Medronheiro: “Um capital natural ainda por explorar”

Até Abril de 2021, a REN conta ter plantados mais de 3240 hectares de medronheiros, nos perto de 10 mil quilómetros de servidões de linhas eléctricas que detém em território continental. Estamos em presença de “um verdadeiro capital natural do nosso país que ainda está por explorar”.

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Nelson Garrido

O formato do medronho, redondo e rugoso, é bem reconhecível. Tal como o seu gosto embriagante e a cor viva. Quer este fruto vermelho que Portugal está a (re)descobrir, quer a árvore de onde nasce, autóctone de pequeno porte, folha persistente e copa arredondada, são parte integrante da identidade nacional.

Cada vez mais vozes identificam, aliás, os benefícios sociais e ambientais da sua plantação, quanto mais não seja pela comprovada protecção natural que o medronheiro oferece como travão à propagação dos fogos florestais. Mas, também, como factor de biodiversidade, mitigador da erosão dos solos e elemento activo da sua recuperação. Não falando das propriedades nutricionais (o fruto é rico em vitaminas A e C, com valores semelhantes aos citrinos) e do retorno económico que proporciona, inclusive para a gastronomia, a indústria cosmética e, até, a medicinal.

A cultura do medronho entra em produção, em média, aos cinco anos de idade. Por norma, os valores da produção, por planta, vão de até 1 quilo no quinto ano, até aos 3 quilos no sexto e sétimo, e podem atingir os 7 quilos a partir do décimo ano.

Portugal tem vindo a ganhar novas áreas de plantação de medronheiros. Para além do Algarve, região onde tem honras de indicação geográfica protegida e a aguardente e outros derivados de medronho (licor ou mel) são iguaria de sucesso nacional, também no Alentejo e na região Centro se tem vindo a traçar um importante caminho na sua cultura e promoção.

Em Novembro, o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) revelou ao PÚBLICO que, ao abrigo do Regime Jurídico de Acções de Arborização e Rearborização, já foram “autorizados/validados, cerca de 2951 hectares [de terras] com recurso a medronheiro, maioritariamente no Algarve, seguindo-se a região Centro e o Alentejo”. E os exemplos sucedem-se, do pequeno produtor individual, que vê ali um complemento à economia familiar, aos produtores de maior escala, que apostam na profissionalização e na produção com dimensão até para alimentar a indústria.

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Em média, a cultura do medronho entra em produção aos cinco anos de idade da árvore, produzindo até 1 quilo por ano. A partir do décimo ano, um medronheiro pode atingir os 7 quilos anuais de fruto. nelson garrido

REN: 3240 hectares até Abril de 2021

Entre os que têm vindo a incentivar a plantação de medronheiros está a REN - Redes Energéticas Nacionais. A empresa detém, em todo o território nacional, “quase 10 mil quilómetros de servidões de linhas eléctricas e gasodutos” que precisa de limpar e preservar, cerca de 60% das quais estão “inseridas em espaços florestais”.

No início, incentivavam os proprietários dos terrenos atravessados pelos corredores de transporte de energia a plantarem a alfarrobeira, o azevinho, a azinheira, o carvalho-alvarinho, o carvalho-negral, o carvalho-cerquinho, o castanheiro, a nogueira, a oliveira, o pinheiro-manso, o salgueiro e o sobreiro. Actualmente, a espécie que mais pretendem aumentar em área de plantação é o medronheiro. Para o conseguir, estabeleceram uma parceria com a Cooperativa Portuguesa de Medronho (CPM), apostada em divulgar as potencialidades desta espécie enquanto “fruto com elevado potencial na indústria agro-alimentar, cosmética, medicinal ou ornamental”.

João Gaspar, responsável da área de Servidões e Património da REN, revelou ao PÚBLICO que, desde 2010, a companhia já plantou “mais de um milhão de árvores, numa área superior a 3000 hectares”. No final de 2019, a REN já tinha mais de 500 hectares de medronheiros plantados. Espera plantar até ao final da presente época de plantação (Abril de 2021) “mais de 240 hectares”, destacando-se “um projecto em Penacova com cerca de 130 hectares”.

