Com a ajuda de The Queen’s Gambit, o xadrez virou a nova moda da pandemia

Com os confinamentos, totais ou parciais, cada vez mais pessoas se têm virado para o xadrez como forma de entretenimento. Mas a popularidade da série da Netflix levou este jogo a uma nova vaga de entusiastas.

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Este ano, milhões de pessoas por todo o mundo foram forçadas a ficar em casa e a procurar novas formas de entretenimento. Uns aprenderam a fazer pão, outros aprenderam a tocar instrumentos e muitos viraram-se para videojogos e jogos de tabuleiro. O xadrez tem sido recebido uma renovada atenção e o impacto da série The Queen's Gambit tornou o jogo tradicional num fenómeno digital.

Estreada a 23 de Outubro, a série da Netflix retrata a história de uma jovem mulher americana, nos anos 60, que se tornou num prodígio internacional do xadrez. Segundo dados da plataforma, The Queen's Gambit foi vista por mais de 62 milhões de pessoas e é o programa da Netflix com mais audiência em dezenas de países, entre os quais Portugal.

A vaga de novos entusiastas pelo xadrez, influenciados pela série para se tornarem no próximo Gary Kasparov, tem corrido ao comércio de retalho e a todo o tipo de entretenimento em torno do desporto. A rádio pública dos Estados Unidos, a NPR, noticiou que uma empresa que vende tabuleiros de xadrez assistiu a um crescimento de 1000% nas vendas em Outubro e há cada vez menos tabuleiros à venda em supermercados e lojas de brinquedos. Ao Washington Post, um americano que usa o xadrez para desenvolver competências mentais, Seth Makowsky, tem sido cada vez mais procurado por celebridades e passou a ensinar xadrez à equipa de natação artística dos Estados Unidos e à actriz Cameron Diaz.

"É um momento entusiasmante para a sociedade, porque está a tornar ser inteligente algo cool”, disse Makowsky ao jornal norte-americano.

Mas se é verdade que a série ajudou o desporto, o interesse pelo xadrez tem crescido desde Março. Segundo o Washington Post, o site chess.com registou quase 13 milhões de novos utilizadores (mais de 2,3 milhões só no último mês). Um torneio em Junho de xadrez amador, PogChamps, explodiu no Twitch, uma plataforma de streaming usada primariamente para transmissão de videojogos – mais de 50 milhões de pessoas viram o torneio. Tornou-se o evento de xadrez mais visto de sempre.

Mas o fenómeno em torno de The Queen’s Gambit não influencia apenas o mundo do xadrez. A série passada em torno de Beth Harmon também conta a história de uma mulher que tem de ultrapassar um conjunto de dificuldades pessoais para ter sucesso num mundo completamente dominado pelos homens. E é por isso que muitas mulheres também se tornaram fãs da série, por esta retratar uma luta constante.

“Ela entra por ali, motivada pelo seu intelecto e pelo seu amor por algo e não deixa que essas barreiras a travem. É muito empoderador, especialmente nestes espaços onde sentes que não consegues sobressair porque queres ser incluída e não excluída. E ela diz-te que não há problema”, disse Selena Lucien ao Washington Post.

Lucien é uma jovem advogada canadiana, viciada em xadrez online. Na ânsia de não querer perder partidas, atrasa-se para encontros. Nunca jogou muito xadrez quando era mais nova, mas revê-se na personagem de Harmon quando se trata de tentar ganhar em desportos masculinos. Quando quis jogar xadrez com outros rapazes, circunstâncias familiares não a deixaram progredir no desporto. Mas chegou a covid-19 e tudo se alterou. Entre podcasts e passeios de bicicleta, Lucien passou a usar a aplicação do chess.com e viciou-se no jogo, abrindo a aplicação entre chamadas com clientes.

Nos diferentes eventos da actualidade, Lucien começou a perceber o xadrez simboliza mais do que um desporto. Há gambits – a jogada inicial em que o jogador sacrifica um peão para ganhar uma determinada vantagem – por todo o lado e Lucien passou a traduzir jogadas políticas, como nas eleições americanas ou na resposta canadiana à pandemia, como gambits. Sacrifícios para chegar a uma vantagem.

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E para a jovem advogada, o mundo polarizado e masculino tornou-se mais simples de perceber e desconstruir quando passado para os 64 quadrados do tabuleiro. Há regras, há limites para jogar e os confrontos são sempre um contra um.

“Na vida, é muito difícil ultrapassar essas barreiras. Entras numa sala e já existem concepções contra ti. No xadrez, nada disso importa”, afirmou Lucien ao Washington Post.