Que as luzes de Natal continuem a brilhar

Aceito que as iluminações não sejam tão exuberantes, aceito que haja menos ruas decoradas mas, por nós, pelas nossas crianças, para que não percamos a capacidade de nos maravilharmos com as luzes de Natal, de acreditar que dias melhores virão, é importante que as luzes de Natal continuem a brilhar.

Foto
François Genon/Unsplash

Num dos meus passeios pelas redes sociais verifiquei que começam a aparecer, aqui e ali, os primeiros posts com fotografias da iluminação de Natal a ser montada em várias cidades deste país. Pensei que, efectivamente, o Natal está aí já ao virar da esquina.

Curiosa como sou, dei uma vista de olhos pelos comentários que acompanhavam as fotografias com as luzes de Natal. Assumo que adquiri o hábito de passar os olhos pelos comentários que chegam a tornar-se para mim mais interessantes do que o próprio post. Costumo dizer que é nesses comentários que encontramos o verdadeiro país e o verdadeiro sentir do português. E, perante os comentários que fui lendo, posso dizer-vos que, de um modo geral, o sentir do cidadão português é de ódio em relação às iluminações natalícias. “Não são tempos de gastar dinheiro em iluminação de Natal”, “Os tempos não são de festa”, “Este ano nem vai haver Natal, então porquê decorar as ruas?” são apenas alguns exemplos dos muitos comentários que li e que seguiam, em geral, esta linha de pensamento.

Fiquei a matutar sobre a situação e a questionar-me: deveríamos, ou não, decorar as ruas com luzes natalícias? Deveríamos, ou não, procurar alimentar o nosso espírito natalício?

Pensei, num primeiro momento que, de facto, os tempos são sombrios e não estão para festas. Esta pandemia arrancou-nos muito daquilo que nos fazia ser pessoas felizes. Escrevo esta crónica numa tarde de confinamento em casa. Poderia ser um dia de passeio, um dia para apreciar as cores outonais da natureza, mas mais não é do que um dia em que, apesar de sentir a necessidade de sair de casa, não o posso fazer. Escrevo esta crónica num dia em que uma amiga necessitaria, mais do que nunca, da presença dos amigos e do conforto de um abraço apertado e, no entanto, estou aqui em casa, confinada, a pensar em dias melhores. Poderia ser um dia de reunião familiar, mas mais não é do que um dia em que cada um está circunscrito ao seu lar.

Espreito a rua da minha varanda. Mais uma vez temos a presença daquele silêncio ensurdecedor que tivemos aquando do primeiro confinamento. Como detesto este silêncio. Sinto, como a maior parte do país sentirá, que a situação está a ficar descontrolada. Todos os dias vou trabalhar questionando-me sobre quantos alunos irão faltar nesse dia, quantos estarão em quarentena. Todos os dias olho para a cidade perguntando a mim mesma sobre quais serão os estabelecimentos que hoje estarão fechados porque se descobriu mais um caso positivo. Entranhou-se em mim uma certa angústia que me leva a ter dificuldade em respirar. A incerteza da saúde dos meus e dos que me são queridos leva-me a que esse receio e angústia se colem à minha pele.

É um facto: Portugal está triste e tem razões para estar. Há já uns dias que ecoam na minha mente os versos de Pessoa que iniciam o poema Nevoeiro: 

“Nem rei, nem lei, nem paz nem guerra
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer.”

Sim, de facto os tempos não são felizes e não são mesmo de festa. Contudo, é precisamente por essa tristeza que, num segundo momento, pensei que seria da maior importância manter a tradição de iluminar as ruas com luzes natalícias. É precisamente por essa tristeza que me insurjo contra as pessoas que não querem que haja luzes de Natal nas ruas, que exigem que se esqueçam as decorações natalícias.

A situação é complicada, escura, difícil de viver e suportar, mas temos que lutar contra esses sentimentos de tristeza e angústia que se apoderam de nós. Precisamos de continuar a acreditar que as medidas tomadas levarão a que a situação melhore, precisamos acreditar que, depois do nevoeiro, chegará um dia brilhante e soalheiro. Por isso, no meio de todo este momento menos bom, digo que temos de aprender a agarrar os momentos positivos (que ainda os há), temos que aprender a olhar para o lado bom da vida, como diziam os Monty Python.

Mais do que nunca, dou por mim a valorizar um café com amigos, uma conversa em fim de tarde, um jantar, ainda que com tempo cronometrado porque temos recolher obrigatório. Mais do que nunca, dou por mim a apreciar um dia soalheiro, a apreciar a beleza das pequenas coisas. E, mais do que nunca, penso que as luzes de Natal nos ajudarão a manter a esperança em dias melhores e a manter alguns dos bons sentimentos associados ao Natal. Precisamos desse acto de fé, desse recordar que, de um modo ou de outro, haveremos de ter Natal. Precisamos de sentir que conseguimos manter alguma normalidade neste 2020 que tão anormal tem sido.

É um facto que os tempos estão difíceis e que não podemos entrar em despesas supérfluas. Ainda assim, considero que devemos decorar as nossas ruas. Aceito que as iluminações não sejam tão exuberantes, aceito que haja menos ruas decoradas mas, por nós, pelas nossas crianças, para que não percamos a capacidade de nos maravilharmos com as luzes de Natal, de acreditar que dias melhores virão, é importante que as luzes de Natal continuem a brilhar.