Maradona, a minha homenagem num passeio por Buenos Aires

Em Buenos Aires, Mário Menezes seguiu os passos do futebolista: “Maradona fez as delícias da minha adolescência. Com ele aprendi a gostar de futebol. Infelizmente não o vi jogar ao vivo. Se o visse na rua fazia-lhe uma vénia e ajoelhar-me-ia perante ele”.

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Mário Menezes

Maradona deixou-nos recentemente. Partiu cedo. A vida fora dos relvados, a sua dependência do álcool e das drogas levaram-no à destruição. Viveu a vida ao máximo. Dizia verdades inconvenientes. Teve conflitos com todo o Mundo, com a FIFA, até com o Papa. Amigo de Fidel Castro, tinha Che Guevara, seu ídolo tatuado no corpo. Um rebelde! Mas foi dentro das quatro linhas que nos encantou com o seu futebol. Aquele pé esquerdo fazia obras de arte. Do “alto” do seu 1,65m e com alguns quilos a mais jogava que se fartava. O Mundo do futebol rendeu-se ao seu talento. Considerado por muitos como o melhor jogador de futebol de todos os tempos, todas as estrelas se tombavam perante ele. Ao pé de Maradona, Cristiano Ronaldo, Messi, ou qualquer outro são o “comum dos mortais”.

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El Caminito - mural de Maradona erguendo a Taça do Mundo e celebrando um golo Mário Menezes

Maradona fez as delícias da minha adolescência. Foi com ele que comecei a ver e a gostar de futebol. Ao futebol, há mais de trinta anos vou regularmente aos estádios. Ver jogos mas também sempre que posso visito os grandes palcos nas viagens que vou fazendo. Orgulho-me de já ter visto ao vivo alguns dos melhores jogadores de futebol do mundo a executarem a sua arte, mas infelizmente não tive a oportunidade de ver jogar Maradona ao vivo.  Uma das poucas personalidades, com quem se acidentalmente me cruzasse na rua lhe faria uma vénia e me ajoelharia perante ele.

Em Janeiro deste ano visitei a Argentina onde aproveitei para ver de perto dois dos mais importantes estádios de futebol do Mundo e prestar o meu tributo a este ídolo. O La Bombonera, casa do Boca Juniores e o Monumental, casa do River Plate e também da Seleção Nacional Argentina de futebol.  Dois dos muitos palcos palcos onde brilhou Maradona.  No primeiro com a camisola do seu clube do coração e no segundo sobretudo com a camisola “Albiceleste”.

Estádio Monumental Antonio Vespucio Liberti  – “Monumental"

Conhecido como “Monumental"  ou mesmo “Monumental de Nuñez” . Localiza-se no bairro de Belgrano, vizinho do bairro Nuñez, bairros associados à classe alta da sociedade Argentina. É a casa do River Plate clube conhecido como “Os Milionários”, e da Seleção Nacional Argentina de futebol. É o maior estádio do país, com cerca de 71.000 lugares. 

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Estádio Monumental Mário Menezes

A Seleção Argentina de futebol em 1978 sagrou-se ali campeã do Mundo. Mario Kempes, foi o melhor marcador e brilhou nesse jogo ao marcar dois golos da vitória contra a Holanda, no prolongamento. A outra grande conquista da “Albiceleste “ aconteceu 8 anos depois no Mundial do México, pela mão (literalmente) de Diego Maradona. E foi aí a sua consagração definitiva  como um Deus do futebol Mundial. A qualificação para esse campeonato do Mundo teve aqui 3 jogos, onde “El Pibe” também brilhou!

A visita ao estádio, engloba o museu do River Plate.

A entrada para o museu é feita por um túnel, a linha do tempo, que nos mostra a história deste gigante das Américas e das suas grandes conquistas. Mais à frente podemos ver as Taças Libertadores, uma delas conquistada recentemente, frente ao grande rival Boca Juniors. 

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Museu River - "River vuelve a ser River" Mário Menezes

O River Plate desceu de divisão pela primeira vez no seu historial, no ano de 2011. Renasceu literalmente das cinzas e em 2014 ganhou tudo! Como dizem os seus adeptos, “River vuelve a ser River”. 

Alguns dos craques que ali brilharam, destacam-se Saviola, Aimar, Falcão,  Enzo Francescoli, Ariel Ortega, David Trezeguet, Marcelo Salas ou Alfredo Di Stéfano, cujos nomes têm várias referências no Museu.

A visita ao estádio também é soberba e deixa qualquer adepto em êxtase. É possível chegar perto da relva, sentar no banco de suplentes, nas bancadas, nos balneários e também e passar no túnel de acesso.Quem gosta de futebol sente essa felicidade isso como ninguém!

Estádio Alberto José Armando – “La Bombonera" 

Mais um palco mítico. Nos dias que correm devido à recente morte de Maradona, é provavelmente o Estádio mais importante do Mundo. Estádio Alberto José Armando, mundialmente conhecido como La Bombonera, devido à sua forma se assemelhar uma caixa de bombons. Fica localizado no famoso bairro “El Caminito”, local de enorme romaria de turistas que visitam a capital Porteña. Bairro Portuário, ligado à classe operária de parcos recursos económicos, antigos emigrantes de origem Europeia, trabalhadores braçais e humildes. Caminito também imortalizado no Tango, um género musical que (diz-se) nasceu num bordel, por aquela região nas margens do Rio La Plata. As casas típicas coloridas dão-lhe a sua magia tradicional e memorável. 

