Egas Moniz no Panteão? Um cientista que é muito mais do que a lobotomia

O único cientista português a ganhar um Nobel merece honras de Panteão? Por estar associado a uma técnica polémica recordamo-lo com um certo amargo de boca. O PS quer lançar uma discussão sobre isso.

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Exposição sobre a técnica da Angiografia no Museu Egas Moniz, na Universidade de Lisboa David Clifford/PÚBLICO/Arquivo

O grupo parlamentar do PS vai apresentar na Assembleia da República um projecto de resolução para que sejam concedidas honras de Panteão Nacional a Egas Moniz, o neurologista que foi primeiro e único português a receber o Prémio Nobel da Medicina. A memória colectiva portuguesa deste cientista é marcada por ter inventado a técnica da lobotomia, mas é também muito mais que isso. 

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O grupo parlamentar do PS vai apresentar na Assembleia da República um projecto de resolução para que sejam concedidas honras de Panteão Nacional a Egas Moniz, o neurologista que foi primeiro e único português a receber o Prémio Nobel da Medicina. A memória colectiva portuguesa deste cientista é marcada por ter inventado a técnica da lobotomia, mas é também muito mais que isso. 

Político partidário de Sidónio Pais e que sempre manteve o regime de Salazar à distância, inventor de uma técnica revolucionária capaz de tornar visíveis áreas do cérebro, mas também de uma cirurgia polémica, que implicava destruir as ligações entre neurónios no cérebro. 

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Egas Moniz tinha sido considerado várias vezes para receber o Nobel da Medicina antes de o ganhar DR

Quando se ouve “lobotomia” vêm à memória histórias de horror, pessoas transformadas em criaturas sem vontade, com o cérebro destruído. Voando sobre um Ninho de Cucos dá-nos conta de uma história dessas, e saiu em 1975, o ano em que se fez a última lobotomia nos Estados Unidos. Mas essa não foi bem a história de Egas Moniz – foi o vendaval iniciado nos EUA pelo neurologista Walter Freeman, seu admirador.

Egas Moniz confiava nas mãos do cirurgião Almeida Lima para o ajudar a conseguir alguma precisão, pois as suas estavam deformadas pela gota. Começou com sete pacientes, destruindo-lhes a matéria branca no córtex pré-frontal com injecções de álcool, através de buracos feitos no crânio. A seguir, experimentou cortar mesmo as ligações fibrosas.

Mas Walter Freeman tinha pressa: a sua técnica passava por inserir um picador de gelo pelos olhos dos pacientes, com um martelo e anestesia local, e destruía de uma forma indiscriminada os seus lobos frontais. No início dos anos 2000, familiares de pessoas tratadas com a técnica de Freeman nos EUA iniciaram um movimento para tirar o Nobel a Egas Moniz - que não teve sucesso.

Querela com Sobral-Cid

Os resultados da cirurgia que Egas Moniz começou a desenvolver na década de 1930, no entanto, não eram propriamente brilhantes. Um terço dos pacientes operados apresentava “melhoras”, embora nesse tempo não houvesse tratamentos eficazes para desordens psiquiátricas. Ainda assim, a técnica desenvolvida por Egas Moniz suscitava alguma resistência.

É o próprio que relata uma querela com o psiquiatra Sobral-Cid acerca da leucotomia. Sobral-Cid tinha-se recusado a enviar-lhe doentes mentais do Hospital Júlio de Matos para serem operados, quando estava a desenvolver a sua cirurgia, queixava-se Egas Moniz, numa longa carta enviada a Walter Freeman, em 1946.

“Quando um dia lhe expus o desejo de fazer um tratamento cirúrgico, no campo da Psiquiatria, aquiesceu (...) prometeu dar-me a colaboração de doentes do seu hospital. No fundo, porém, ficou convencido de que o método era uma fantasia sem base e por isso destinado a rápido fracasso”, escreveu Moniz a Freeman.

“E assim enviou-me quatro doentes que reputava incuráveis, para os primeiros ensaios. Quando, porém, examinou a primeira doente teve de reconhecer que havia melhoras. Desde esse momento tomou uma atitude parcial, hostil. ‘As melhoras são superficiais’, dizia-me. O fundo psicótico permanece inalterável. E perdíamo-nos na discussão, embora amigável, destas e outras questões que eu considerava como ninharia”, contava ao norte-americano, que estava a fazer contactos para organizar em Lisboa o Congresso Internacional de Psicocirurgia em Lisboa, em Agosto de 1948.

Um ano depois, quando Egas Moniz já tinha 75 anos, foi o Nobel da Medicina. O cientista português era uma figura bem conhecida, que tinha tido uma longa carreira política também. Começou como monárquico, mas rendeu-se à república. Foi deputado na Assembleia Constituinte após o 5 de Outubro de 1910, líder do Partido Centrista, 1917, aderiu ao regime de Sidónio Pais, foi o chefe da delegação portuguesa à Conferência de Paz de Paris, após o fim da I Guerra Mundial. E não se rendeu ao Estado Novo. 

Primeiro, a angiografia

O projecto do PS prevê a audição de “todos os partidos políticos, a Câmara Municipal de Estarreja [município onde fica a casa-museu Egas Moniz], a Junta de Freguesia de Avanca, a comunidade científica e civil, assim como a família de Egas Moniz”. A ideia “não pressupõe a trasladação do corpo, sepultado no cemitério de Avanca, ao lado da esposa, por sua vontade”, acrescentam os socialistas.

Em 1949 não foi a primeira vez que Egas Moniz tinha sido considerado para a atribuição do galardão – já tinha estado na berlinda várias vezes, por outra invenção, ainda da década de 1920, que o tinha tornado conhecido internacionalmente: a angiografia, um método de diagnóstico que permite obter imagens do interior do cérebro, ou do sistema circulatório. Através da injecção nos vasos sanguíneos de um líquido que surge opaco nas radiografias é possível conhecer a localização das artérias e veias e até detectar tumores.

A angiografia (nome geral das radiografias das artérias e veias) não levaria muito tempo a ser divulgada internacionalmente. No livro Confidências de um Investigador Científico, o próprio Egas Moniz relata o dia em que chegou à Sociedade de Neurologia de Paris para anunciar o feito.

Jean-Athanase Sicard, pioneiro da mielografia, que Egas Moniz muito admirava, perguntou ao neurologista português: “Então senhor Moniz? Trouxe-nos de Portugal algo que permita localizar os tumores cerebrais?” Egas Moniz interpretou como irónica esta recepção. “A pergunta tinha ar de intimidade amiga, mas, no fundo, Sicard não via na minha modesta pessoa, nem talvez nas possibilidades científicas do meu pequeno país, matéria donde pudesse brotar uma intensa luz.”

A técnica teve alguns problemas de replicação e foi várias vezes considerada pelo Comité Nobel juntamente com outra, que caiu em desuso, o que dificultou a atribuição do Prémio durante anos. O resultado foi que quando de facto ganhou o Nobel da Medicina, também pela leucotomia, esta técnica já estava em declínio.