Novos casos de covid-19 podem estar a baixar mas pressão sobre os hospitais mantém-se

A próxima semana poderá terminar com 554 infectados com SARS-CoV-2 em cuidados intensivos. Mas “a situação dos doentes não covid é muito grave e sem entrada de novos recursos humanos dificilmente teremos capacidade para recuperar”, alertam administradores hospitalares.

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Rui Gaudencio

Ainda é cedo para respirar de alívio. Embora a média de número de novos casos de covid-19 esteja a dar sinais de abrandamento e o risco de transmissão do vírus (Rt), em termos nacionais, esteja abaixo de 1, a pressão sobre os hospitais vai continuar e a próxima semana poderá terminar com 554 doentes internados em cuidados intensivos. São mais 47 do que os registados no boletim da Direcção-Geral da Saúde (APAH), divulgado nesta sexta-feira.

As estimativas da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) para a próxima sexta-feira, feitas através da ferramenta Adaptt, “dão visibilidade a um aplanar da curva”, mas “ainda sem grande subtracção no número de doentes internados”, referiu ao PÚBLICO Alexandre Lourenço, presidente da APAH. “Estamos a falar de internamentos prolongados, levando a que os doentes se mantenham no sistema”, reforçou o responsável, lembrando que, como os números têm mostrado, “há um desfasamento” entre o momento da infecção, a necessidade de internamento e um eventual óbito.

As estimativas, trabalhadas com base nos dados da DGS divulgados na última quinta-feira, revelam dois cenários: um mais optimista que se baseia na redução de 2% do Rt e um mais pessimista, que se baseia no aumento de 2% do Rt. E embora em ambos se preveja uma menor necessidade de camas, comparando com previsões para semanas anteriores, é certo que a exigência ainda se vai manter alta. No pior cenário, poderão estar internados nos hospitais 3511 doentes com covid, dos quais 554 em unidades de cuidados intensivos.

“Este número vai muito além da capacidade normal que tínhamos e implica o redireccionar de recursos para esta áreas. E ainda estamos longe da prestação de cuidados ideal, com efeito nos doentes não covid”, lembrou Alexandre Lourenço, referindo-se à reorganização que os hospitais foram obrigados a fazer à medida que o número de doentes covid internados aumentou. Organização que passou por repartição de espaços e profissionais e, em alguns casos, por suspender actividade programada não urgente. “A situação dos doentes não covid é muito grave e sem entrada de novos recursos humanos dificilmente teremos capacidade para recuperar”, alertou.

“O dispositivo que tem de se manter dedicado só à covid ainda é muito elevado”, reforçou o presidente da APAH, salientando que “não é expectável que se registe já um abrandamento”. Para atender ao pior cenário, estima, serão precisos 931 médicos (dos quais 277 em cuidados intensivos), 6493 enfermeiros (dos quais 1172 em cuidados intensivos) e 2553 assistentes operacionais (dos quais 785 em intensivos). É nas regiões Norte e Lisboa e Vale do Tejo que se prevê a maior necessidade de camas e de recursos humanos.

Embora “se esteja a actuar sobre a mola”, será de esperar “algum crescimento” depois do Natal e do Ano Novo, “por mais cuidados que as pessoas tenham”, disse ainda Alexandre Lourenço. “É crucial que se analise como é que a situação está a evoluir. A questão é a dimensão das ondas e o grau de pressão que pode exercer.” Para além disso, lembra o efeito que o tempo frio que já se faz sentir pode ter na circulação de outros vírus respiratórios que poderão aumentar ainda mais a pressão sobre os hospitais.

Mais de 500 novos casos por 100 mil habitantes

Também a ministra Marta Temido lembrou na conferência de imprensa de balanço da pandemia que “estamos ainda a assistir à dilação entre o número de novas infecções, a utilização de hospitais e o número de óbitos”. Esta sexta-feira, o relatório da DGS dava conta de 95 mortes por covid, um “valor muito elevado” como referiu a ministra. Na realidade, trata-se do número diário mais alto registado até ao momento.

O pico desta segunda fase, referiu, “terá acontecido na semana de 20 de Novembro” e nesta altura a taxa de incidência “está a aproximar-se de valores mais controláveis, mas ainda assim preocupantes” e com desigualdades regionais. A taxa de incidência nacional dos últimos 14 dias foi de 529,3 casos por 100 mil habitantes. Já na região Norte foi de 802 por 100 mil habitantes, enquanto no Algarve foi de 202 por 100 mil habitantes

Quanto ao risco de transmissibilidade, o Rt nacional “está em 0,97”. “É um valor que precisamos fazer descer e sobretudo manter de forma sustentada”, afirmou Marta Temido, lembrando que “não se pode prescindir das regras para estarmos seguros”.

“Até que tenhamos uma vacina, e mesmo depois, enquanto não atingirmos a imunidade temos de continuar a responder ao SNS e precisamos da colaboração de todos”, apelou a ministra que, horas antes, tinha estado na cerimónia dos 121 anos do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), onde se emocionou. Depois de ter dito que enfrentamos todos “o desafio das nossas vidas” e que este é um período marcado “por sacrifícios sem precedentes”, quis sublinhar a importância do INSA em contexto de pandemia. Mas não conseguiu controlar a emoção e só se recompôs após uma pausa, enquanto os presentes no auditório a aplaudiram.

Segundo dados divulgados esta sexta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística, desde 2 de Março — data em que foram diagnosticados os primeiros casos de covid em Portugal — e 29 de Novembro, registaram-se 87.792 óbitos, mais 10.776 que a média nas semanas homólogas dos últimos cinco anos. Questionada sobre o excesso de mortalidade, Marta Temido reafirmou que está a ser acompanhada, mas que “uma análise mais detalhada” só será possível depois de todos os óbitos estarem codificados por causa de morte.

“Neste momento só podemos fazer uma análise entre a mortalidade esperada e a verificada”, disse a ministra da Saúde. Referiu que existe um período de excesso de mortalidade associado a um pico de covid, dois associados a temperaturas altas durante o Verão e que “agora estamos a viver um quarto momento de excesso de mortalidade por todas as causas”.