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La Bombonera - vista para os camarotes Mário Menezes

Por El Caminito a arte urbana enche as paredes das casas e o futebol é rei. 

Presente nos murais das paredes está Juan Román Riquelme, um ídolo, um dos grandes jogadores do Boca Juniors, o único clube onde foi feliz. E Maradona, celebrando um golo perante a Inglaterra, vingando no futebol a derrota sofrida pela sua nação na guerra da Malvinas, e erguendo a Taça do Mundo em 1986. 

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El Caminito - vista para a zona portuária
El Caminito - Messi e Maradona
El Caminito - Riquelme, Maradona e Tevez, três ídolos
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À entrada de uma loja de souvenirs, junto ao estádio, estão várias estátuas coloridas de jogadores famosos com as quais podemos posar. Maradona como não poderia deixar de ser. Sentado ao lado de Martín Palermo, um avançado de grande qualidade. Carlos Tevez, nascido em “Fuerte Apache”, outro bairro pobre e violento da área metropolitana de Buenos Aires, cuja sua biografia recentemente deu origem a uma série da Netflix. Um rapaz humilde cujo sonho era jogar na Bombonera. Até  Messi anda por ali. Equipado com as cores da Seleção Nacional Argentina! 
 
A casa do Club Atlético Boca Juniors, o clube do coração de Diego Maradona.

Maradona, criado no bairro pobre de Villa Fiorito iniciou a carreira no “Argentinos Juniors” jogando depois no “Boca” e daí se transferiu para Europa. E foi no “Boca” que terminou a carreira. La Bombonera, estádio de conceção muito particular, pois tem uma parte de bancadas laterais, onde os camarotes predominam, fazendo lembrar a fachada de um prédio. O camarote onde Diego Maradona assistia aos jogos faz parte. Recentemente para o homenagear, durante a noite todas as luzes do estádio estiveram apagadas e apenas foi mantida acesa a luz do camarote de Maradona. 

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Bombonera, o balneário da equipa da casa Mário Menezes

A visita guiada ao estádio é acompanhada por uma guia que vive com paixão o que faz, e ama aquele clube do fundo do coração! E tal como no dia anterior na visita ao rival River Plate a guia era super efusiva. Os Sul Americanos são tidos como os adeptos mais ferrenhos do Mundo! 

Ela começou por explicar que ao “Boca” todos têm de fazer uma vénia porque ele é o maior clube do mundo. Por exemplo, no balneário da equipa visitante, a porta de entrada encontra-se rebaixada, e para passar por ela é necessário baixar a cabeça. Todos os que ali vão têm de se curvar perante o “Boca” e isso terão de fazer os adversários logo quando descem do autocarro e entram no estádio. Este balneário localiza-se por baixo da “grada”, assim são chamadas as bancadas que ficam atrás das balizas onde as celebrações de golo são famosas. Ali assistem aos jogos os adeptos mais fervorosos que são incitados a bater com os pés no chão para causar estrondo e causar respeito aos jogadores adversários quando se estão a equipar para subirem ao relvado. E dada a acústica daquele estádio, todos os visitantes são convidados a gritar em conjunto  “gooooolo” e sentirem os efeitos de assistirem ali na “grada” a um jogo. Com o estádio cheio é audível a vários quilómetros, em vários locais famosos da cidade como nas proximidades do Obelisco da Avenida 9 de Julho.

A visita aos estádio inclui também balneários, bancadas e relvado mas fora das quatro linhas. Qualquer amante do “desporto rei” ao pisar os locais onde os seus ídolos passam, sente-se no paraíso!

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Uma vénia a Maradona no Museo de la Pasión Boquense Mário Menezes

O museu do clube, no interior do estádio, Museo de la Pasión Boquense,  é um verdadeiro tributo ao futebol. Os troféus conquistados pelo Boca Juniores, vários vídeos que passam em vários ecrãs e numa pequena sala de cinema com ecrã a 360º, a História deste clube que é indissociável do bairro El Caminito. Maradona,  como não poderia deixar de ser, está presente em um grande mural, na escadaria e também uma estátua sua juntamente com outros jogadores míticos do Boca Juniors.

E foi com uma vénia à estátua deste Astro Argentino a que ninguém fica indiferente que dei por terminada esta visita maravilhosa e este sonho realizado de passar um dia na Bombonera. 

Ainda nos estamos a habituar à ideia que Maradona já não existe mais. Ele é uma figura que une os adeptos do desporto rei e ainda há pouco vimos nas televisões imagens de adeptos do “Boca” e do “River"  abraçados a chorar de dor. Uma enorme perda para o povo Argentino, que ama e preserva como poucos os símbolos nacionais, mas também para todos nós, cidadãos do Mundo que nos divertimos a ver futebol. 

E eu que me divirto imenso a viajar ou a ver um jogo de futebol, aproveito desta forma para prestar tributo e homenagem a Diego Armando Maradona, infelizmente a título póstumo, mas a vida é mesmo isto! 

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El Caminito - O leitor Mário Menezes entre "Martin Palermo" e "Maradona"

Mário Menezes, autor de alguns textos em Amantes de Viagens