Novos casos de infecção por VIH/sida baixaram, mas especialistas receiam retrocesso por causa da pandemia

No ano passado houve menos 331 novos casos de infecção por VIH/sida e os óbitos também baixaram para os 197. A diminuição dos diagnósticos tardios é outra boa notícia divulgada esta quinta-feira pela Direcção-Geral da Saúde. Mas os especialistas receiam que a pandemia venha a gerar retrocessos em termos de prevenção e rastreio. E pedem mais auto-testes para as farmácias.

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O confinamento e o medo provocados pela pandemia podem ter levado a diminuição dos rastreios e da prevenção Rui Gaudêncio (arquivo)

Menos casos e menos mortes: a infecção por VIH/sida voltou a descer em 2019 para os 778 novos casos (menos 331 do que no ano anterior), num ano em que foram comunicados 197 óbitos em doentes infectados, abaixo dos 216 do ano anterior. O relatório do programa da Direcção-Geral da Saúde para a infecção VIH/sida, elaborado em conjunto com o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (Insa), destaca ainda que a percentagem de diagnósticos tardios, uma das preocupações dos especialistas, baixou dos 54,4% em 2018 para os 49,7%, no ano passado.

Apesar das melhorias detectadas, e tendo em vista a obtenção de melhores resultados no diagnóstico precoce, os especialistas enfatizam a necessidade de alargar a realização do teste rápido nas farmácias às várias regiões do país, bem como a disponibilização do autoteste. “A recuperação de alguma da actividade comprometida por via da pandemia da covid-19, nomeadamente a nível dos rastreios e da prevenção, tem de ser priorizada”, alertam os autores do relatório, assumidamente preocupados com o risco de os números relativos ao ano 2020 manifestarem agravamentos por causa “dos constrangimentos provocados na sequência da pandemia por SARS-CoV-2”.

“É antecipável que a repercussão em termos da distribuição de materiais preventivos e informativos, de rastreios e de consultas no âmbito da profilaxia pré-exposição se venha a notar aquando da elaboração referente aos dados de 2020”, lê-se no documento que divulga a informação epidemiológica nacional relativa ao VIH/sida e cujos autores suspeitam que os períodos de maior ou menor confinamento e o medo instalado na população tenham degenerado num “reequacionamento de prioridades por parte da população e dos serviços de saúde”.

Por enquanto, e referindo-se ao ano anterior à eclosão da pandemia, o relatório apresenta boas notícias, a começar pelo facto de não ter sido notificado nenhum caso de transmissão de VIH em crianças. Recorde-se que, em 2018, tinham sido diagnosticados três casos de VIH em crianças e, em 2017, cinco. No ano passado, a maioria dos 778 novos casos de infecção (um número já muito distante dos 3358 casos registados uma década antes, em 1999, que foi o ano em que Portugal atingiu o maior valor anual de novos diagnósticos) registou-se em homens. E a mediana das idades à data do diagnóstico foi de 38 anos, sendo que 24,2% dos novos casos foram relativos a homens com 50 ou mais anos de idade.

“A idade mediana mais baixa foi apurada nos casos de homens que têm relações sexuais com outros homens”, lê-se no documento, que a seguir precisa que estes correspondem a 65,2% dos casos diagnosticados em indivíduos com menos de 30 anos, embora, ressalvam os autores, “a transmissão heterossexual se mantenha como a mais frequente”. Feitas as contas de outro modo, e sem esquecer que a transmissão por relações sexuais heterossexuais foi responsável por 57,8% dos novos casos de infecção, a questão é que os casos relativos a homossexuais tendem a ocorrer 13 anos mais cedo.

Entre os novos infectados, metade residia na Área Metropolitana de Lisboa, com 13,7 casos por 100 mil habitantes, seguida de muito perto pela região do Algarve, com 13,5 casos por 100 mil habitantes.

No ano passado, foram diagnosticados 172 novos casos de sida. Os portadores da doença tinham em média 45 anos de idade. Daqueles, 37,8% apresentavam-se com pneumonia, que “foi a doença definidora de sida mais frequente”, seguida da candidose esofágica, mais frequente nos homens, e da tuberculose extrapulmonar, no caso das mulheres.

Dos 197 óbitos ocorridos em 2019, mais de 43% ocorreram nos 15 anos subsequentes ao diagnóstico da infecção por VIH. Eram maioritariamente homens, com uma idade mediana a rondar os 57 anos.

Mais de 66 mil testes rápidos e 5,5 milhões de preservativos

Os dados acumulados até 31 de Dezembro de 2019 dão conta de 15.213 óbitos e de 61.433 casos de infecção por VIH, dos quais 22.835 evoluíram para sida. Numa janela temporal alargada, entre 2009 e 2018, o relatório aponta uma redução de 47% no número de novos casos de infecção por VIH e de 65% nos novos casos de sida. Porém, apesar das descidas sustentadas, Portugal continua a destacar-se “pelas elevadas taxas de novos casos de infecção por VIH/sida entre os países da Europa Ocidental”.

De resto, as estimativas realizadas para o ano de 2018 revelaram que viviam em Portugal 41.305 pessoas com infecção por VIH, das quais 6,8% não diagnosticadas. O tempo médio entre a infecção e o diagnóstico era de 3,4 anos, no final daquele ano.

E, muito embora a evolução em novos casos de diagnósticos tardios seja encorajadora”, insistem os especialistas, “o facto de quase metade dos casos serem diagnosticados tardiamente, particularmente entre os homens heterossexuais, continua “a justificar o investimento em termos de prevenção e promoção do diagnóstico”.

A este propósito, o relatório indica que foram realizados no ano passado mais de 66 mil testes rápidos para VIH em diversas estruturas de saúde e comunitárias, “numa clara aposta na promoção do acesso atempado ao rastreio e diagnóstico da infecção”. E, entre Outubro de 2019 e Agosto de 2020, foram dispensadas mais de três mil unidades de autoteste para VIH nas farmácias comunitárias. São, note-se, testes que só começaram a ser distribuídos em Outubro do ano passado, como forma de chegar até aos que evitam os serviços de saúde por temerem ser discriminados.

No ano passado, foram distribuídos cinco milhões e meio de preservativos masculinos e femininos e mais de um milhão e meio de embalagens de gel lubrificante. Já no âmbito do programa de troca de seringas, foram distribuídas 1,4 milhões de seringas entre a população utilizadora de drogas injectáveis.