“A pandemia mostrou que as pessoas precisam de jornalismo de qualidade”

A procura “desenfreada” por notícias sobre a covid-19 seguiu-se de uma tentativa de as evitar. Pelo caminho, foram encontradas muitas fake news. Que papel teve o jornalismo na vida dos jovens (e não só) em tempos de pandemia?

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sorbetto/Getty Images

Há mais de 2700 notícias falsas sobre covid-19 por dia”: o título chegava aos jornais em Maio e dizia que, no mês anterior, a Comissão Europeia tinha detectado mais de 2700 exemplos de informação falsa disseminada sobre o vírus, todos os dias. Entre Janeiro e Março de 2020, a União Europeia tinha apenas encontrado 110 casos de desinformação associados ao novo coronavírus. A estes números, juntavam-se milhões de publicações falsas ou enganosas encontradas por toda a Internet: no Facebook, Google, Twitter e tantas outras aplicações que usamos diariamente.

“Acredito que [a disseminação de tantas notícias falsas] foi uma exploração do medo”, aponta Inês Amaral, docente na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. “É a primeira vez que há uma pandemia na era digital e que, à escala mundial, há esta generalização do medo.” E esse poderá ter sido um factor-chave para “fazer crescer a desinformação e trazer dividendos — não só económicos, mas também políticos”.

Desde receitas milagrosas, teorias da conspiração, a áudios de supostos médicos que garantiam que estavam a ser ocultadas milhares de mortes, a covid-19 “trouxe à tona a dificuldade das pessoas em ler os media e de acreditar na ciência”, refere a investigadora. Mas se, em tempos normais, “dizemos que são as pessoas que têm menos literacia digital ou mediática” quem é mais susceptível de acreditar na desinformação, no caso das fake news relacionadas com a pandemia pode não ser tão fácil traçar padrões: “Perante o desconhecido todos temos medo.”

Um estudo realizado nos Estados Unidos por grupos da Universidade de Harvard, de Rutgers, de Northeastern e de Northwester, concluiu que eram os jovens com idades entre os 18 e os 24 anos quem tinha mais probabilidades de acreditar em informação errada ou falsa. Mas Carolina Carvalho, estudante de Antropologia em Lisboa, parece não concordar: “Eu tenho 19 anos, nasci no mundo da Internet — usava o meu bom senso e geralmente conseguia identificar as fake news. Mas elas estão cada vez mais densas e difíceis de desviar. Os meus avós, por exemplo, têm muita dificuldade em discernir o que é real e não é”, garante.

No Brasil, onde nasceu e passou o período de confinamento, encontrou frequentemente informação falsa sobre a cloroquina (o medicamento que Bolsonaro garantiu curar a covid-19, sem qualquer evidência científica) e a suposta inutilidade do uso de máscara. Foi também lá que decidiu deixar de ver ou ler notícias após os primeiros meses de pandemia. Ou, pelo menos, a não o fazer com a mesma frequência com que o fazia em Março, quando o vírus chegou a Portugal. “Comecei a assistir bastante [aos telejornais], mas depois começou a ficar muito pesado, então comecei estrategicamente a evitar o jornal”, conta.

A tendência de leitura de notícias sofreu uma reviravolta quando o vírus chegou à Europa: “Houve um consumo desenfreado e uma disseminação massiva de conteúdo, não só nas redes sociais, mas também em plataformas como o WhatsApp. O alcance da disseminação de informação conheceu, durante a pandemia, uma dimensão sem precedentes”, enquadra Inês Amaral. Um inquérito realizado entre Abril e Setembro pela Escola de Medicina da Universidade do Minho mostrou que 75% dos inquiridos disse ter notado um aumento no tempo de consumo de meios de comunicação social.

No caso do PÚBLICO, houve, entre Janeiro e Novembro, um aumento de leitores em todas as faixas etárias, mas o mais expressivo aconteceu na faixa etária dos 18 aos 24 anos, tendo representado um aumento de quase o triplo em relação ao mesmo período do ano anterior. Este aumento foi ainda mais acentuado entre Março e Maio.

Para Jorge Félix Cardoso, actualmente em Bruxelas, a trabalhar no Parlamento Europeu, o hábito de leitura de notícias já estava enraizado. Não mudou a rotina, mas sim “o tipo de notícias a consumir”: passou a ler mais sobre “comunicação de ciência, políticas de saúde pública e de situação de emergência”. Mas também ele sentiu o mesmo que Carolina. “Tive alguns momentos em que deixei de ler tantas notícias durante alguns dias. Estamos a entrar no nono mês de pandemia, não é sustentável manter um ritmo de seguir os números todos os dias”, justifica.

Inês Amaral explica que “durante a pandemia, também houve esse momento de evitar a informação” em algumas pessoas. “A certa altura é uma sobrecarga de informação, mas também emocional.” É como que uma procura por descanso, levada a cabo por muitos, não havendo, por isso, “um padrão específico em termos de idade”. No PÚBLICO, em Junho, Julho e Agosto, o descréscimo de leitores foi sentido essencialmente nas faixas etárias dos 18 aos 24 e superior a 65 anos, tendo voltado a aumentar ligeiramente com o aumento dos casos de covid-19, entre Outubro e Novembro.

Independentemente da tendência de consumo, há uma ideia corroborada pelos três: a importância do jornalismo enquanto meio de acesso a informação fidedigna e de qualidade. Jorge Félix Cardoso acredita que ficou reforçada a “necessidade de investimento nas redacções, numa altura em que os jornalistas foram “agentes de saúde pública e essenciais”. “Acredito que ficou muito clara a diferença entre ter jornalismo sustentável ou ter um jornalismo refém de poucos recursos”, defende.

“A pandemia mostrou que as pessoas precisam de jornalismo de qualidade. Não de jornalismo justiceiro, sensacionalista ou paternalista”, afirma Inês Amaral, que acredita que alguns jornais “marcaram pela sobriedade e qualidade”. A docente realça a “procura pelas fontes, informação fidedigna e, sobretudo, por darem voz à ciência”, mas também o facto de alguns jornais desactivarem a paywall e deixarem aberta a informação sobre a covid-19, como o PÚBLICO fez.

O jornalismo online, acredita, teve também um papel importante — o de saber parar e procurar temas alternativos à pandemia e “mostrar às pessoas outras janelas para o mundo e que a vida vai existindo, para além da pandemia, não significando que devem ser adoptados comportamentos de risco”. “Foi uma lufada de ar fresco.”