A coragem e o desassombro de Ana Gomes

O desassombro de Ana Gomes nunca a abandonou e fez e faz dela a cidadã admirada mesmo pelos que não partilham os seus pontos de vista. Não poderá haver grandes dúvidas: a sua candidatura é a que tem mais espaço e possibilidades para se bater com Marcelo.

Conheci Ana Gomes na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa vai fazer meio século. Expulso da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, aterrei na Faculdade de Direito de Lisboa onde o MRPP tinha grande implantação com alguns quadros hoje de grande relevo (Saldanha Sanches, Maria José Morgado, Durão Barroso, Ana Gomes, entre muitos outros).

Houve um momento raro, talvez 1973, em que todos convergimos em tentar enfrentar os gorilas plantados na Faculdade e lembro a brutalidade da repressão e da Ana a ser espancada por polícias de choque em frente à Reitoria. Tentavam pegar-lhe pelos braços e pelas pernas e ela esperneava e tentava impedir o impossível, ou seja, fugir dos carrascos.

Num mundo insonso, um tanto ao quanto encarneirado, à espera do que está à mão, faz falta a coragem.

Muita História passou nestes cinquenta anos e fui encontrando Ana Gomes na luta pela Palestina, pela eleição de Salgado Zenha, pela independência de Timor Leste, contra a invasão do Iraque e noutras situações. Casos houve em que estivemos e ainda estamos em campos diferentes.

A verdade é que o desassombro da Ana nunca a abandonou. Aliás, quero crer que esse desassombro fez e faz dela a cidadã admirada, mesmo pelos que não partilham os seus pontos de vista.

Há quem diga em voz baixa que um tal desassombro não seria o indicado para um cargo tão alto. Aconselho a consulta ao dicionário para encontrar o significado do verbo desassombrar e há que não temer as palavras, nomeadamente as que são fortes. Tirar da sombra e aclarar só pode ser de louvar.

Colocando então a questão deste modo mais simples: deve ou não ser o(a) Presidente da República alguém corajoso(a) que diz o que tem a dizer, desassombradamente, porque do alto do seu poder aclara, ilumina, ou deve ser alguém que não diz o que pensa, alguém que pensa no que outros pensam e vai atrás dessa corrente em vez de forjar marés de esperança?

Sejamos claros, merece ou não a luta contra a corrupção desassombro? É ou não a corrupção um mal nacional? A afirmação desse combate não preenche a vida da candidata, como é sobejamente conhecido. O impulso e a tensão nesse combate são relevantes. E esse é também o desassombro ao não tergiversar.

A coragem é um dos atributos mais valiosos nos cidadãos que assumem cargos de enorme poder. Portugal e o mundo exigem que haja coragem por parte de quem exerce o poder, e desde logo no vértice.

É preciso a coragem de remar contra as marés do conformismo, do esbatimento ideológico, da traficância de interesses.

Num mundo cada vez mais uniformizado, atrelado aos interesses dos Todo-Poderosos, faz falta a coragem.

Claro que há mais mulheres e homens de coragem, quer no PS, no BE, no PCP, nos outros partidos e fora deles, mas o combate que temos pela frente exige que saibamos ver quem está em melhor posição para fazer frente a Marcelo que, muito antes de ser eleito, já estava em campanha nas televisões que o projetaram, após inúmeras derrotas eleitorais. Nem com mergulhos no Tejo se safou, como tão bem o retratou Natália Correia.

Não interessará tanto saber quem tem mais pergaminhos, tanto mais quanto não foi possível (desgraçadamente) encontrar nas esquerdas um(a) candidato(a).

Um último argumento: a maior desgraça a sair das eleições de 24 de janeiro seria André Ventura ficar em segundo lugar. Só Ana Gomes garante o alívio desse pesadelo.

Assim, não poderá haver grandes dúvidas, apesar de lacunas, sobretudo no mundo laboral, que Ana Gomes se coloca na melhor posição para dar combate à candidatura de Marcelo, o homem que vive sob a forma de tropismo mediático, que, para estar em todo o lado, não está de verdade em lado nenhum.

Ao dar o passo e dizer ao seu partido que há gente no PS corajosa e capaz, independentemente do anúncio pessoal de Costa na Autoeuropa, Ana Gomes mostrou a fibra de que é feita – avançar quando podia fazer cálculos e mais cálculos. A sua candidatura é a que tem mais espaço e possibilidades para se bater com Marcelo.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico