O saber não tem ponto final

Acumulamos muito conhecimento técnico, como valor de uso competitivo no mercado, mas raramente o sabemos converter num tipo de saber que dialogue com a vida no sentido amplo. E é isso que tantas vezes faz falta.

Não é exclusivo das artes, da cultura ou das humanidades, mas na hora da morte de personalidades que operam nesses territórios, talvez seja mais nítido. Falo da aparente indiferença com que nos relacionamos em vida com a obra de criadores ou pensadores e o arrebatamento como reagimos na morte. Há quem veja nessa dissociação sintoma de hipocrisia.

Não vou por aí. Vejo isso na música popular. No quotidiano, a tentação é desvalorizar essa relação. É algo que não se leva muito a sério. Mas paradoxalmente é esse desprendimento que torna a nossa ligação com a música tão reveladora. E só percebemos isso, muitas vezes, na hora da morte de determinado artista. Somos surpreendidos porque, afinal, a sua vida e obra esteve sempre presente, moldando tantas vezes de forma quase imperceptível o que fomos, o que somos e o que desejamos ser.

Esta semana morreu Eduardo Lourenço. Independentemente do que cada um possa pensar sobre a figura (e numa vasta obra existem partes mais consensuais e outras mais questionáveis, como parece acontecer entre quem se revê nas suas reflexões sobre um eventual “espírito português” ou a “identidade portuguesa” e quem proclama que essa é, precisamente, uma das facetas mais frágeis ou datadas do seu pensamento), era um dos intelectuais mais conhecidos no espaço público. Alguém que personificava uma vontade de conhecer insaciável. E esse é o traço que me interessa.

Nas últimas décadas, a obsessão do agir, da velocidade, da técnica e da eficiência foram sempre exibidas como a antítese da reflexão, do entendimento e das ideias. Não surpreende que a figura do intelectual tenha sido tantas vezes denegrida, tornou-se até insulto, como se representasse inutilidade, ou seja, improdutividade. Na pandemia, o conhecimento técnico tem-se revelado importante. Servimo-nos dele para que a nossa vida continue num quadro regular. Mas perante a imprevisibilidade e a reinante falta de confiança perante o futuro, tem sido a cultura — e isso vislumbrou-se especialmente em alturas de confinamento — e as humanidades a fazer-nos sentir vivos. A atribuírem sentido e produzindo compreensão para o que se está a experimentar.

Hoje facilmente se confunde informação, conhecimento e saber. Temos muita informação, mas essa hipertrofia leva-nos muitas vezes à paralisia. Acumulamos muito conhecimento técnico, como valor de uso competitivo no mercado, mas raramente o sabemos converter num tipo de saber que dialogue com a vida no sentido amplo. E é isso que tantas vezes faz falta.

Talvez seja por isso que se nota uma renovada disponibilidade para abraçar algo que vá além da retórica da utilização prática. Há factores perversos envolvidos, como a proliferação de livros vácuos que propõem soluções miraculosas para destinos individuais ou colectivos, mas existe também quem já tenha ultrapassado a noção redutora de que meditar é só especulação, como se fosse algo que flutua e nunca chega a pousar.

Teoria e prática fazem parte da mesma respiração. Pensar pode ser pensarmos juntos para criarmos saberes e práticas que dialoguem com a vida com a simples intenção de cuidarmos melhor do colectivo. Não existe nada mais prático a aspirar. Como seres humanos, temos condições de escolher e edificar, porque pensamento é acção, tanto na dimensão privada, como na partilhada, ou seja, política. Dizia o escritor Amin Maalouf que o desejo de saber pode ser infinito, sendo algo a que todos nos poderíamos entregar, porque é um universo inesgotável, ao contrário dos recursos do planeta. Somos dependentes de recursos, mas quanto mais aprofundamos o saber mais as hipóteses de os não esgotar se ampliam.