Reconversão do solo em 30% até 2030

A região Centro é onde estão a ter mais intervenção. “Terminámos há um ano um grande projecto de 160 hectares, que abrangeu os concelhos de Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Pedrógão Grande, Góis e Arganil”, refere o responsável da REN. Nesta época de plantação, prevêem “iniciar um projecto” na área de Fundão e Castelo Branco. Isto, “caso venha a ser aprovado pelo ICNF”.

No final de 2019, 12% da área florestal atravessada pela rede eléctrica da REN já foi sujeita a estes projectos de reconversão de uso do solo. O objectivo, assume João Gaspar, é “chegar a 2025 com 25% e em 2030 com 30%”.

Nestas reconversões, foram já abrangidos “mais de 15 mil proprietários”. Que, diz aquele responsável, “têm a possibilidade de obter algum rendimento de terrenos que estavam frequentemente ao abandono, promovendo, ainda, o aumento da biodiversidade”.

No que diz respeito ao medronho, estamos em presença de uma espécie arbórea e de um fruto que “fazem parte da nossa tradição e da nossa cultura”. O que falta, agora, é “torná-los um produto da economia”, com “penetração no mercado de uma forma efectiva”, também de modo a “aumentar o rendimento dos proprietários florestais, em particular do interior do país”, afirma João Gaspar.

A cadeia de valor começa na terra, com a plantação, e termina na colheita e, a seguir, na fileira da transformação do medronho, seja para aguardente, compotas, licores ou outros produtos associados. Para isso, “a REN está a envolver as várias partes interessadas locais, regionais e nacionais, que devem olhar para estes novos produtos e novos mercados, que trazem benefícios para todos: do produtor ao distribuidor, trazendo também benefícios para o consumidor final”.

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“Ao instalarmos no meio de um povoamento florestal uma plantação de medronheiros de baixa densidade, numa largura de 45 metros, estamos a contribuir para aumentar a segurança da infraestrutura e a resiliência dos territórios”, explica João Gaspar, da REN. nelson garrido

Tirar rendimento e criar valor na floresta

João Gaspar não tem dúvidas: estamos perante “um verdadeiro capital natural do nosso país que ainda está por explorar”. A empresa das redes energéticas olha para este projecto como “uma vantagem para todos”. “Ganha a REN porque tem custos de manutenção mais baixos e está a promover a manutenção e preservação da biodiversidade. Ganham os proprietários dos terrenos, que retiram rendimento das suas terras e estão a criar valor na floresta. Ganha o país porque promove uma floresta autóctone mais resiliente aos fogos florestais.”

As funções das redes de defesa da floresta constituídas sob linhas eléctricas “passam, em primeiro lugar, por proteger a própria infra-estrutura, mas, também, a diminuição da superfície percorrida pelos incêndios, através da descontinuidade da vegetação”, explica o responsável da empresa. É que, diz, “ao instalarmos no meio de um povoamento florestal uma plantação de medronheiros de baixa densidade, numa largura de 45 metros, estamos a contribuir para aumentar a segurança da infra-estrutura e a resiliência dos territórios”.

Na prevenção dos incêndios rurais, a REN tem ainda realizado acções de limpeza dos corredores de transporte de energia. Nos últimos cinco anos, revela João Gaspar, “foram limpos mais de 30 mil hectares, o equivalente à área ocupada por 30 mil estádios de futebol”. Só em 2019, a REN actuou em mais de 8 mil hectares (31 hectares/dia).

Sendo intervenções efectuadas em terrenos que não pertencem à REN, o que implica um contacto com os proprietários antes de qualquer acção, a empresa assume que, “nos últimos anos, este trabalho envolveu o contacto com mais de 25 mil proprietários por ano. Em 2019, foram contactados 28 191”.

Não há um incentivo monetário directo da REN aos donos dos terrenos. Contudo, “é a REN que promove a reconversão do uso do solo nas suas faixas de servidão e assegura a primeira retancha”, ou seja, a substituição das árvores mortas após o primeiro ano de plantação. E convém lembrar que “os custos de uma plantação com reconversão do uso do solo variam entre os 1500 e os 2000 euros por hectare”.

As obrigações dos proprietários, essas, “são as que resultam da lei para quem tem propriedades rurais”, ou seja, “limpar e cuidar”. Todo o valor retirado daqueles terrenos “é do proprietário”, garante a REN.