Portugal e parte da Europa fecham portas ao Reino Unido

Em voos vindos do Reino Unido, só entram em Portugal cidadãos nacionais ou com autorização de residência. Conselho Europeu reúne-se de emergência nesta segunda-feira. Ainda não há casos de infecção com nova variante em Portugal.

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Aeroporto de Lisboa Rui Gaudencio

Apenas quatro horas antes de fechar as fronteiras aéreas a todos os viajantes não portugueses ou não residentes que cheguem em voos vindos do Reino Unido, Portugal anunciou no domingo à noite que afinal se juntava, às 24h, a países como a França, Alemanha, Bélgica, Itália, Suécia, Holanda, Irlanda e Escócia que, durante a tarde, tinham já anunciando a suspensão das ligações aéreas, ferroviárias e rodoviárias com origem no Reino Unido. A diferença é que em Portugal poderão continuar a entrar os cidadãos portugueses e de outras nacionalidades desde que aqui tenham autorização legal de residência, mas todos têm que trazer um comprovativo de “teste laboratorial” com resultado negativo para o vírus SARS-CoV-2.

O apertar das restrições em relação ao Reino Unido é o resultado do agravamento da situação naquele país devido à nova variante do coronavírus, que tem um potencial de contágio superior em até 70% e que levou ao confinamento de Londres, da região sudeste e de parte do leste de Inglaterra desde ontem e até dia 30. Ao PÚBLICO, o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge garantiu que em Portugal, ao contrário de países como a Holanda, Dinamarca e Austrália, ainda não foi detectado qualquer caso da variante identificada em Inglaterra.

O Ministério da Administração Interna (MAI), que anunciou o fecho de fronteiras apenas duas horas depois de o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) garantir ao PÚBLICO que não havia intenção de o fazer, não especifica, porém, a antecedência com que o teste dos viajantes deve ser feito. Depois do anúncio, terão chegado na noite deste domingo ao aeroporto de Lisboa três voos, e estavam previstos para esta segunda-feira outros dez – sem contar com Porto e Faro. Se os passageiros não tiverem teste, serão encaminhados à chegada pelas autoridades para o fazerem no aeroporto e ficarão em isolamento. A medida será “actualizada de acordo com a evolução da situação”, diz ainda o MAI.

Porém, ao contrário desta medida de rompante do MAI, a Direcção-Geral da Saúde desvalorizou a situação, considerando que esta mutação é uma ocorrência “esperada”, que não é “motivo de preocupação por si só” e “não parece ter impacto na mortalidade”. “A maioria das mutações não aumenta o risco para o ser humano. No entanto, algumas mutações ou combinações de mutações podem fornecer ao vírus uma vantagem selectiva, como o aumento da transmissibilidade ou como uma maior capacidade de evadir a resposta imune do hospedeiro”, adiantou ainda a DGS citada pela Lusa.

Depois de ao fim da manhã o MNE ter dito estar a seguir “com atenção” a situação, mas preferir as medidas tomadas “universalmente em vez de restringir em demasia as possibilidades de circulação de quem tem que viajar por razões profissionais ou reunião familiar”, ao início da noite o PSD apelou ao Governo que impusesse medidas de controlo como a restrição de voos.

Também por causa da reacção em cadeia dos vários países – alguns onde já foram detectados infectados com a nova estirpe -, da assumpção por Inglaterra de que a situação estava “fora de controlo” (no domingo registou 35.928 novos casos e 326 mortes) e devido aos pedidos para uma posição uniforme dos países europeus, o Conselho Europeu reúne-se nesta segunda-feira de emergência. No domingo estiveram já reunidos, online, o Presidente francês, a chanceler alemã e os presidentes da Comissão Europeia e do Conselho.

A Organização Mundial de Saúde também pediu aos membros europeus que “reforcem os controlos” e “aumentem as suas capacidades de sequenciação” do vírus, para se perceber melhor os riscos da nova variante.

Especialistas desvalorizam

É isso que defende o epidemiologista da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa Manuel Carmo Gomes: adivinha-se “muito trabalho de laboratório”. “Temos de intensificar a sequenciação genética dos casos suspeitos, como as reinfecções, e investigar a estirpe do vírus que está a causar a doença”, descreve, sublinhando que será fundamental acompanhar casos de falhanço da vacina, isto é, em que pessoas vacinadas contraiam a doença “para verificar se se trata ou não desta variante”.

Questionado sobre o impacto da nova variante na vacina, o epidemiologista diz que ainda é cedo para tirar conclusões, mas admite ser “pouco provável que a vacina deixe de ter eficácia”, uma vez que esta “actua em toda a proteína spike”, a mesma que terá sofrido alterações com a nova estirpe do vírus. No entanto, com a nova variante, o R (indicador de contágio da doença) pode aumentar até 0,4 pontos, o que faz com que seja “natural que o processo de transmissão ande um bocado mais depressa”.

O que fazer então para lidar com ela? O epidemiologista insiste na importância de cumprir o uso de máscara, o distanciamento físico e a higiene frequente das mãos.

O virologista Pedro Simas, do Instituto de Medicina Molecular de Lisboa, vai pelo mesmo caminho: “Temos de aguardar e estar atentos, não é expectável que tenha um impacto gigantesco na vacina (…) mas é muito precoce especular em relação a isso”, afirmou, citado pela Lusa. Pedro Simas desvaloriza o novo cenário: “Estão sempre aparecer estirpes novas localizadas geograficamente, mas isso, de certa forma, é um bom sinal: é sinal de que não se está a reverter para estirpes mais virulentas, que provoquem doença mais grave.” com Pedro Bastos Reis