco/português branco/de origem europeia” e, na maior parte, como mulher cisgénero (pessoas cuja identidade de género é a mesma que a designado no nascimento).

Algo que não coincide com os dados apresentados pela Fiverr, uma plataforma online que liga freelancers a empresas e procurou traçar um perfil do freelancer português. Segundo o estudo, que contou com 250 participações, a maioria são homens; a diferença, explica Sofia, talvez se justifique pelo seu conteúdo chegar “mais a mulheres”. Mas não é só isso que lhe causa algumas dúvidas: a Fiverr diz que, por cá, o rendimento médio mensal do freelancer português é de mais de mil euros — aproximadamente mais 30 euros do que a remuneração base média dos trabalhadores por conta de outrem, de acordo com os dados de 2018 da Pordata.

“Pelo menos [os freelancers] com quem eu contacto não estão a ganhar o dobro do salário mínimo”, repara. No post do Instagram onde anuncia o formulário, Sofia escreve que “não há dados suficientes nem sequer para contrapor estatísticas lançadas assim à toa”. “Faz falta saber quanto ganham os outros e qual o orçamento para cada trabalho. Não só freelancers como quem tem estúdios e quem trabalha com contrato”, lê-se ainda. A designer quer ainda perceber qual a “percentagem de mulheres versus homens em posições de chefia”, mas também “em que medida há representação de várias etnias e identidades de género”.

Até conhecermos os dados que Sofia está a reunir, a designer continuará a espalhar conhecimento e informação sempre fidedigna, já que recorre sempre aos documentos emitidos por entidades como a Autoridade Tributária ou a Segurança Social, simplificando-a. Mas também daquilo que se aprende com o tempo: “Como lidar com os clientes que não te pagam, como consegues clientes. E a gestão de tempo, claro, que não é ‘científica’ e depende de cada um.” O horário perfeito, diz, “é uma busca pela fórmula mágica” que pode não existir. Para ela, resulta o tradicional: “Sou adepta da lista em papel com cruzinhas e o calendário no computador para não me esquecer das coisas. Mas há tantas maneiras, como os métodos por parcelas ou outros em que tens de fazer as piores tarefas logo pela manhã. Não há método perfeito.”

Há muito mais para ler e ouvir de Sofia (incluindo conselhos para lidar com clientes que não pagam e outros que exigem este mundo e o outro), com a máxima de sempre: uma dica de cada vez.